Prepare-se para o erro

Partiu Plano B? Chegou a hora de sair da sala vip do conforto e dar o passo em direção ao novo? Na espinha, aquele frio polar. No estômago, aquele nó de ansiedade e excitação só comparável ao nó dos extremos da paixão. Na cabeça, passam dois filmes. O primeiro é blockbuster. Fila na porta para te ver e te ouvir. Fila na porta para comprar seu produto ou seu serviço. Fila na porta para te aplaudir e no caixa o dinheiro jorrando, feito as Cataratas do Iguaçu. Aplausos em cena. Só falta levar o Oscar.

O segundo documentário é em preto e branco. As cenas são escuras e angustiantes. A trilha sonora lembra enredo de terror. O ritmo é lento como um clássico de Tarkovsky. O seu negócio está vazio. Entregue às moscas. Ninguém chega. Ninguém entra. Os amigos atravessam a rua para nem ver a sua agonia, a sua miséria, a sua vergonha.

Você sacode a cabeça para dissipar a imagem ruim, para acordar do pesadelo e volta a pensar nas imagens coloridas do sucesso.

Acalme-se, respire.

A descrição acima não é nada original. Quem começou, lançou ou estreou já passou por todas essas sensações. Tudo pode dar certo. Tudo pode dar errado. Sempre existe um imponderável que abençoa ou maldiçoa um novo empreendimento. Isso não quer dizer, no entanto, que basta entregar para Deus e rezar. Definitivamente, trata-se do oposto. Porque existe esse imponderável, que gosto de chamar de coeficiente de mangue, o pêndulo do Universo tende sempre para o erro, para a falha, para o caos, para o insucesso, para o fracasso.

É dura a vida da bailarina. É dura a vida do empreendedor. É dura a vida dos sem crachá. É linda, desafiadora e livre a vida da bailarina e dos seus colegas de palco. Sonhe, mas não fantasie. Deseje, mas não se iluda. Acredite, mas não minta para si mesmo. Do céu, só cai chuva, avião e sujeira de passarinho. Tudo, tudo pode dar certo mas é preciso trabalhar desavergonhadamente para isso.

Fazer o que? Prevenção. Isso mesmo, previna-se contra o coeficiente de mangue como se ele fosse dengue. Trabalhe em dobro. Planeje. Antecipe, como se embarcasse em uma excursão para Marte, todas as possibilidades de erro, de falha, de defeito e de perda. Acredite no erro e multiplique o seu esforço para transformá-lo em acerto. A prevenção, vale enfatizar, não é filha do pessimismo. Ao contrário, é irmã de sangue do otimismo, porque trabalha para e pelo sucesso absoluto. Ao premeditar tudo o que pode dar errado, revisamos todos os processos, apertamos todas as porcas e parafusos para garantir que o avião vai decolar e aterrissar sem sustos. Só com uma leve turbulência.

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A vantagem desse ponto de vista é que mesmo quando dá errado, pode dar certo. Afinal, guarda-se na manga o plano de contingência para fazer o conserto antes de chegar na lua. É o plano B do plano B. Comprou um produto que encalhou? Não conseguiu encher a sala? Não vendeu todos os patrocínios e convites? Enquanto contabiliza o prejuízo, vai pensando como reverter as perdas. Procura um destino para o encalhe. Negocia uma revenda. Corta uma etapa. Economiza um transporte. Renegocia um pagamento. Só a letargia é proibida na vida daqueles que decidiram encarar o voo solo. Quer chorar? Chore, mas enxugue as lágrimas enquanto reage, retrabalha e refaz o planejamento do segundo round. Quer saber qual é música?

 

“Chorei, todos viram.

Sentiram pena de mim, não precisava

Ali onde eu chorei qualquer um chorava.

Dar a volta por cima que eu dei

Quero ver quem dava”

Boa sorte. Bom trabalho.

 

 

O plano B que saiu do armário

Despir a alma, vestindo o corpo. Despir o corpo para revestir a alma de prazer e felicidade.

Depois que conversei por telefone com a Theresa Rachel, essa foi a imagem que me veio à cabeça. Pouco antes de desligar o telefone, ela confessou que, recentemente, havia chorado de contente. Tinha realizado um workshop com ótimos resultados. Depois que as clientes se foram, sentou-se à beira do lago do sítio onde mora, no interior de São Paulo. Olhou em volta, olhou para si, reviu os últimos capítulos da sua reinvenção e não aguentou de emoção. “Mudei muito nos últimos quatro anos. O mais bacana é que a minha mudança tem ajudado outras mulheres a mudar também”, diz com orgulho na voz. O que ela faz? É terapeuta de guarda-roupas. Ahhh? Calma, vou contar e explicar.

Theresa tem 35 anos. É filha da geração X, que já nasceu no rabo do foguete. Filha de São Paulo, formou-se em Marketing e em 2009 mudou-se para Campinas para trabalhar. Foi funcionária de várias multinacionais. Tinha cargo bom, salário e benefícios atraentes. Tinha prestígio na família. Tinha o respeito dos amigos. Faltava satisfação. Faltava sentido. Faltava tesão. Acordava de manhã sem vontade de trabalhar. Vivia no automático. Trabalhava até tarde e se perguntava o que estava fazendo da vida.

“No final de 2011, a corda arrebentou. Decidi tirar férias do trabalho, do meu marido e da minha rotina. Me enfiei em um retiro de revisão de vida em um mosteiro no interior de São Paulo. O desafio era ficar cinco dias em absoluto silêncio. Tinha um caderno e uma caneta, onde fui escrevendo o que eu estava sentindo. Durante um exercício, uma voz falou no meu ouvido. Tive um insight. Lembrei que havia recebido um atendimento com uma personal stylist na Casa Natura em 2009 e que aquele trabalho tinha me encantado. Decidi que depois do retiro, estudaria para entender que profissão era aquela”.

Antes de continuar, preciso de parênteses. Theresa nunca teve closet de quarenta metros quadrados. Jamais colecionou sapatos Louboutin e não vende a mãe para ter a última Lady Dior. Não era ligada em moda nem em tendências fashionistas. A vontade de trabalhar com estilo pessoal tinha a ver com transformação e não com glamour nem grife.

“No segundo dia do retiro, tinha certeza que queria mudar de vida e trabalhar com o jeito de vestir das pessoas. Me inscrevi em um curso de personal stylist e comecei a vivenciar meu segundo momento de autoconhecimento e transformação. Entendi que tinha uma enorme dificuldade de me identificar com as peças do meu armário. Comecei a prestar atenção em mim, no porquê das minhas escolhas. A reflexão extrapolou meu guarda-roupa”, relembra.

“Percebi que não conseguia escolher uma roupa que revelasse, de verdade, quem eu era. Se eu não sabia fazer algo tão simples, como é que eu poderia escolher o rumo da minha vida?”

A reflexão é absolutamente pertinente. A roupa é nossa fina estampa. Ela fala quem somos, o que queremos e revela se estamos bem. Theresa virou o guarda-roupa do avesso e, com ele, a própria vida. Pediu demissão, se separou do marido e trocou de casa. Recomeçou. Tinha uma reserva de dinheiro e uma enorme vontade de se descobrir. A princípio, sabia apenas o que NÃO queria. Não queria trabalhar no mundo corporativo. Não queria mais usar suas roupas certinhas, normais, de cor única. Decidiu estudar. Fez cursos de formação de consultoria de imagem. Fez cursos de inteligência emocional. Foi para Miami, nos Estados Unidos, fazer outro curso de personal stylist. Na prática, foi sendo estilista de si mesma. Foi desenhando e ajustando um novo figurino para a pessoa física e jurídica que queria ser.

“Durante o mês que passei nos Estados Unidos, aprendi muito mais do que orientar clientes na forma de se vestir. Aprendi que pessoas especiais entram em nossas vidas para aprendermos e trocarmos experiências. Foi outro momento importante de autoconhecimento”, diz Theresa, que segue estudando e se preparando para ajudar pessoas a mudar de guarda-roupa, de roupa, de corpo e de vida.

Ao retornar, estava preparada para encarar a nova profissão. Também havia descoberto uma nova Theresa. Estava repaginada. Tanto que recasou com o ex-marido, que neste processo também era “outro marido”. Foi ai que decidiu começar a atender. As primeiras clientes foram cinco amigas, que a ajudaram a criar o modelo de negócio e a chegar no conceito de que não era apenas consultora de imagem mas uma terapeuta de guarda-roupa. Qual a diferença? Theresa explica.

“A grande sacada foi quando entendi que meu trabalho não era com moda, tendências, grifes de luxo e desfiles de passarelas. O que eu fazia era ajudar pessoas. Meu desejo sempre foi trazer algo mais significativo, fazer com que minhas clientes pudessem se observar, se conhecer e se reconhecer por meio daquilo que vestem e, a partir daí, ver a vida com mais prazer, propósito, amor e beleza”, define a terapeuta de guarda-roupa, que tem no autoconhecimento a sua principal ferramenta de trabalho. “A mudança na imagem pessoal é um processo que vai muito além do vestir.”

Depois da experiência com as amigas cobaias, Theresa começou a planejar o novo ofício. Aplicou todos os seus conhecimentos de marketing para dar cara à sua empresa. Montou um site muito bonito (www.theresarachel.com.br) e eficiente. Criou um conceito e uma marca. Estabeleceu que iria trabalhar em casa, no seu sítio cercado de mata e bichos, perfeito para cursos e workshops, ou em domicílio, fazendo atendimentos individuais. Criou três módulos de atendimento de 13 a 25 horas, com preços e focos diferentes. O mais completo, batizado de máster, oferece autoconhecimento, avaliação de tipo físico, análise de coloração, maquiagem, auditoria de guarda-roupa, gerenciamento de guarda roupa, pré-shopping e personal shopping e gerenciamento de guarda-roupa pós shopping. É instigante.

Ela dá um curso intensivo por mês. Também oferece cursos em empresas e para grupos fechados. Escolheu atender apenas o gênero feminino, porque acredita elas estão abertas à mudança e têm no vestir uma linguagem muito importante. “Atendo mulheres dispostas a se reinventar. Algumas se separaram. Outras arrumaram um novo emprego. Tem também as que se tornaram mães há pouco tempo e as que fizeram severos regimes e por isso precisam mudar hábitos e, também, todo o guarda-roupa”, conta Theresa. A propósito, ela, em breve, pretende outra mudança radical: quer ser mãe.

Proprietária de uma micro-empresa, com CNPJ e inscrição estadual, Theresa está exultante. Ganha bem mais do que quando tinha crachá de uma empresa de alimentos e, principalmente, trabalha com absoluta paixão e prazer. “Acredito que cada cliente que entra na minha vida veio até mim por alguma razão. Acredito que tenho uma missão a cumprir na vida delas e que também tenho algo para aprender com elas. Em cada atendimento, planto uma sementinha de mudança que se inicia pelo guarda-roupa mas que se estende à relação delas com elas mesmas”, acrescenta.

“Estou muito realizada com este meu trabalho. Valeu a pena mudar para ser feliz.”

 

 

Tudo é mudança

“Tudo é mudança”, dizia Eurípedes, o poeta trágico grego. “Tudo cede o seu lugar e desaparece.” Eurípedes é o poeta da mudança. Deixou os deuses de lado. Escolheu tratar dos problemas triviais dos humanos, que no século V a.C viviam um momento de mudança de vida e de tradições na sociedade ateniense. Eurípedes mudou também o ponto de vista da tragédia. No lugar dos feitos e das vitórias, escolheu contar a história dos derrotados, dos vencidos e das mulheres, que nem eram consideradas parte da sociedade. Escreveu 95 peças. Só achou o sucesso pleno séculos depois da sua morte. Inspirou dramaturgos modernos como Racine, Goethe e Eugene O’Neil.

 

Eurípedes era caudaloso e recolhido. Morreu sozinho como viveu. Medeia é a peça dele que mais me impacta e impressiona. A história de uma mulher tomada de amor e ódio pelo marido. Ao ser traída, abandonada e rejeitada por ser estrangeira, rebela-se. Revolta-se. Vinga-se dele e do mundo masculino, matando os próprios filhos que ama profundamente. Fúria, morte, dor e mudança. “Deixe em paz meu coração, que ele é um ponte até aqui de mágoa e qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’água”, canta Medeia na peça Gota d’Água de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptada da tragédia grega.

 

Muita gente odeia mudar. Acha uma tragédia, digna de Medeia. Eu gosto. Antes de tudo, acho a palavra linda. MUDANÇA. No dicionário, a etimologia explica: radical de mudar + ança. Vem do latim. É sinonímia de deslocamento, modificação e variante. Antônimo de conservação. Faço também de uma leitura livre: Mu, um Deus, + Dança, um movimento, um deslocamento com ritmo, intenção e música. Mudança é um baile. Mudança é um baile permanente.

 

Vou mudar de novo. Agora, de casa. Em novembro, quando completo 50 anos, serão 18 mudanças de casa. Na média, dá uma troca de lar a cada 2, 7 anos. É bastante. Vou mudar porque sou conservadora. Vou mudar para manter meus planos em linha. Vou mudar para que tudo fique como está, como promete o príncipe Falconeri, personagem do livro O Leopardo de Giuseppe de Lampedusa.

 

Acredito nisso e por isso gosto de mudar. Dessa vez, no entanto, demorei a tomar a decisão. Precisei de um ano e de uma briga para decidir. Puxaram a minha orelha. Cobraram uma posição. Questionaram o meu discurso. Disseram que eu estava fazendo cortes cosméticos. Era verdade. A equação é simples. Aritmética, como 1 + 1 = 2. Vou sair do meu apartamento gigante e mudar para outro com a metade do tamanho. O benefício será reduzir 50% do custo do condomínio e contar com uma receita nova de um bom aluguel.

 

Por que não fiz isso antes? Autoindulgência. Gosto da minha casa grande com vista para a piscina do clube. Gosto da minha rua com ciclovia. Gosto dos meus móveis espalhados por uma sala de três ambientes. Preciso disso? Descobri, agora, que não. Descobri na semana retrasada, que ainda estava apegada a uma imagem e a um status quo que não mais me pertencem. Esse apego, considerando o planejamento orçamentário da ME Vida Sem Crachá S.A , poderia significar uma conta cara demais para pagar lá na frente, quando espero viver na sombra e com água fresca. Portanto, como diz o príncipe, mudo agora para não precisar mudar meus planos no futuro.

 

Doeu? Nada, por enquanto. Até meu filho, um virginiano apegado ao método e à bagunça organizada que ele produz, descobriu uma diversão na busca por uma nova casa. Nos sites das imobiliárias, imaginamos como seriam os proprietários daqueles apartamentos e mobílias. “Esse deve ser barroco, como eu”. “Aquele tem um péssimo gosto”. “Fulano deve ser um acumulador. Olha quanta tranqueira tem no quartinho de tranqueiras.” A proposta de mudança transformou-se em mais um exercício de encontro entre mãe e filho e agora brincamos e brigamos na disputa sobre quais móveis vão ou não para a nova casa. Já sei que vou acabar perdendo, o que é ótimo. Será mais uma mudança no meu histórico de jamais perder, mesmo que seja no par ou ímpar.

 

 

 

A praga do cut and paste

A primeira vez que ouvi a expressão “cut and paste” foi no século passado. 1984. Eu escrevia em uma Olivetti Lettera 82 verde, linda. Estava cursando o segundo ano de jornalismo na PUC-SP e um professor nos apresentou ao universo dos beatniks. Jack Kerouac, William Burroughs, Allen Ginsberg e Gregory Corso. Eu era uma pirralha comunista metida a intelectual. Pentelha e preconceituosa. Achava a cultura pop americana um lixo, porque vivia sob a influência dos existencialistas, marxistas e situacionistas. Meus ídolos eram, pela ordem, Camus, Sartre, Debord e, claro, Carlos Marques. Era, no entanto, cdf. Decidi desafiar o professor e mergulhei fundo no assunto e fiquei expert em beatniks japoneses. Consegui livros. Pesquisei. Escrevi um trabalho de 20 páginas. Tirei nota 10. Como era apenas pirraça, não consigo lembrar o nome do autor nem do professor.

Não existia computador pessoal naquela época. Pesquisávamos em arquivos, enciclopédias e livros. Ser cdf fazia toda a diferença na nossa vida pessoal e profissional. A memória era intransferível. Quem sabia, sabia. Ninguém tinha coragem de copiar ninguém. Os casos de plágio eram raros e execráveis. Quem roubava a propriedade intelectual do outro ia para o exílio. Aconteceu com um jornalista muito famoso à época. Escrevia sobre música, literatura e cultura na Folha Ilustrada. Era idolatrado, até que um dia que descobriram que ele havia traduzido e publicado como sua uma matéria inteira da Rolling Stone americana. Fraude e farsa. Depois deste feito, mudou-se para a Indonésia e hoje, conta a Wikipedia anda pela Rússia. Na era pré-Google, cut and paste era feito com papel, tesoura e cola. Tratava-se de uma técnica literária criada pelos dadaístas e levada à termo pelos beatniks, na qual o autor picava e misturava trechos de modo aleatório para buscar novo sentido. William Burroughs era fera nisso. “Almoço Nu” foi escrito assim. Em 2012, tive o privilégio de ver o original de “Almoço” e de “On the Road” no museu da Literatura em Paris. No rolão interminável de papel, o corte e a cola. Única, original e criativa.

Lembrei de tudo isso hoje por causa de um hábito perverso meu. Às vezes, leio um texto em uma das redes sociais e desconfio. Desconfio porque soa falso. Desconfio porque soa perfeitinho demais. Desconfio porque parece muito familiar. Desconfio também quando a produção do ser humano é caudalosa. Intermitente. Inesgotável. Fico curiosa. Fico com inveja. Fico com a pulga atrás da orelha. Daí, uso uma técnica que aprendi com um professor universitário amigo meu. Copio um parágrafo no meio do texto e jogo no Google. Não pode ser muito longo, senão o buscador reclama. Bastam cinco ou seis frases. É batata. O dito cujo aparece duas vezes. Primeiro na fonte de onde foi copiado. Segundo no texto do ser humano caudaloso, que normalmente é craque em rede social e tagueia superbem os seus escritos. Aí minha inveja passa e eu sinto uma tristeza danada. Preferia me sentir desafiada a escrever mais, melhor, com mais emoção e intensidade. Preferia me sentir inútil, preguiçosa e vagabunda.

A fraude intelectual faz tempo que deixou ser motivo de vergonha ou problema. A miséria do cut and paste, ouço dos amigos professores e redatores, tornou-se normal, comum e banal. A explicação é “tipo assim”: “trabalho muito, ganho mal e por isso posso copiar”. Ou: “trabalho muito, não ganho nada para publicar na rede social e por isso posso copiar”. Ou ainda: “se o texto do outro é bom, se ele disse tudo o que devia ser dito, porque preciso escrever de novo, pensar de novo, ir além?”. Desfaçatez. Descaramento. Rouba-se ideias e palavras sem a menor vergonha. Por que? Para que? A propósito do quê? Dei um find, fiz um cut, outro paste e não achei a resposta. Bom sinal…

 

O bolo do sonho da Luciana, direto da Austrália

 

Não sei porque, mas a gente tem a mania de protelar os sonhos. Deixar para amanhã aquilo que poderia fazer ontem. Deixar para depois aquela vontade, aquele desejo mais profundo. Esperar um pouquinho mais. Adiar um segundo só, que acaba virando um minuto, uma hora, um dia, um mês, um ano, uma década, se bobear um século. Fiz isso muitas vezes. Vi amigos fazendo também. A minha geração era bundona. Tinha um apego danado ao mass midia, ao stabilishment, ao mainstream. Quando jovem, até sonhei em jogar tudo para cima e para o lado e mudar para a Europa. Viver na França e lavar prato. Por aqui, Sarney governava um país consumido pela inflação: 363% ao ano. Uma loucura. Um crise, que de tão profunda a gente achava até normal. Fui e voltei. Tinha cinco empregos quando parti. Ganhava 5000 dólares por mês (naquela época tudo era dolarizado), uma fortuna para um pirralha recém-formada de 21 anos. Meu sonho ficou no ar. Quem sabe aos 60, coloco em prática.

O projeto da Vida sem crachá não foi um sonho, mas uma contingência. Deu certo. Agora, a proposta da versão 2, a missão, é contar sonhos que viraram planos B e deram certo. Ou vão dar certo. Ou não. Tanto faz. O que importa é sonhar. A primeira história é da Luciana Rodrigues. Ela é gaúcha. Publicitária. Não é menina, nem representa a geração ypsilone, conhecida também como millenium. Lu tem 38 anos e sonha alto e longe.

Ela conta que até os 36 anos viveu “bela adormecida”. Sonhava mas não sabia direito com o que. Foi casada por 20 anos com homens diferentes, porque costumava engatar um relacionamento longo em outro mais longo ainda. O penúltimo, que durou 6 anos, terminou em 2012. Na sequência, emendou em outro que durou pouco, mas que segundo ela: “me acordou pra vida com um tapa na cara”.

Paft!!!!

“Hoje, olhando pra trás, tenho a sensação que até os meus 36 anos de vida eu dormi ou vivi num estado de semi consciência”, diz Luciana, definindo o seu modo stand by de viver.

A transformação/virada aconteceu, acreditem, nas férias. Luciana viajou em dezembro de 2013 para Sydney, na Austrália, para passar uma temporada de apenas 30 dias com o irmão, que mora lá há oito anos. Era gerente de marketing de uma grande companhia. Ganhava bem. Tinha prestígio. Futuro. Estava com o coração partido. Melhor, despedaçado. Tomara um pé na bunda daqueles. Vamos ouvi-la:

“Cheguei em Sidney no dia 30 de dezembro de 2013, às 21h30 depois de uma viagem longa e cheia de imprevistos. Virei o ano numa festa absurdamente maravilhosa na Ópera House, onde vi os fogos explodirem na Harbour Bridge num cenário de filme. Não sabia se chorava de emoção, de alegria ou se abraçava meu irmão e minha cunhada pra desejar Feliz Ano Novo. Passei o mês de janeiro de 2014 inteiro aqui em Sydney curtindo a cidade, as praias, a vida. Foi intenso. Foi decisivo.”

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As férias terminaram e Luciana voltou para o Brasil. Estava decidida. Em 3 de fevereiro, dia do seu aniversário, a executiva voltou ao trabalho e revelou à chefe sua decisão. Em um ano, deixaria a empresa para morar na Austrália. Ahh?

“Nunca antes na história da minha vida tinha planejado alguma coisa, tudo sempre foi acontecendo pra mim de um jeito ou de outro. Planejei minha mudança para a Austrália, coloquei tudo no papel, listei as razões pelas quais ia deixar minha boa vida em Porto Alegre e viria pra cá. O grande objetivo era me desafiar porque a vida na capital gaúcha era boa, mas era entediante. Meu trabalho, apesar de ser invejado por muitos, não me oferecia nenhuma oportunidade de crescimento à médio prazo. Eu queria mais, muito mais. Queria frio na barriga, medo, incerteza, desafios, queria saber os meus limites e quem eu sou de verdade. E achei que não iria conseguir esse pacote completo no Brasil. Então, comecei a executar o plano. Pra praticar mais o meu inglês, decidi virar hostess do CouchSurfing, um programa de hospedagem, e recebi muito gringo em casa. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Conheci muita gente legal, me conheci através deles e hoje tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Decidi também ser voluntária na Copa do Mundo e de novo, foi uma experiência incrível.”

Em paralelo às novas experiências, Luciana dedicou-se a juntar todo o dinheiro possível. Precisava comprar as passagens, pagar o curso e sobreviver. Não conseguiu ser transferida pela empresa onde trabalhava. Viajou com visto de estudante. Antes de embarcar, a necessidade de conseguir mais recursos gestou um plano B.

“Em setembro de 2014, percebi que precisava de mais dinheiro do que tinha e comecei a pirar. Tinha que arrumar essa grana. Poderia pedir para o meu pai, mas não quis. O plano e o sonho eram meus. Passei noites em claro tentando achar uma alternativa. Ela veio sem querer. Resolvi assar um bolo de chocolate para levar em uma reunião matutina na firma. Um bolo simples, mas bem gostoso.”

Bingo. Nascia ali um empreendimento. Todos os que provaram o bolo, amaram. Sugeriram que eu fizesse outros para vender. Estava ali a solução para os problemas de Luciana. Criou uma página no Facebook chamada O Bolo do Sonho para vender seus quitutes. Marqueteira, embalou a gula em sua história linda. “Contei que tinha um sonho de morar na Austrália e por isso, estava vendendo bolos pra arrecadar dinheiro. De outubro de 2014 a janeiro de 2015, vendi muitos bolos e consegui o dinheiro que faltava. Muita gente conhecida e desconhecida comprou meu bolo e apoiou a minha história. Pra cada um, eu escrevia um bilhetinho à mão agradecendo a ajuda. E cada vez que eu preparava um bolo encomendado por alguém que também tinha uma história, eu fechava meus olhos e colocava, além dos ingredientes, um pouco da minha energia, dos meus bons sentimentos. Essa era a parte legal: levar doçura e coisas positivas pras outras pessoas.”

Sherazade já sabia que uma história puxa outra e gentileza potencializa gentileza. Luciana chegou em Sydney em 25 de abril depois de ter pedido demissão da empresa onde trabalhou por 7 anos. Desembarcou com duas malas, onde colocou o que sobrou das suas coisas depois de ter vendido quase tudo. Desapego total. Sonho transfomado em realidade. Ela conta sua nova rotina:

“Hoje sou garçonete num restaurante italiano e arrumadeira num hotel, só ando de bicicleta pra cima e pra baixo e nunca mais usei um salto alto. Se eu sinto falta da vida corporativa? Às vezes, sim. Mas aprendo mais sobre a vida aqui, servindo mesas e limpando privadas, do que estava aprendendo sentada no escritório na frente de computador. Não tenho mais crachá e nem salário fixo. Tenho liberdade, tenho segurança e muitas oportunidades de me reinventar quando eu quiser. Tenho uma nova página, em branco, pra escrever todos os dias. E tenho um objetivo: conseguir um sponsor pra poder pedir o visto de residência permanente na Austrália. Quando esse dia chegar (e ele VAI chegar), vou escalar a Harbour Bridge. Meu último medo – o de altura – vai acabar ali. Essa é a minha história. Vou continua sonhando, planejando e realizando.”

O meu PE e a Lua de Sangue

Vi a lua de sangue pela primeira vez e ela mexeu comigo. Ela foi se transformando, se tingindo, minuto a minuto. Deixou de ser a luz doce dos namorados. Virou um símbolo de vida e de morte. De transformação. De relatividade. Saber que ela só se repetirá em 2033 e pensar que posso não mais estar aqui para vê-la, me deixou ainda mais reflexiva. Farei 50 anos daqui 30 e poucos dias. Que lua eu serei se reencontrar a Lua de Sangue? Que projetos terei feito? Que histórias terei contado? Darei conta de iluminar meu filho até a idade adulta? Darei conta de guiar meus pais até a luz eterna?

Essas e outras perguntas, ainda mais particulares, me acompanharam enquanto eu admirava a Lua de Sangue. Tive a chance de vê-la porque estava na minha Capela e a noite era clara, com pouquíssimas nuvens. Desligamos as luzes do jardim e da piscina e cada um foi achando o seu canto. Deitei em uma espreguiçadeira. No início, em companhia. Depois fiquei só. Eu a lua, o sangue e a música. Foi quando percebi que era momento de aproveitar o ensejo para planejar. Decidir o que eu quero fazer da vida até o próximo eclipse. Resolver que passos vou dar para, se chegar até lá, poder dizer, de novo, que valeu a pena.

Começo hoje, portanto, o meu Planejamento Estratégico da Lua de Sangue. Vou desenhar metas de curto, médio e longo prazo para tentar reencontrá-la em 2033. Começo hoje também a fase 2, a missão, do projeto A Vida Sem Crachá. A proposta é seguir contando histórias de transformação e de planos A, B, C e Z. Construir um abecedário de ideias que possam ser úteis e inspiradoras. Aproveito para, de cara, pedir ajuda. Tem uma história bacana, me conta. Conhece alguém que fez um triplo mortal carpado e mudou de vida? Me dá a pista, que vou atrás. Se tudo der certo, no ano 1 do meu PE da Lua de Sangue, lanço mais um livro da série A Vida Sem Crachá. Porque dá para viver sem ele, mas sem felicidade (e um pouco de dinheirinho) não.

Uma semana do trabalho de Deus

“Eu assistia às novelas da Globo, todas, para poder ver o Rio de Janeiro. Era apaixonado pela cidade, sua paisagem, sua história. Um dia decidi que ia partir.”

Estou comendo sozinha, tomando o café da manhã, quando ouço a conversa. Me interesso e presto atenção. José, 45 anos, fala com uma mulher sentada na mesa ao seu lado. Têm amigos em comum e estão no dia seguinte de uma feliz festa de casamento. À medida que fala, José se anima. Começa a discursar mais alto e levanta da cadeira. Impossível não prestar atenção. A história é incrível.

“Eu tinha apenas 20 anos e morava em Salvador. Briguei feio com a minha mãe, que não aceitava a ideia da minha aventura. Eu ia com um amigo para o Rio, apenas para conhecer a cidade. Fiquei amigo de uns motoristas de uma transportadora. A proposta era pegar uma carona. No dia de partir, meu amigo da onça deu para trás. Falou: “Zé, não vou mais”. Me retei. Como que ele destrói meu sonho do dia da largada? Juntei minhas coisas na mochila e fui sozinho para transportadora. Consegui uma carona até Governador Valadares, que é quase o meio do caminho.”

Nesta altura a conversa, José fala como se palestrasse em um TED. De pé, desenvolto, descreve as emoções com a mão. Faz pausas. Se emociona com seu próprio passado. “Nesta primeira parada, tratei de arrumar um jeito de comer. Estava morto, mas morto de fome. Tinha apenas uns trocados no bolso e o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa. Me aproximei de um grupo de caminhoneiros. Eles comem, muito, sabe? Sempre que sobrava comida, eles deixavam o prato para os cachorros. Não me fiz de rogado. Ficava ali rondando e roubava a boia dos cachorros.” José ri de sua fome. Toma, de pé mesmo, um gole de café e morde um sanduíche gordo de queijo e presunto. Parece estar se vingando daqueles dias difíceis.

“Eu precisava seguir em frente. Aceitei outra carona até Petrópolis. Pouco antes de chegar à Cidade Imperial, o motorista viu uma moça bonita na estrada, freou o caminhão e me mandou descer. Fiquei ali, parado, no meio no nada. Decidi seguir na rodovia. Fui descendo à pé. Andei bem uns 30 quilômetros. Sabe o que me salvou?”

A pergunta fica parada no ar. A plateia do café da manhã nem morde o pedaço de melancia para não estragar o clima. “Foi a desgraça alheia”, diz José. O baiano, hoje casado e pai de uma menina de oito anos, abraça as duas com carinho antes de continuar a conversa. “Aquela estrada é cheia de curvas. Estava andando quando vi um conversível a toda velocidade. Ele cortou a curva e não conseguiu voltar à pista. Seguiu reto para dentro do mato. A sorte do playboy é que naquele pedaço não tinha precipício. Corri perguntar se ele estava bem. Tinha apenas uns cortes. Pediu minha ajuda e eu dei.”

Graças ao Zé que ajudou-o a tirar o carro do matagal, o playba conseguiu seguir viagem. E foi justo e generoso. Levou o andarilho consigo. Zé fedia e tinha fome. Mas, maior do que esses dois tormentos era a vontade de chegar logo ao Rio. “Pedi para ele me deixar na rodoviária Novo Mundo. Ele ofereceu comida, ofereceu dormida e banho. Recusei. Só queria chegar. Descemos a serra voando. Ao estacionar na rodoviária, ele me deu uma nota de 5, não lembro mais qual era o dinheiro. Pude comer e tomar banho”.

Como milhares de migrantes, nos primeiros dias de capital, José fez da rodoviária seu pouso. Passeava pelas ruas de dia e dormia lá à noite. Dormir era fácil. Difícil era comer. Um dia, com o estômago fazendo passeata nas costas, ele se aproximou de um ambulante para ver se conseguia ajuda. “Me ofereci para fazer qualquer trabalho em troca de um lanche e um suco. O cara vendia frutas e fichas telefônicas. Pobre ainda usava orelhão. Celular era coisa de trilhardário. Ele me olhou de cima abaixo e falou: ‘toma aqui esse dinheiro. Cuida da banca para mim, que eu vou buscar mais mercadoria’. Me entregou o maço de notas e saiu. Não acreditei. Que maluco era aquele que confiava em um desconhecido com cara de faminto? Fiquei lá e vendi o máximo que pude. Precisava agradar. Precisava mostrar serviço.

Quando ele voltou com mais mercadoria, eu estava com o bolso cheio de dinheiro. Ele ficou feliz e me levou para a casa dele. No caminho perguntei porque ele havia confiado em mim. A resposta dele, senhor Amaro, é lição para mim.

“José, eu já vi de tudo nessa vida. Uma das coisas que aprendi cedo foi saber, à primeira vista, se a pessoa é honesta ou não. Estava e está escrito na sua cara que você é um homem honesto e trabalhador. Vamos para casa, comer e dormir.”

Zé se emociona quando relata essa passagem. Seu olhar transborda gratidão. Ele abraça novamente a filha e a mulher.

Curiosa, pergunto sobre os próximos capítulos. E ri. Faz outra pausa e conta. “Trabalhei com ele alguns meses, aproveitava minhas folgas e andava por toda a cidade. Conheci toda a zona Sul, Corcovado, Pão de Açúcar. Tudo à pé para não gastar dinheiro. Uma lindeza. Depois de um tempo, Amaro me indicou para um trabalho em uma padaria. Aprendi a fazer pães, a atender no balcão, a servir. Sempre fui bom de conversa. Lá conheci um cliente que foi com a minha cara e me indicou para trabalhar em uma empresa que explorava petróleo. Dá para imaginar? Eu, metido com o ouro negro? Comecei de baixo. Fui subindo, estudando muito, trabalhando duro. Em cinco anos, era técnico. Faz 18 anos que trabalho com isso. Ganho muito bem e nunca mais passei necessidade”, conta, agora transbordando orgulho. “Já fui dezenas de vezes para o Rio de Janeiro. Vou de avião. Me hospedo em hotel executivo. Atendo a Petrobras. E continuo achando que é a cidade mais linda do mundo.”

Antes de encerrar a conversa, peço licença para fazer uma pergunta. Ele aceita, de pronto.

“O senhor imaginava que havia tanta solidariedade no Rio de Janeiro?”

Ele para. Olha para o nada por alguns segundos e se entrega. “De verdade, não. Por isso essa aventura foi tão importante para mim. Mudou minha vida. Acredito no ser humano. Acredito na bondade. Acredito na generosidade. Assim como o Amaro também aprendi a separar o joio do trigo. Ando na rua sempre com algum dinheiro para ajudar quem está precisando. De longe eu vejo, analiso. É muito difícil eu errar. Ajudar o próximo é o mínimo que eu posso fazer para devolver ao Universo, a Deus, o bem que Me fizeram”, conclui. Toma mais um gole de café e pede licença. “A conversa foi boa, mas precisamos pegar a estrada. Foi um prazer.”

 

A música que toca na sala é do Gilberto Gil. Soa como a perfeita trilha sonora de um instante. Exemplar. Mágico.

 

A raça humana é

Uma semana

Do trabalho de deus

A raça humana é a ferida acesa

Uma beleza, uma podridão

O fogo eterno e a morte

A morte e a ressurreição

A raça humana é o cristal de lágrima

Da lavra da solidão

Da mina, cujo mapa

Traz na palma da mão

A raça humana risca, rabisca, pinta

A tinta, a lápis, carvão ou giz

O rosto da saudade

Que traz do gênesis

Dessa semana santa

Entre parênteses

Desse divino oásis

Da grande apoteose

Da perfeição divina

Na grande síntese

A raça humana é

Uma semana

Do trabalho de deus

A raça humana é

Uma semana

Bom dia.

 

Os planos B de Belisário

Os planos B do Belisário

 

Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

 

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

 

Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Batista. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

 

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma emprea concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

 

– Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

 

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

 

  • Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.

 

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

 

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

 

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

 

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

 

–“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

 

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

 

  • “Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

 

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

 

  • “Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

 

 

Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Batista. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma emprea concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

– Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

“Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.”

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

–“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

“Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

“Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

 

 

 

 

 

Um despacho na minha porta

– Corre, corre, aqui, dona Cristina

João, um negro forte, tipo armário, de quase dois metros de altura estava branco, balbuciando meu nome. Cheguei perto. Antes que eu perguntasse “o que foi João, viu uma assombração?”, ele apontou para a porta. Quem falou foi Benedita, esbaforida e de língua sempre solta. “Tem um despacho, tem um despacho atrás da porta. E é novo, fresquinho”.

Era. Uma hora antes, eu havia aberto o portão e não tinha nada lá. Já era noite. Meia hora antes da descoberta, os cachorros fizeram uma sinfonia dodecafônica. Achei que os latidos eram para os cavalos. Errado. Eram para o portador do despacho. Sim, isso mesmo. Os despachos, muitas vezes, são despachados, acredite, por motoboy. Não é o mentor do descaminho que o coloca no devido lugar. O malfeitor manda fazer, tipo delivery, igualzinho a serviço de entrega de flores. A flor do dia de Olorum. A diferença é que o mandante do ebó não assina cartão com palavras bonitas nem votos de felicidade. Manda incógnito e deixa a dúvida: “quem será que me deseja o mal?”

Quando vi o prato pronto, todo arrumadinho para Exú, lembrei do meu amigo Marcelo Melo. Não, não imaginei que fosse dele o “presente”. Preciso explicar direito. Marcelo é editor, dono da editora Livros de Safra e publicou a espetacular trilogia chamada Deuses de Dois Mundos, do publicitário PJ Pereira. A primeira e última cenas do terceiro livro começam com um despacho. É eletrizante. A narrativa espetacular não explica, no entanto, o que fazer para quebrar o encanto de uma macumba como aquela na minha porta.

Quer saber se eu acredito em despacho? Não, mas respeito. E se respeito, de alguma forma acredito. Tanto que agi por instinto, intuição e fé. Não liguei para ninguém para perguntar o que fazer. Também não pesquisei no Google para descobrir se havia algum tutorial no Youtube sobre “como despachar um despacho”. Tem, descobri depois. Não tive paciência de ver, mas se você precisar, segue a dica. Outra boa, é rezar para São Cipriano, o mais poderoso de todos os santos nos mister de quebrar feitiços.

Deixei João e Benedita para trás. Comecei a rezar. Alto. Pai Nosso que está no céu, que emendava com Ave Maria Cheia de Graça. Randômico. Intermitente. Toquei o botão para abrir a porta. Sai para a rua. Era um despacho pequeno. Prato de barro (agdá) do tamanho de um prato de jantar. No centro, uma ave com suas penas. Não investiguei qual. Nas beiradas, farinha e arroz. Estava ladeado por quatro garrafas meio cheias de bebida. Duas de cerveja, duas de vinho espumante, da pior qualidade. No entorno do despacho tinha um pó branco, que imaginei ser farinha de tapioca ou talco, se Yemanjá estivesse envolvida na história. Uma vela de sete dias virgem foi posicionada na extremidade superior, formando o desenho de um pentágono ou de uma casinha ou de uma capelinha sem a cruz.

Com o mantra do Pai Nosso e da Ave Maria, começo a desmanchar o despacho. Quem será que fez? Por que? Para quem? Será para mim? O que será que eu fiz de mal além de existir?

Hoje uma pessoa ligou perguntando como se chegava aqui. Será que era o entregador delivery? Não sei as respostas, mas sei que os gregos e os hebreus quebravam vidros e pratos para espantar os maus olhados. Começo pelas garrafas. Esvazio-as no mato. Não choveu hoje e serve para molhar o campo. Agora, preciso quebrar. Bato com a primeira garrafa forte no poste. Um, duas, três vezes. Não quebra. Se estivesse inaugurando um navio, pagaria o maior mico. Procuro uma quina. Acerto. Espatifa. Repito com a segunda, terceira e quarta. Deu certo.

Captura de Tela 2015-09-09 às 22.34.06

Lembro novamente do livro do JP Pereira. Exu, o mensageiro, na trama e na vida cumprem a missão dos jornalistas. Dão notícias. Às vezes, boas. Às vezes, ruins. Respeito Exu. Somos irmãos de profissão. Sei que ele é faminto. Eu também sou. Pego o agdá e viro toda a comida no mato. Lamento tirar o alimento do orixá, mas algum bicho poderá comê-la. Se não, servirá de adubo. Compostagem. Com o prato limpo, quase sem vestígio da macumba, quebro-o em mil pedaços. Aprendi com Zorba, o Grego. Não canto a canção do filme. Sigo rezando. Ave-maria-cheia-de-graça-o-senhor-é-convosco-bendita-sois-vos-entre-as-mulheres…

Volto para o lugar do despacho. Só sobrou a vela. Me abaixo e pego. Não acredito no que vejo. É uma vela de sete dias de Irmã Dulce, minha santa protetora, minha madrinha baiana. Sorrio, feliz. Um despacho com irmã Dulce só pode terminar bem. Ela, como eu, era sincrética e respeitava todas as religiões. Tinha por sua vez o respeito das mães e pais de santo da Bahia. Ainda rezando, só que agora com meu pensamento em Dulce, que dizem, em breve, será canonizada, levei a vela para casa. Coloquei a num pires e a acendi. Vai queimar por sete dias. Vai me proteger por uma semana. Vou agradecer por todo o bem todas as noites.

Agora só falta fazer uma lavagem. Com água e cheiro, do jeito que aprendi com as baianas do Bonfim. Toda a segunda quinta-feira do ano, participo da festa. Formamos um grupo. Uma dúzia de amigos. A concentração acontece na casa de Mari e Bel na Vitória e, de lá, seguimos à pé até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. De lá, vamos em romaria até às colinas sagradas. É uma festa religiosa. É uma festa pagã. Tem música, alegria, festa, riso, cerveja, política, promessa e oração. Cabe tudo. Por isso, é boa. Rezando, como quando amarro minha fita anual nas grades da igreja, terminei de lavar a calçada. Ficou limpa e cheirosa. Fiz meu serviço com carinho. Obrigada Nosso Senhor do Bonfim pela proteção. Oxalá, nos proteja.

DCIM101GOPRO
DCIM101GOPRO

Quando acabei, João e Benedita estavam mais calmos. Primeiro, sentiram alívio por não terem tido a responsabilidade de despachar o despacho. Eles são evangélicos. Segundo, sentiram firmeza no meu despacho. Benedita foi categoria: “o feitiço foi quebrado. Seja o que for, para quem for, não vale mais. Morreu. Perdeu-se. Vamos dormir”.

Obedeci, Benedita. Fui para o quarto. Quando entrei e fiquei só, percebi que ainda estava rezando. “Não nos deixeis cair em tentação, mais livrai-nos do mal, amém”. A vela de Dulce, firme e forte, iluminava o banheiro. Defronte ao espelho, lembrei daquela canção linda que Ivete Sangalo e Maria Bethânia cantam em um disco chamado Lá em casa. Bem baixinho, cantei-a para mim:

 

Odô, axé odô, axé odô, axé odô

Odô, axé odô, axé odô, axé odô

Isso é pra te levar no ilê

Pra te lembrar do badauê

Pra te lembrar de lá

Isso é pra te levar no meu terreiro

Pra te levar no candomblé

Pra te levar no altar

Isso é pra te levar na fé

Deus é brasileiro

Muito obrigado axé

 Ilumina o mirin orumilá

Na estrada que vem a cota

É um malê é um maleme

Quem tem santo é quem entende

Quanto mais pra quem tem ogum

Missão e paz

Quanto mais pra quem tem ideais e

Os orixás

 Joga as armas prá lá

Joga, joga as armas pra lá

Joga as armas pra lá

Faz a festa

 

 

 

 

 

O dia em que fiquei do ladinho da Kéfera

Você conhece Kéfera Buchmann? Eu não conhecia. Meu filho, Chico, de treze anos, me apresentou a ela. Um dia, pediu para ir ao shopping a fim de conseguir um autógrafo. Perguntei na minha ignorância, “autógrafo de quem? Ela é gringa?” Chico riu da minha burrice e explicou. Kéfera é curitibana, 22 anos, atriz, comediante e vlogueira. Ela tem há cinco anos um canal no Youtube com 5,6 MM de seguidores, que se chama 5incominutos. Kéfera é uma celebridade teen. Kéfera ganha dinheiro como gente grande graças aos views do canal, aos produtos que vende e aos patrocínios que tem. Chico não conseguiu o autógrafo porque 2 mil jovens tiveram o mesmo desejo e a moça foi embora do shopping escoltada por seguranças para protege-la de fãs enlouquecidas.

 

Chico vê todos os vídeos de Kéfera e morre de rir. Ela usa óculos, é bonitinha mas não é uma deusa. Kéfera ganha a audiência não pela aparência, mas pela piada e pela voz. Ela fala, fala e fala. Fala até a gente ficar tonto. Também brinca com os muitos animais de estimação que tem. Ela os aperta tanto que parecem ser de pelúcia. Kéfera também zoa a própria mãe, dona Zeiva. Tenta ser engraçada. Tenta ser irônica. Tenta ser criativa. Sei que sou velha porque não consigo achar graça.

 

Chico ri de mim e dela. Os vídeos têm em média 14 minutos. Ela posta duas vezes por semana, terça e sábado, e faz um ao vivo a cada sete dias. É craque na web, tanto que já deu dicas de como ganhar dinheiro no mundo digital para a revista Exame. Kéfera trabalha para caramba e, nesse aspecto, eu a admiro muito. Kéfera é atriz e tem uma peça em cartaz, que lota de adolescentes a cada sessão. Kéfera escreveu um livro e, claro, está na lista dos mais vendidos.

 

Foi na livraria da Vila, em Pinheiros, bairro de São Paulo, que nossos destinos se encontraram. Chico esteve lá e, como bom filho que é, foi procurar meu livro nos balcões centrais. Ele sabe que livro precisa estar lá para vender. É o tal do efeito Tostines. Vende mais porque é mais fresquinho, é mais fresquinho porque vende mais. E não é que eu estou pongando na Kéfera. Para os não baianos, legenda: pongar significa se pendurar, pegar carona, se aproveitar do dinheiro, dos privilégios e da fama de outrem. Estou pongando na Kéfera, porque os livreiros colocaram o meu livrinho ao lado do best seller dela. Cinco minutos de Kéfera dando colher de chá para o meu A Vida Sem Crachá.

 

Chico ficou exultante e me mandou a foto. Eu logo imaginei a cena. Pai ou mãe em transição de carreira – o novo eufemismo para desempregado – vai com a filha adolescente à livraria. Precisam comprar um alfarrábio pedido pela escola, mas o desejo da garota é o livro da Kéfera. Negociam uma nota dez na prova de matemática e a menina leva Fogo Morte e Cinco Minutos de Kéfera para casa. O pai, chateado, decide que também merece um agrado. Olha para a direita e encontra A Vida Sem Crachá propondo uma volta por cima e um plano B de frente para o mar. É irresistível. Eu compraria. E você? Brincadeiras à parte, será que a Kéfera vai me ajudar a vender livros?