A vergonha é o mal do mundo

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Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse nãoinúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

Por que Plano B?

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Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.

A vida sem vergonha

 

Beatriz Franco, 28 anos, nasceu e mora em Santos, litoral sul de São Paulo. É jornalista e tradutora. Fala e escreve com fluência português, espanhol e inglês. Como milhares de profissionais da comunicação, foi apanhada pelo passaralho, o monstro de asas que está desertificando as redações de jornais, revistas, sites, assessorias, televisões mundo a fora. Para quem não é do ramo vale explicar: não se trata de uma crise. Não é um drama, exclusivamente, brasileiro. Trata-se de uma transformação no modelo de negócio. É global. O formato anterior que financiava os veículos impressos por meio da receita vinda do leitor que comprava na banca ou assinava e pela receita dos anúncios faliu. Os meios digitais, em sua maioria gratuitos, mudaram essa equação. O mesmo vale para a televisão, que sofre com a queda de audiência e, consequentemente, de receita publicitária. As novas plataformas digitais como Google, Youtube, Facebook fazem parte dessa mudança. Um novo modelo ainda vai nascer. Neste meio tempo, os jornalistas estão na lona, sem emprego, sem trabalho e sem ganhar dinheiro. Estão virando suco.

No domingo, ao publicar um texto sincero no Facebook, Beatriz virou um exemplo. Exemplo de transparência, de honestidade e de redenção. Depois de ficar quatro meses sem trabalho, agoniada, sofrendo no sofá de casa, decidiu enfrentar seus medos, suas vergonhas e preconceitos. Criou um plano B ao aceitar o convite de uma amiga para trabalhar de quarta a sábado como atendente em uma doceira de bairro em Santos.

Ao assumir a nova função, descobriu novos talentos. Ao ir à luta, decidiu contar o seu processo. Compartilhou suas descobertas e, consequentemente, encarou de frente os seus fantasmas. Não sabia, mas havia criado um viral (https://www.facebook.com/beatriz.franco.792197?fref=nf&pnref=story). Virou exemplo e modelo de superação. Ajudou um bocado de gente a sair do modo “pausa”. “Nunca imaginei que o meu texto teria essa repercussão. Escrevi para exorcizar a minha vergonha”, diz Beatriz, que agora exibe com orgulho a touquinha de vendedora que tanto a desestabilizou nos primeiros dias.

Você escreveu em seu texto que o pior foi vestir a touquinha. Por que?

“Eu tinha vergonha. Era preconceito. A touca era o símbolo de que eu estava, supostamente, fazendo uma atividade “menor”, inferior. Afinal eu era jornalista, falava três idiomas. É um absurdo a forma como vemos certos trabalhos. É um absurdo sentir vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas.”

Quando a sua vergonha passou?

“Comecei a trabalhar em uma quarta-feira. É uma loja de bairro. Existe uma rotina. As pessoas chegam na mesma hora, todos os dias. Vem tomar um café, comer um pedaço de bolo. Fui sentindo prazer em atender, conversar, trocar com os clientes. Além disso, descobri que nos finais de semana, o trabalho é uma loucura. Tenho que me desdobrar para atender a todos com rapidez e eficiência. Não é um trabalho tão fácil e simples quanto parecia. Percebi que eu tinha muitos preconceitos. Acho que ao entender isso, a vergonha foi passando. Hoje estou aprendendo sobre gestão. Quero estudar, fazer cursos, posso me tornar uma empreendedora.”

E os amigos?

“Eu sentia vergonha deles também. Ficava pensando sobre o que eles iriam pensar me vendo ali servindo mesas. Outra bobagem. Acho que escrevi o texto para colocar um ponto final neste sentimento. Funcionou.”

– Como está a sua vida agora?

“Estou feliz. Faz três semanas que estou trabalhando. Gosto de atender as pessoas. Gosto de ouvir histórias. Estou interessada em aprender mais sobre a gestão do negócio. Acho que levo jeito para a coisa. Adoro o jornalismo. É a profissão que eu escolhi. Estudei muito, mas neste momento não dá para viver disso. Estou aprendendo uma atividade nova. Estou ouvindo muitas histórias, conhecendo muita gente. E agora, estou escrevendo a minha história de um jeito diferente. No fundo, também foi para isso que fiz jornalismo. Curioso, não é?”

 

 

Família, amigos e música

 

O gênio da lâmpada apareceu na sua frente e disse: “Escolha três coisas que você mais ama e não pode viver sem? O que você responderia? Já pensou nisso?

De chofre, a resposta automática pode ser aquilo que você mais demanda naquele instante. Tipo: está duro? Pede dinheiro. Está com fome? Pede comida. Mas não é isso que o gênio quer saber. Irritado, ele explica: “Eu disse três coisas que você mais ama e não pode viver sem porque vai sentir fome e dor no coração”.

Agora entendi. Obrigada gênio. Deixa eu pensar. A lista de itens começa a rodar em ordem alfabética como um letreiro de filme.

Amigos. É o primeiro objeto do desejo que brota na minha cabeça. Só de pensar em abrir mão deles começa a doer.

Amor. Amor verbo intransitivo. Está na categoria comer e respirar. Ufa, passei.

Bicicleta. Lembro da Lola estacionada na garagem. Sinto tristeza e nostalgia. Adeus minha companheira.

Bichos. Lembro da família de quatro patas e já sinto vontade de chorar. Gênio, vamos negociar isso aqui?

Cinema. Amo, adoro, mas às vezes fico meses sem ver. Passo.

Chocolate? Já fiquei um ano sem comer em uma promessa que fiz, sobrevivo sem.

Cachaça? Como será a vida sem uma caipirinha? Possível. Fora do rol.

Churrasco. Enfim, virarei vegetariana?

Doces? Posso sim riscar o açúcar da minha existência. Um, dois, três e já.

Família? Amigos, bichos e família são para mim um único item. Gênio, vamos negociar?

Fotografia. Adoro ver. Adoro fazer. Saudade.

Livros? Ai meu Deus, vamos deixar na lista para decidir no final?

Mar. Se o gênio me levar para Marte, fazer o quê?. Se na Terra, eu ficar será muita falta de sorte ficar longe dele de novo. Vamos rezar. Vamos torcer.

Música. Sem chance. Sem chance. Sem chance.

Arembepe, Londres, Paris, Rio e Roma? Foi um privilégio conhecê-las. Vão morar para sempre no meu coração.

Vou espremendo a memória. Revendo os itens, como quem faz a limpeza anual do guarda-roupa. Como quando lota a capacidade de armazenamento do MacBook Air e você precisa escolher quais fotos ficam na memória e quais vão para o HD externo. Lembro de um monte de coisas que gosto de fazer mas que faz um tempo enorme que não pratico, como mergulhar, jogar handball e fazer fios de ovos. Percebo que está cada vez mais claro quais são as prioridades. Fico feliz. Será mais fácil negociar com o gênio, se é que existe negociação.

“Gênio, minha família, meus amigos e meus bichos podem fazer parte de um único item?” Ele ri, sarcástico. Deve ouvir cada proposta indecente. “Você pariu seu cachorro, Zapata, do mesmo jeito que pariu seu filho, Chico?”. A pergunta encerra o assunto. Ele me olha com impaciência.

Então, qual é a dúvida? Quer saber? Nenhuma.

“Família, amigos e música.”

A lista tríplice é definitiva. É um deleite saber poder definir, assim, com relativa facilidade os meus amores. Enquanto escrevo, sinto uma leveza e uma sensação de liberdade. O resumo das minhas necessidades. A essência. Só isso importa. Só isso interessa. O resto é acessório. Se tiver muito bem. Se não tiver paciência. Faço um rápido flash back. É a prova dos nove. Não esqueci nem deixei nada para traz. A última quinzena foi linda, especial. Vivi cercada de gente que amo, celebrando a vida em modo festa, encontro, jantar, reunião. Família, amigos e música.

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Obrigada, Gênio. Não preciso pedir nada. Tenho tudo aquilo que amo e preciso.Ah, por favor, deixa eu terminar meus dias na beira do mar.

 

 

 

 

 

 

Epifania de domingo: pequenos prazeres

Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális

Todo mundo tem o seu retrato de Dorian Gray. O meu é esse acima. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Havia passado para o segundo ano da faculdade de Jornalismo. Me sentia livre, jovem, poderosa, inteligente e capaz. Estava muito apaixonada. Tinha certeza que cumpriria meus milhares de planos. Tinha a vaidade de achar que era dona da verdade e que poderia mudar o mundo sem precisar mudar de ideia. Tinha tantas vontades quanto as que cabiam dentro do meu peito.

No dia da foto, naquele distante janeiro de 1984, na ainda quase deserta praia de Canoa Quebrada, no litoral sul do Ceará, enxerguei, sem querer o futuro. Desisti de fazer uma tatuagem de lua e estrela no ombro direito, porque me vi ontem nua na frente do espelho, e pensei:

– Essa tatuagem não ficará bonita no corpo de uma mulher de 50 anos. E vou sentir uma dor, uma saudade, uma tristeza desse tempo que foi tão lindo, tão solar, tão sensacional. Vou cancelar o serviço.

Como disse nove linhas acima, eu era metida e pretensiosa. Burra. Vaidosa. E equivocada. Não tenho a tatuagem e lembro disso tudo como se a tivesse. Se a tivesse, seguramente, teria orgulho e carinho por ela em meu ombro ainda rijo ma non tropo. Sempre que a enxergasse, teria um arrepio de prazer na espinha. Perdi. Paciência.

O bom da vida é que sim, a gente dança. Baila e muda o tempo inteiro. No meu caso, além de mudar, acabo por engolir com farinha e gargalhadas tudo o que um dia disse “nunca, jamais faria”. Fiz tudo e mais um pouco do que já neguei e condenei na vida. Casei. Tive filho. Separei. Engordei. Emagreci. Cedi. Descasquei. Perdi. Apaixonei. Troquei. Principalmente falhei. E fundamentalmente, mudei. Mudei muito.

Sem arrependimentos, fi-lo porque qui-lo. Porque assim entendi ser melhor. Ontem aconteceu de novo. Depois de um feriado inesquecível, quando recebi meus hóspedes com carinho, estive reunida com meu filho e meus amigos mais queridos, quando tive o prazer de ser fotografada por um mestre e quando tive a honra de celebrar o amor de dois amados amidos, tive uma epifania na frente do espelho do meu banheiro.

Tirei a roupa para tomar banho e me vi nua. Despida das roupas e das ideias e preconceitos que carreguei por tantos anos. Reparei nos seios mais cheios e caídos do que no tempo do retrato e achei que eram lindos. Encarei minha barriga nada negativa e achei-a verdadeira e legítima. Representa os últimos anos de prazer. De festa com os amigos. De farra com a vida.

Não pretendo cultivá-la porque quero manter o meu guarda-roupa G, número 44. Mas definitivamente  não perseguirei mais o figurino 40 que me coube por tantos anos. Ele ficou para trás, como uma boa lembrança. Como a foto do topo desse texto. Como a força de vontade que me abandonou no café da manhã quando disse sim para um bolinho de estudante.

Ainda na frente do espelho ontem, lembrei de uma palavra que adoro e me inspirava a fazer dieta e exercício no ritmo 24×7. Sílfide. Sílfide para quem? Bonitinha e perfeitinha por quê? Um sorriso maroto apareceu no canto dos meus lábios, ligeiramente enrugadinhos. Pensei despudorada:

– “Ficou velhinha e espertinha. Abandonou o estoicismo e aderiu ao hedonismo. Boa escolha.”

Verdade, verdadeira. Ainda sou fibrosa, mas faz tempo que larguei mão de ser pétrea, incansável e inquebrantável. Estou ficando maneira, maleável e malemolente,  como as curvas da minha cintura, os excessos na minha coxa e a flacidez dos meus braços que agora só dão adeus no formato conchinha, tipo rainha da Inglaterra.

Entrei no chuveiro quente pensando nisso tudo e na felicidade que sentia. A pele bronzeada se arrepiou de prazer. Dane-se se ficou um pouco mais enrugadinha. De verdade, faz tão pouca diferença em comparação com a memória de um instante, assim, de prazer. O domingo, então, acabou assim em festa, com a súbita experiência da compreensão de algo assim tão essencial.

 

Ali vai alguém que não deve nada a ninguém

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Outro dia vi uma propaganda de produtos cosméticos que discutia questões de gênero. Não lembro a marca. Não lembro o produto. A mensagem me devolveu à infância. Uma voz adulta dizia: “você não pode sentar de perna aberta”. Outra voz bronqueava: “está toda desarrumada. Parece um menino.” Uma terceira fala, agora em coro, bradava acompanhada de diferentes predicados: “o que vão pensar de você…vestida assim desse jeito, …falando desse jeito, …agindo desse jeito.”

 

O efeito dessas vozes, repetidas insistentemente durante a infância e adolescência pelas avós, tias, mãe e amigas das mãe, tias e avós, sobrevive no meu corpo e na minha alma. Por mais que goste, não consigo sentar de perna aberta. Estou sempre com elas cruzadas, até mesmo agora, enquanto escrevo sentada à mesa. Sobre a desarrumação, a fala teve efeito reverso de trauma-maldição. Me tornei uma adulta desarrumada e bagunceira ao extremo. Até eu mesma me canso da minha zorra, às vezes.

 

A terceira ladainha, poderosa como um mantra do capeta, é o motivo deste texto. O que vão pensar de mim? Por causa dessa dúvida, preocupação estúpida, pessoal e intransferível, vivi a maior parte dos meus 50 anos pensando nos outros – ou melhor, naquilo que eventualmente os outros poderiam pensar sobre a minha insignificante pessoa. Será que alguém pensava? Será que alguém falava? Não sei. Bastou a ameaça. Bastou a potencialidade de um mau julgamento para eu me comportar, agir, escolher segundo os bons modos do senso comum.

 

Por causa do que poderiam pensar sobre mim, quantos momentos de prazer eu perdi? Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantos projetos equivocados abracei? Quantas horas de sono eu perdi? Quantos burradas cometi? Não sei dizer quantas, mas sei que foram muitas, inúmeras, incontáveis. Por que me submeti ao julgo alheio? Por que cedi à pressão do sequestro do olhar alheio? Vaidade, medo, vontade de criar um legado. A essa altura, bobagem fazer novos julgamentos. O feito está. E legado, definitivamente, é algo que não se preza em tempos de snapchat.

 

O fio da meada dessa reflexão foi puxado nesta semana. Estava andando pela rua e um amigo me viu. Buzinou. Gritou. Nada. Não conseguiu atrair minha atenção. Daí me escreveu: “chamou-me atenção seu ritmo: leve, fluido, sem pressa. Cabelos ao vento e perfil ereto. Pensei…tá de bem com a vida. Como dizia o Walter Franco: espinha ereta, a mente aberta e o coração.” Sim, estou de bem com a vida. Mas, o que faz mesmo a diferença é saber que nada faz diferença. Que digam, que pensem e que falem. Só posso dizer que, felizmente, não devo nada para ninguém.

 

 

Plano C

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O plano B virou A. O antigo A caminha para a extinção. Como prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém, parti para a construção do meu Plano C, que será B logo que deixar o plano das ideias e encarnar em um plano de negócios.

Dessa vez, vou fazer tudo direitinho. O time do Sebrae de Camaçari, meu município baiano, e de Salvador, a primeira capital do Brasil, estão me ajudando. A proposta é começar do começo. Fazer um plano estratégico, um plano de negócio e estressar, até o limite, todas as hipóteses antes de colocar a mão no bolso.

Já temos a ponta do fio da meada nas mãos. Agora é hora de investigar, pesquisar, ouvir, perguntar, consultar e ler tudo o que estiver disponível sobre o tema. Você deve estar pensando: “plano C em meio a crise?” Pois é, existem dois momentos bons para investir. Aqueles de profunda bonança, como quando inaugurei a minha pousada. E momentos de absoluta tormenta, como agora. Espero estar escolhendo um nicho de mercado que faça sentido – meio caminho andado para o sucesso de qualquer plano C.

Preciso fazer uma confissão: a escolha fala ao coração. Sou do time que defende que plano B bom é filho do prazer. Gostar de fazer faz toda a diferença no resultado do negócio – e na satisfação que você tira dele. É o meu caso. O meu plano inclui garimpo, pesquisa, viagens, interação com o público e planejamento. Tudo o que eu gosto e sei fazer.

Cachorro picado por cobra tem medo de salsicha. Vou repetir o modelo, bem sucedido, do meu plano A. Vamos começar pequeno. Vamos mirar o bom e deixar o ótimo para o futuro. O risco foi a primeira coisa que avaliamos. Ele é pequeno. Não gosto de arriscar demais. Não quero sentir pressão de investidor, banco ou acionista. Acredito no simples. Gosto de começar pequeno e ver crescer. É o meu perfil. Perdoem-me, portanto, pela falta de ousadia.

Em ritmo de baile permanente, voltei ontem para as quadras e hoje para a academia. Preciso de muita disposição e energia para trabalhar. Desconheço plano B, C ou D que dê certo ou gado que fique gordo sem o olhar e o suor permanente dono. O negócio próprio, pequeno ou grande, prospera quando o dono está ali, do lado, colado, trabalhando, pensando e colocando a mão na massa.

Quem diria, que menos de um ano depois, eu iria rever todas as minhas apóstilas do Empretec para começar de novo. Que Hefesto, o Deus do trabalho, e São José nos protejam.

Dia de festa e de amor no mar

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Oxum era rainha e na mão direita tinha o espelho onde vivia a se mirar.

Quanto nome tem a rainha do mar? Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá.

O dia amanheceu cinza, garoento. Pensei com os botões: Ela deve estar mal-humorada, brava. Brigou com alguém ontem. Desci a ladeira de carona, acreditando que ia dar para seguir caminhando. Não deu. Começou a chover a cântaros. No taxi, pedi:

Moço, por favor, me leva para o Rio Vermelho.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Pela janela molhada fui olhando o mar cinza e pensando no meu pedido. Estava precisada. Dessa vez não poderia apenas agradecer. Lembrei da epifania de 14 de janeiro e tive esperança. Era a primeira vez que eu ia. Era a primeira vez que pedia. Tinha crédito. Tinha fé. E o pedido era singelo. Não queria dinheiro, poder, nem emprego. Queria de volta aquilo que havia perdido. Que Ela havia tomado de mim em um momento de distração.

Quando desci do carro a chuva apertou. Precisava urgente de uma capa ou de um guarda-chuva. Dobrei a esquina e numa biboca encontrei os dois. Comprei. 12 reais a sombrinha. Dez a capa. Andei 100 metros. A chuva, claro, parou. É sempre assim, o tempo e suas provações. Ficaria com a capa e a sombrinha pesando no corpo o dia todo. Paciência. Melhor sem chuva.

Perfume, flor, espelho e pente. Toda sorte de presente para ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?

Comecei a caminhar. No passeio, ambulantes ofereciam flores, água de cheiro, pentes. Recusei. Não sou militante, mas acho uma barbaridade sujar o mar com tranqueiras. Não ofereceria nenhum mimo, nenhum presente. Seria um papo reto. De mulher para mulher. Queria o que era meu de volta. Simples assim. Não tinha feito nada de errado. Por que a privação?

Na virada da curva do morro da Paciência quis descer para a areia. Ouvi um “não, não quero sujar os pés. Nos encontramos na escada da casa de Yemanjá”. Fiquei triste pela solidão. Fiquei feliz pela liberdade. Poderia me escarafunchar. Poderia parar, ouvir, falar sem precisar de acordos e negociações. Fui.

Alodê, Odofiaba, MInha-mãe, Mãe-d`água, Odoyá!

Qual é seu dia, Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro, quando na beira da praia eu vou me abençoar.

Mal cheguei à areia, fui atraída para uma tenda. Lá dentro um pai de santo com cara de índio e cabelos compridos fumava um charuto fedido e dançava. Os atabaques tocavam fortes, rápidos, animados. Era bonito e curioso ver. Ele começou a cantar uma ladainha e foi chamando os presentes para entrar na roda. Antes de deixar dançar, abraçava a pessoa primeiro do lado esquerdo, depois do direito. Dava uma baforada e sorria feliz. “Iemanjá merece. Iemanjá merece”, repetia para os filhos e filhas, que se curvavam a ele. Temi que minha hora de dançar chegasse e fui saindo de fininho. Iemanjá ficaria irritada com minha falta de jeito para o baile e não atenderia o meu pedido.

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O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita, se você chorar.

 A praia lotada ficava mais cheia a cada lambida de onda. Para seguir em frente, tive que ir para o mar. Bobeei e ensopei os pés com meia e tênis.

– Pronto, Minha Mãe, já me molhei. Já me melequei. Por favor, me ouve. Me ajuda. Como eu faço para ter de volta o que era meu e por distração perdi?

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia cantar.

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Na roda seguinte, agora sem tenda, um homem vestido de Yemanjá dançava como ela ao som de tambores, zabumba e de uma sanfona. Ele não era delicado, nem tinha trejeitos femininos, mas por ela parecia incorporado. O dono da sanfona, de óculos escuros, tocava compenetrado, ele também em um transe. Na areia, ajoelhado, um fotógrafo gringo metralhava a cena, enfeitiçado pela beleza diferente. Fiquei olhando os três, fascinada com a força Dela, capaz de unir três homens tão diferentes e, cada um a seu modo, seduzi-los.

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Três metros atrás, já dentro do mar, crianças brincavam de molhar o próximo. Riam, riam, riam. Estavam em festa com Oxum. A festa Dela, vale dizer, é uma grande farra. Com exceção de algumas fiéis, de olhar triste e distante e coração apertado, a maioria ali estava para celebrar. A vida, o mar, o amor. Ah, o amor.

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O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita se você chorar.

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia a cantar. 

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Amor, não é preciso fazer pesquisa, é o que mais se pede à rainha do mar. Ela é mãe. Ela é generosa. Ela é amorosa. Se ficar comovida com a história de amor, acredite, vai ajudar. Gosta de atender aos pedidos masculinos em primeiro lugar. Das mulheres, com quem disputa a atenção masculina, exige mais afinco e devoção. Afinal, é sereia, dona de exclusivos feitiços.

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Fique viajando em meus pensamentos e demorei a chegar no lugar combinado. A multidão cresceu. Fiquei com um medo danado de me perder. De perder a minha companhia. De perder o meu desejo. De longe, fui escaneando a escada. Procurando, procurando, procurando. Achei. Neste momento, fogos espoucaram em festa. Mais um barco saia com oferendas. Mais um pedido seria entregue. Senti um calor no coração, uma ternura profunda. Sorri meu melhor sorriso. Será que ela já estava realizando o meu pedido?

Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar

 Resolvi encarar a fila enorme para visitar a casinha em homenagem a ela no Rio Vermelho. É um santuário, antigo, feito pelos pescadores dali que são seus primeiros devotos. Na porta um senhor negro monumental, dizia sorrindo, “vamos andando, minha gente. Ela vai atender a todos”. O lugar lindo, decorado com afrescos e mosaicos, fazia jus ao esplendor da rainha do mar. Lá dentro, oferendas em dinheiro e cheiro de lavanda. Estava na casa dela.

  • Então, rainha? Você vai me ajudar? Para cá eu vim por causa do mar e do amor. Aqui quero ficar mas sem mar e sem amor não dá.

Na saída do santuário de 30 metros quadrados, outro homem, também sorridente, me ofereceu um banho de alfazema. Tomei. Agradeci. Ele sorriu, como que dizendo “não tenha medo. Tudo vai dar certo.”

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É difícil explicar o que foi acontecendo. É difícil escrever e descrever. O céu ainda estava cinza, carregado, mas meus olhos começaram a ver azul. Desci na prainha atrás da casa. Lá, encontrei menos gente e mais fé. O mar já havia devolvido muitas das oferendas que Ela dispensou. Um rastro de flores e perfumes ocupou a praia. Um grupo de mulheres barrigudinhas atirava mais flores carregadas de pedidos. Amor, senhora. Amor. Logo ali, um grupo de umbanda destoava. O pai de santo era vaqueiro. De gibão, colete e chapéu, o homem entoava cantigas do interior. Falava de boi, vaqueiro, mato, montanha. Nada a ver com o cenário, nada a ver com a festa, nada ver com ela. Fiquei lá tentando entender, mas fé não tem mesmo explicação. Vez por outra, ele evocava a rainha e gritava: “Odoyá”. Se o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, estava tudo certo.

Olhei de novo para a murada, procurando. Achei. Fiquei feliz. Sorri, novamente, meu melhor sorriso. Estou aqui. Me espere.

Quando voltei meu olhar para a praia, quatro mulheres vestidas de Yemanjá chegaram. Parei para ver e ouvir. A mais velha puxava a cantoria. As mais novas acompanhavam. Um rapaz vestido de azul fazia a voz masculina nas cantigas em homenagens a Ela. Lindas, simples, pueris. Fiquei lá, enfeitiçada, ouvindo, ouvindo. Depois de vários cânticos, entendi. Era um batismo. Uma moça vestida de branco foi coberta por um manto e abençoada. Todo o grupo abraçou a garota, aquele abraço cruzando os ombros, para recebê-la na irmandade. Meia hora depois do início do ritual, ela fazia parte do grupo. Crianças terminaram por acolhê-la.

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Havia chegado a minha hora de tomar uma benção. Fomos para o outro lado da praia e escolhemos uma mãe de santo com uma bacia imensa de pipoca. Ela bateu com as folhas na minha cabeça, nos meus ombros, jogou pipoca, sementes, colocou um pouco de pó branco no meu peito e nas minhas costas, enquanto sussurava um monte de coisas boas. Saúde, paz, amor e fé. Foquei nestas quatro, que era só o que eu precisa. Era só o que eu pedia. Era só o que eu queria. Lembrei de uma tarde distante, quando conheci Mãe Menininha do Gantois. Éramos oito amigas, jovens, paulistanas, recém-entradas na Universidade. Fomos parar no terreiro por curiosidade e interesse. Manoel, nosso amigo e guia, estava louco de paixão por Fanny e queria seduzi-la. Nos levar lá fazia parte do plano. Acontece que Mãe Menininha gostou de mim ou errou de loira – Fanny era tão sueca como eu. Com a voz fraca pela velhice e doença, ela me chamou. Fui, emocionada. Em meu ouvido, soprou: “você é filha de Oxum, a rainha das águas, e de Oxóssi, o rei das matas, o grande caçador. Cuide bem deles e seja feliz.”

Parece mentira, parece clichê, mas as nuvens andaram e o céu foi ficando azul.

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Subimos para a rua. Outra festa acontecia lá. Nos bares, música. Muita música. Até o pet shop, fechado, virou boate, com os amigos da dona dançando alegres na vitrine. Cena surreal, cena baiana.

Passava das 13 horas, senti fome. Fomos comer o feijão da Marta. Ela virou vegana radical, mas no 2 de fevereiro faz uma feijoada para Ogum. A casa se enche de amigos que entram, saem, comem, bebem, confraternizam e celebram. Me ofereci para servir. Com o privilégio da disposição, ajudei a montar os pratos dos 12 homens presentes, representantes do orixá macho alfa. Não conheço o ritual, mas acho que fiz tudo direitinho. Carnes diferentes, que o santo gosta, misturadas com arroz, feijão, farinha e pimenta.

A cerveja acabou. Fomos buscar mais e o dia estava lindo. O sol doce. A rua cheia. Entregamos a bebida e descemos, novamente, a ladeira. Voltamos para o mangue encantador do Rio Vermelho para ver e ouvir Carlinhos Brown homenagear à Mãe. Fomos acolhidos e abraçados por amigos que trabalham com ele. Cantamos. Dançamos. Sentimos. Porque a música é coisa de Deus.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Meu peito estava aberto. Sentia uma vontade louca de abraçar e beijar as pessoas queridas. Não era álcool na cabeça, não. Era apenas amor. Era felicidade. Ela havia atendido o meu pedido. Havia me devolvido o sentimento. Precisava festejar e agradecer. Subi outra vez a ladeira. Para ver quem tinha chegado, para tomar um refresco e esperar a hora do próximo show. Escadaria acima, lembrei de uma canção que anos atrás eu havia interpretado semioticamente frase por frase. Coisa tola.

Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar nos palácios, nos castelos suntuosos do meu sonho.

Lembrei, então, do sonho estranho da véspera. Nunca sonho. Quando sonho e lembro, trata-se de algo estranho. Estranhezas são coisas de Deus. Como a música. Na varanda alpendre da casa de Marta e Nara, debruçada sobre o mar do Rio Vermelho, pisquei para a rainha. Obrigada Yemanjá. De longe, cumprimentei Gilberto Gil. Tive vergonha de chegar mais perto do gênio e contar para aquele homem tão bonito que as canções dele, nos últimos tempos, são a trilha sonora da minha vida.

Acabou a cerveja de novo. Hora de subir mais uma vez para a pracinha da rua Almirante Barroso. Mais amigos, mais encontros. Mais música. Silvia Patrícia, cantora baiana que estourou cantando música pop nos anos 90, faz todos os anos um show lá no alto para ela. Muitos amigos cantam e aplaudem. Quanto prazer, assim no meio da rua.

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A noite chega. Voltamos para perto do mar. Agora tenho certeza que ela atendeu o meu pedido. Tudo está comigo de novo. Recuperei o que perdi e é difícil não gritar para todo mundo ouvir. Na avenida do Rio Vermelho, mais gente e música. Mariella Santiago, com sua voz linda, divide o pequeno palco do bar Lálá com Moreno Veloso. Ele, agora com poucos cabelos, toca um prato branco. Ficamos por ali ouvindo até a vontade de partir ser maior. Vamos em direção à saída. A voz rouca e louca de Marcio Melo estreando o palco Toca Raul, ao lado da Igreja de Santana, nos faz parar.

Uma tonelada de amor. Uma tonelada de amor. Eu não sei viver sem você. E se ainda me quiser

Eu não vou te decepcionar. Imploro me arrasto aos seus pés. E se ainda me quiser. Eu não vou lhe decepcionar

 Se Iemanjá ouve, deve rir do acaso daquela canção. Canto a plenos pulmões. Adoro as canções daquele nobre vagabundo, que hoje se define como um punk solitário. Chego perto do palco e dou de cara com o senhor negro monumental que guardava a casa de Iemanjá de manhã. Agora ele guarda e protege o palco do querido Márcio. Continua rindo com seus raros dentes. Sempre que pode, ele tira uma casca das fãs mais ousadas que sobem no palco para fazer selfies.

Olho para ele com intimidade. Sei que ele não me reconhece, mas não importa. Ele e Ela fazem parte dessa história. Obrigada, senhor. Obrigada, Senhora. Odoyá.

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Nostalgia

 

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Hoje descobri porque gosto de andar de ônibus. Ele, diferentemente do carro, anda rápido e não me deixa na porta. Caminhar é preciso. Da porta de casa ao ponto. Do ponto ao destino.

Hoje o meu destino era o bairro de Higienópolis. Participo de uma mesa no II Congresso de Comunicação Interna e Cultura Organizacional, realizado na FAAP.  Fazia muitos anos que eu não caminhava pelo bairro, que foi minha casa por duas encarnações.

Sai pela porta do coletivo e aterrissei em 1984. Edificio Brasília, Avenida Angélica 2121. Minha primeira casa. Meu primeiro aluguel. Minha estreia na vida adulta. Uma onda de prazer inundou meu corpo. Fui muito feliz vivendo naquele apezinho de 60 metros quadrados, com vista para a Paulista. Tinha juventude. Tinha energia. Tinha um zilhão de projetos e vontades.

Era tudo novo. Era tudo primeira vez. Olhei para a janela e revi o filme do gato Zanzibar, que um dia escapou pela janela e pulou do décimo primeiro andar para a cobertura do décimo terceiro. Na virada da esquina, reparei na marquise que durante anos serviu de lar para um morador de rua que adotei. Até um dia em que acordei e ele havia sido assassinado. Vivi com a culpa por muitos dias e noites. Podia tê-lo abrigado e evitado a tragédia? Na esquina, encontrei a vaga da minha Brasília branca. Foi meu primeiro carro, que andava aos trancos e barrancos, com pneus carecas e tanque vazio. Foi nele que joguei todas as minhas tralhas quando sai de casa para casar.

Fiquei dez anos longe do bairro. Retornei em 2001 com o objetivo de emprenhar e ter um filho. Mudei para um apezão na avenida Higienópolis. O mais antigo do bairro. A sala tinha o tamanho de uma quadra de tênis e, de novo, eu estava prenha de planos, projetos e sonhos. O principal nasceu há 13 anos com o nome de Francisco. Enquanto caminhava pela calçada da praça Buenos Aires, senti uma profunda saudade do carrinho de bebê que eu empurrava ladeira acima e ladeira abaixo. A emoção de passar e parar na frente da vitrine da loja Hortelã não cabe em nenhuma palavra. Lá, diariamente, passeava com meu filho, que era querido e mimado pela dona da loja. É uma loja de brinquedo à moda antiga, com bonecos e carrinhos feitos de madeira, bolas de pano e piões de alumínio brilhante.

Foi um tempo bom que passou. Memorável. Não tenho nostalgia, porque não sinto tristeza nem melancolia profunda por algo que não fiz, perdi ou deixei para trás. A vida correu, a vida viveu gravada na minha memória e no trilho do bonde que cruzava a praça Vilaboim.

João das Alagoas e seus discípulos mestres na arte de esculpir histórias

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Seu João das Alagoas é um mestre da arte popular. Com as mãos, molda um mundo particular. Ele é feito de barro cozido no forno. As imagens contam histórias singelas da vida na Capela, uma pequena cidade no interior das Alagoas. Seu João é louco pelo boi. Sobre as costas dele aplica, em alto relevo, um manto de personagens e elementos. O casamento. O batizado. A festa. O folguedo. É tão lindo que dá vontade de namorar, passar a mão e acariciar.  Seu João percebe quando a pessoa se apaixona pelo o que ele faz. Quando isso acontece, ele abre o sorriso e dá conversa. Conta causos e fala da sua história.

João das Alagoas nasceu João da Silva. Quando menino, com os pés gostava de jogar futebol. Era bom e, por isso, tinha o apelido de João Maravilha, uma referência ao craque Dadá. Com as mãos fazia arte no barro. Imitava os trabalhos de mestre Vitalino, de Caruaru, cidade que fica a 280 quilômetros de Capela. Foi fazendo, foi fazendo e ficando mestre. Mas ainda tinha que fazer dupla jornada como pedreiro e pintor. “Eu tinha minha família para sustentar”, conta ele, que expôs pela primeira vez em 1987, em Campinas, interior de São Paulo. “Foi lá que me deram a sugestão do nome João das Alagoas. Gostei e adotei.”

O trabalho foi crescendo. Ele foi fazendo, criando, expondo e de gerúndio em gerúndio faz mais de uma década que vive de arte. Faz bois sob encomenda. Uma peça grande e elaborada pode vale mais de 5 mil reais. Não vive sozinho. Em seu ateliê, simples e rústico, vizinho a uma escola estadual de Capela, ele começou a ensinar. Os discípulos foram se convertendo em mestres. Hoje João trabalha ao lado dos artesãos Sil, Leonilsson, vulgo Galego, Nena, João Carlos, Claudio e Van. 

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Na foto acima, ficou faltando Sil, que estava doente, e João Carlos, que ainda não havia chegado ao trabalho. Fiquei muito impressionada com o talento deles e com a generosidade de João. Depois de contar sobre seu trabalho e vender um boi para nós, que deve ficar pronto daqui dois meses, João fez questão de apresentar o trabalho de todos os seus colegas. Explicou a história do Jaraguá de Sil, mostrou no forno peças recém-queimadas por Nena e Van e descreveu com encanto o São Jorge de Galego e as miniaturas de Claudio, um mestre em esculpir  pequenino. “Nosso trabalho é feito com muito carinho. Adoramos pensar que nossas peças viajam pelo mundo levando um pouquinho de nós”, contou João, que no dia 4 de agosto de 2011  foi declarado como Patrimônio Vivo Cultural de Alagoas.
Quando dei a partida na nossa Ranger preta, carregada de peças e do carinho deles, olhei para trás para dar o último ciao e, a meu modo, agradecer por tanto carinho e beleza. Sim, eles viajam pelo mundo por meio de suas obras. Aquelas que comprei, agora, estão na minha Capela para serem admiradas por viajantes que chegam até o meu paraíso particular. Assim um novo circulo virtuoso se cria. Obrigada, João.
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Noivos de Van
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Dia de domingo de Nena
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Miniatura de fazenda de Claudio

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Árvore de Natal de Leonilson, o Galego