A praga do cut and paste

A primeira vez que ouvi a expressão “cut and paste” foi no século passado. 1984. Eu escrevia em uma Olivetti Lettera 82 verde, linda. Estava cursando o segundo ano de jornalismo na PUC-SP e um professor nos apresentou ao universo dos beatniks. Jack Kerouac, William Burroughs, Allen Ginsberg e Gregory Corso. Eu era uma pirralha comunista metida a intelectual. Pentelha e preconceituosa. Achava a cultura pop americana um lixo, porque vivia sob a influência dos existencialistas, marxistas e situacionistas. Meus ídolos eram, pela ordem, Camus, Sartre, Debord e, claro, Carlos Marques. Era, no entanto, cdf. Decidi desafiar o professor e mergulhei fundo no assunto e fiquei expert em beatniks japoneses. Consegui livros. Pesquisei. Escrevi um trabalho de 20 páginas. Tirei nota 10. Como era apenas pirraça, não consigo lembrar o nome do autor nem do professor.

Não existia computador pessoal naquela época. Pesquisávamos em arquivos, enciclopédias e livros. Ser cdf fazia toda a diferença na nossa vida pessoal e profissional. A memória era intransferível. Quem sabia, sabia. Ninguém tinha coragem de copiar ninguém. Os casos de plágio eram raros e execráveis. Quem roubava a propriedade intelectual do outro ia para o exílio. Aconteceu com um jornalista muito famoso à época. Escrevia sobre música, literatura e cultura na Folha Ilustrada. Era idolatrado, até que um dia que descobriram que ele havia traduzido e publicado como sua uma matéria inteira da Rolling Stone americana. Fraude e farsa. Depois deste feito, mudou-se para a Indonésia e hoje, conta a Wikipedia anda pela Rússia. Na era pré-Google, cut and paste era feito com papel, tesoura e cola. Tratava-se de uma técnica literária criada pelos dadaístas e levada à termo pelos beatniks, na qual o autor picava e misturava trechos de modo aleatório para buscar novo sentido. William Burroughs era fera nisso. “Almoço Nu” foi escrito assim. Em 2012, tive o privilégio de ver o original de “Almoço” e de “On the Road” no museu da Literatura em Paris. No rolão interminável de papel, o corte e a cola. Única, original e criativa.

Lembrei de tudo isso hoje por causa de um hábito perverso meu. Às vezes, leio um texto em uma das redes sociais e desconfio. Desconfio porque soa falso. Desconfio porque soa perfeitinho demais. Desconfio porque parece muito familiar. Desconfio também quando a produção do ser humano é caudalosa. Intermitente. Inesgotável. Fico curiosa. Fico com inveja. Fico com a pulga atrás da orelha. Daí, uso uma técnica que aprendi com um professor universitário amigo meu. Copio um parágrafo no meio do texto e jogo no Google. Não pode ser muito longo, senão o buscador reclama. Bastam cinco ou seis frases. É batata. O dito cujo aparece duas vezes. Primeiro na fonte de onde foi copiado. Segundo no texto do ser humano caudaloso, que normalmente é craque em rede social e tagueia superbem os seus escritos. Aí minha inveja passa e eu sinto uma tristeza danada. Preferia me sentir desafiada a escrever mais, melhor, com mais emoção e intensidade. Preferia me sentir inútil, preguiçosa e vagabunda.

A fraude intelectual faz tempo que deixou ser motivo de vergonha ou problema. A miséria do cut and paste, ouço dos amigos professores e redatores, tornou-se normal, comum e banal. A explicação é “tipo assim”: “trabalho muito, ganho mal e por isso posso copiar”. Ou: “trabalho muito, não ganho nada para publicar na rede social e por isso posso copiar”. Ou ainda: “se o texto do outro é bom, se ele disse tudo o que devia ser dito, porque preciso escrever de novo, pensar de novo, ir além?”. Desfaçatez. Descaramento. Rouba-se ideias e palavras sem a menor vergonha. Por que? Para que? A propósito do quê? Dei um find, fiz um cut, outro paste e não achei a resposta. Bom sinal…

 

O medo de perder o emprego

Tive um pesadelo. Sonhei que estava com um medo absurdo de perder o emprego. Paura mesmo. No sonho, ia para o escritório e discutia com os colegas estratégias para reverter o resultado ruim. Planejava cortes profundos de custo. Propunha novos negócios. Falava com Deus e o mundo para melhorar as coisas. Tentava impressionar meus pares, meu chefe e o acionista. Era um sufoco. A cada toque do telefone, um arrepio na espinha. Será que vou dançar? Chegou a hora?

Ler os sinais virou outra doença. Qualquer coisa banal virava um motivo. Cruzava com alguém no corredor, o ser humano não dava bom dia, eu pensava: “Será que ele sabe de alguma coisa?” Alguém não aceitava o meu convite para tomar um café. Já vinha o mau pensamento embolado no sonho: “Ele está fugindo de mim?”

Em meu pesadelo, repetia uma série de comportamentos que vejo e ouço por aí. Quando acordei, o alívio. Eu não seria demitida. Como assim? Sim, eu não seria porque já fui demitida. Não tenho emprego, nem crachá há quase um ano. Decidi me autocontratar para escrever. Escolhi me dedicar à gestão da minha pousada. Estou abrindo, como plano B e C, novas frentes de trabalho. Sem pátria, nem patrão.

A descoberta – você não pode ser demitida porque já foi — acabou com a minha sonolência. O alívio transformou-se em reflexão freudiana. Por que o meu inconsciente repetiu, um ano depois, o filme do medo de perder o emprego? Jung, talvez, diria que o inconsciente coletivo tem participação nisso. Recebo mensagens diuturnas sobre esse temor.

Converso com amigos e ouço histórias às vezes cômicas sobre o pânico que se instalou nas empresas. Uma amiga quase enfartou há 20 dias quando a chefe chamou-a para um almoço. O almoço não deu certo. A conversa foi adiada, adiada, adiada. Ela surtou. Passou o dia em pane, certa de que estava no olho da rua. No fim, não estava. Havia sido promovida. Mas a aflição era tanta que nem comemorou o novo cargo. Apenas festejou a manutenção contracheque.

O medo de perder o emprego é ancestral. Emprego é uma das formas primárias de vender algo – a força de trabalho – em troca de dinheiro. Em tempos de crise, o medo se torna epidêmico, patológico e coletivo. Faz sentido. Temer ficar sem sustento é racional e normal, especialmente quando não se tem reservas, casa própria, currículo e, principalmente, plano B. O desemprego amedronta. A falta de dinheiro gera perdas, brigas e conflitos. No limite, a expressão olho da rua pode ser literal. Perder o emprego, a casa, a família e o juízo como aconteceu com o casal da rua 14, personagens de uma história que contei.

Mas isso, perder tudo e virar sem teto, pode mesmo acontecer com você? Será que, às vezes, o nosso medo não fica maior do que o perigo? Será que exageramos por que o que está em jogo não é somente o dinheiro no final do mês? Decodificando o meu pesadelo, percebo que o pânico de perder o emprego, muitas vezes, extrapola a racionalidade, a necessidade e a sobrevivência. Ele pode estar relacionado a sentimentos mais profundos e escuros de perda, de dispensa, de rejeição. Isso acontece quando o emprego se transforma em razão e mote para a vida. E, agora, definitivamente não estou falando do contracheque.

Em meu pesadelo, eu revivia o pânico de ser rejeitada, de não ser eficiente e necessária. De ser descartável. Também sentia medo de perder algo querido. Tipo um amor, um companheiro, um amigo. Tipo um pedaço da minha vida. Quase doze meses depois de ser demitida de verdade, de ter mudado de vida e ter iniciado um novo tipo e formato de trabalho, o pesadelo significou um olhar pelo retrovisor para aquela pessoa que fui.

Eu era dedicada, era obcecada, era abduzida pelo meu emprego. Trabalhava para a empresa como se ela fosse minha. Por que fazia isso? Porque, no meu inconsciente, achava que ela fosse minha mesmo. Por falta de educação empreendedora, por falta de história de empreendedorismo na minha família, formada por funcionários e profissionais liberais, não sabia que podia viver por minha própria conta.

Precisava de um contracheque e de um crachá. Precisava de apoio, de certeza e de segurança. Precisava de pai, de mãe e de babá. Acho que cresci nos últimos 358 dias. Já estou indo para a escola sozinha. É um bom começo. Quer saber se eu ainda tenho medo? Claro que sim. Os maiores são de ladrão, de escuro, de hiperinflação, de montanha russa e, o mais recente, é de ficar sozinha na livraria na noite do lançamento do meu livro.

Nós dois só temos um ao outro – O casal da rua 14, parte 2

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Nesta semana, o jornal New York Post publicou a história do ex-magnata do mercado financeiro, William “Preston” King. Ele é, também, ex-companheiro de farras do investidor Jordan Belfort, o personagem de Leonardo Di Caprio no filme O Lobo de Wall Street. Sem grana, sem amigos, afogado nas drogas e magro como um craqueiro, ele foi fotografado desmaiado sobre duas caixas vazias de pizza em uma calçada do Greenwich Village, em Nova York. Falido e fudido, ele acabou com seu patrimônio milionário em duas décadas de loucura e infortúnio. Segundo a reportagem do jornal, a irmã de King, Kristine, não tinha notícias dele desde janeiro deste ano. O “Lobo” Belfort também foi ouvido. Lamentou muito. “É triste saber que ele está na rua. Tomara que a família o ajude”, disse, lavando as mãos à moda de Pilatos.

As ruas de Nova York estão cheias de gente largada. Sem casa. Sem perspectiva. Sem muito futuro. Ontem, antes de tomar meu ônibus para o aeroporto, voltei à rua 14. Ao compartilhar a história do casal de jovens sem teto, não consegui me libertar. Muito ao contrário. Vários leitores apelaram por notícias. Clamaram por um fecho, por um fim. Um senhor, inclusive, me acusou de gastar, irresponsavelmente, o tempo dele. Ele leu e terminou sem o final. Ficou bravo comigo.

Voltei à rua 14. Fazia sol de novo. Vim descendo pela Sétima para ter certeza de que não erraria a localização. Cheguei na esquina da farmácia Duane Reade. De longe, vi uma pessoa sentada no chão. Não eram eles. Era outro. Sozinho. Antes que houvesse tempo de eu atravessar para perguntar sobre o casal, um carro de polícia com duas jovens profissionais encostou na calçada. Ambas desceram e foram falar com o rapaz. Blitz. Em segundos, ele junto os trapos e partiu. Vazou, correndo.

policiais

Não parecia ser um bom dia, apesar do sol. Decidi tentar e segui pela rua em direção à Terceira avenida, minha casa. Lá estavam eles. Juntos e, novamente, grudados. “Nós só temos um ao outro”. O cartaz continuava lá também, agora em outra posição, ao lado de um copo vermelho para donativos. Encostadas na parede, duas grandes malas sem rodinha, apoiadas pelas outras pequenas bagagens que vi no domingo.

Antes que eu pudesse atravessar a rua, o carro da polícia, aquele, chegou. De novo, as duas policiais desceram e intimaram a partida. Helen estava desembaraçando os cabelos, que nas pontas são tintos de rosa. Frank lia um livro de capa mole. Não consegui ver o nome, nem o autor. Se não fossem as tranqueiras expostas na rua, de longe eles pareciam um casal desfrutando o fim do verão no hemisfério Norte. Acelerei o passo.

A história é triste e banal. Frank nasceu na Alemanha. Veio estudar nos Estados Unidos, se formou, conheceu Helen e se apaixonou. Decidiram morar juntos. Alugaram um apartamento no Brooklyn, bairro vizinho à Manhattan. Helen nasceu no interior, filha de uma família grande. Queria mais dá vida e deu um jeito de estudar e trabalhar em Nova York. Conheceu Frank, se apaixonou e foram morar juntos. Viviam bem com seus respectivos salários. Frank perdeu o emprego primeiro. Depois foi a vez Helen. Tentaram se recolocar. Não conseguiram. Não tinham reservas. Acumularam contas e dívidas. O dinheiro acabou. Deixaram de pagar o aluguel. O dono os colocou na rua. Simples assim. Estão na rua há um mês. Ele está cabeludo, mas não estão sujos. Tomam banho, se cuidam. Disseram não usar drogas. Parecia ser verdade.

– “Vocês não têm família?”, perguntei.

– “A minha mora na Alemanha. A dela não se importa conosco. Só temos um ao outro”, ele repetia.

– Por você vocês vieram parar aqui? O que você pretendem fazer para sair da rua?”, insisti.

Incomodado, Frank respondeu: “Não tínhamos para onde ir. Não sabemos o que fazer. Precisamos ir. A policial ordenou que fôssemos embora”, disse, interrompendo a conversa.

Não era uma entrevista e eu não me apresentei como jornalista. Disse apenas que era brasileira e que os tinha visto no domingo. Que queria ajudar de alguma forma. Perguntei porque ele não pedia ajuda na embaixada da Alemanha. Ele me olhou espantado. “Tenho que ir!”. Ofereci uma nota de 20 para ajudar na féria do dia. Agradeceram e se foram em direção ao sul, carregando as tralhas.

Passei o dia pensando no casal da rua 14. Tentei me colocar no lugar deles. Imaginar o que faria se vivesse uma situação como aquela. Estar literalmente no olho da rua. Não ter onde cair morto, como se diz no interior do Brasil.

A princípio senti muita pena e desolação. À medida em que caminhava, procurando não julgá-los, fui imaginando o que eu poderia fazer para conseguir ganhar algum e recomeçar. Lavar panelas. Varrer o chão. Ser garçonete. Cuidar de criança. Cuidar de velho. Fazer mudança. Passear com cachorro. Ensinar alemão (eu não sei alemão, ele sabe). Ensinar inglês. Ser manicure. Caixa de supermercado. Vendedor ambulante. Carroceiro. Catador. Diarista. Faxineiro. Paneleiro. Entregador. A minha lista imaginária foi crescendo, crescendo…

Parei. Parei quando entendi que infortúnio e poço sempre tem um fim. Voltar à tona é uma decisão pessoal e intransferível. Estou desejando que eles queiram e consigam, sem deixar de ter um ao outro. Se eles entendessem português, colocaria a canção Via Láctea do Renato Russo para tocar. Talvez os ajudasse.

O casal da rua 14

No cartão de papelão pardo está escrito em preto:

– Tudo o que temos é um ao outro.

Não li o cartaz na primeira vez que os vi. Estava do outro lado da rua. Reparei neles porque estavam juntos, grudados, corpo com corpo, como se fosse possível sentar em conchinha na calçada da rua. As malas preta e vermelha encostadas, lado a lado, repetindo o carinho dos corpos.

Do outro lado da rua pareciam bem. Saudáveis. Razoavelmente limpos. Não parei nem cruzei a rua. Segui caminhando em direção ao High Line. Era domingo. Queria ver o movimento. Fotografar. Comer gostosuras no Chelsea Market.

Eles não me saiam da cabeça. Antes de chegar ao mercado, já tinha o título óbvio. O casal da rua 14. Por que eles estavam na rua? Seriam uma versão nova-iorquina de Romeu e Julieta? Teriam fugido de casa? Eram viciados em droga? Teriam sido demitidos na última crise e caíram em depressão? Estavam de malandragem?

Enclausurei as perguntas no canto anterior da alma e subia as escadas do HL. Tinha ficado ainda melhor. Estive lá em 2010 e agora os espaços estavam ainda melhor ocupados pelo público. Era uma passarela orgânica. Colorida. Divertida. Variada. Fiquei por lá dois pares de hora. Me perdi no tempo e comemorei. É tão raro acontecer isso comigo.

Antes do pôr do sol, com fome e os pés cansados, decidi voltar. A memória do casal da rua 14 ocupou de novo a minha mente. Decidi repetir o caminho. Agora do outro lado da rua. Cruzo a sétima com a curiosidade pulsando na garganta. Será que eles ainda estarão lá?

Estavam. No mesmo lugar. Do mesmo jeito. Não arredaram o pé. Não curtiram o domingo. Ficaram ali esperando a bondade alheia. De longe, bem longe, fiz uma foto. Tenho horror a esse tipo de invasão. Pensei: quando chegar perto, pergunto se eles querem falar, se topam ser fotografados. Cacei uns trocados no bolso e fui chegando perto. Foi quando vi o cartaz.

– Tudo o que temos é um ao outro.

Não invejei a situação deles. Nem o estado deles. Confesso, no entanto, ter fantasiado ser coadjuvante de um amor assim. Puro, bruto, intenso, maldito, irracional, inconsequente.

A fantasia acabou quando fiquei na frente deles e me abaixei para colocar um dinheiro no copo vermelho. Eu podia ser mãe de um deles. O que eu teria feito de errado para estarem ali, jogados na rua? Cumprimentei o casal. Ele me olhou. Ela não. Estava aninhada, meio contorcida, meio que chorando. Estaria doente? Estaria arrependida de ter fugido? Estava com vontade de voltar para casa mas não sabia como dizer isso para ele?

Amarelei. Não tive coragem de perguntar o que havia acontecido. Engoli a pergunta do porquê eles estavam ali, vivendo na rua. Não ousei atrapalhar aquela comunhão de desamparo e solidão. Desejei sorte. Ela gemeu. Ele agradeceu. Levantei e fui andando para a rua 17. Antes de partir, preciso voltar lá. Não posso ir sem ter notícias do casal da rua 14.

Uma incrível entrevista de emprego

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Contratei e demiti muita gente em 30 anos de carreira. No caso da contratação, a etapa final é a famosa entrevista de emprego. Aquele momento em que você fica cara a cara com o seu futuro chefe direto ou indireto. Na maior parte das vezes, é decisivo. Se agradar, a vaga é sua. Assim, tipo nocaute. Se não agradar, fica no purgatório da repescagem, tentando ganhar por pontos. Quando contratava, detestava seleções decididas por pontos. Significava que ninguém era suficientemente empolgante, diferente ou brilhante. Por isso, se quiser o emprego, acerte logo um soco de baixo pra cima no queixo do contratador. Deixe o coxinha de quatro e não lhe dê a fatídica oportunidade de perguntar “quantas bolas de tênis cabem em uma piscina”.

Foi o que a Roberta fez comigo. Acho que no começo de 2004. Eu dirigia uma área de edições especiais para a nova classe média, cuidava de duas revistas de televisão semanais populares e também fazia edições customizadas para clientes. Precisava de um repórter e não tinha a intenção de perguntar sobre as bolinhas de tênis. Ela entrou de salto alto agulha, saia preta no corte lápis e camisa branca. Discreta e elegante. Usava os dois primeiros botões da camisa abertos, porque tinha um colo lindo e fazia o tipo diferente. Não era um sílfide e não estava nem aí para esse detalhe. Mas não foi o figurino que me chapou.

Eu que não entendo nada de maquiagem e nem uso (agora posso declarar minha ignorância em praça pública) fiquei espantada com o modo perfeito com o qual Roberta passava delineador em seus olhos. O traço era equilibrado. Sem borrões. Os olhos dela ficaram ainda mais inteligentes e o discurso que ela fazia mais crível. Tinha estudado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Para isso, tinha deixado a cidade do interior onde nascera e havia se aventurado na capital. Sozinha? Não, com a filha pequena, Gabriela, fruto de um amor de adolescência.

Neste momento, confesso aqui, contratei Roberta. Amigos de RH, me perdoem. Após essa resposta, eu, que já estava gostando da moça, levei meu direto no queixo. Era diretora de redação, tinha 38 anos, 20 de carreira, e estava quebrada ao meio por causa da dificuldade de conciliar o meu trabalho com a maternidade do meu Chico, então com 1 anos e alguns meses. Aí me aparece uma guria, de 20 anos, do interior de Santa Catarina, inteligente, articulada, disposta, bem vestida, mãe de uma garotinha e ainda capaz de passar um delineador impecável. Era muito para uma segunda-feira.

Trabalhamos juntas por quase dois anos. A vida dela não era fácil comparada com a minha. Salário curto. Jornada longa. Desafios absurdos. Sem babá, sem marido e sem estrutura. Roberta trabalhava muito. Pegava todos os frilas. Eu deixava porque me via nela. Havia sido uma pirralha hiperprodutiva no início da carreira. Mas não tinha filho, o que deixava tudo mais fácil.

Um dia, Roberta pediu para ir embora. Um gestor de RH rigoroso diria que eu contratei mal. Discordarei respeitosamente e absolutamente. Ela era um gênio e por dois anos tivemos um gênio trabalhando em nosso time. Ela voltou para Floripa, reorganizou a vida, capitalizou, pensou, criou e um dia voltou. Disse adeus ao crachá, bem antes do que eu. Com amigos, montou uma editora, a Mol, que se especializou em fazer projetos customizados. Só que uma pegada diferente, com foco e pé na economia sustentável e solidária. Em 2008, eles lançaram a revista Sorria, patrocinada pela Droga Raia e por seus clientes, que ao comprar um exemplar faziam uma doação para o Craac (grupo de apoio ao adolescente e criança com câncer).

Por que decidi contar tudo isso? Porque hoje fui na Drogasil comprar um remédio para uma hóspede e encontrei a edição de agosto da revista Todos, a segunda revista customizada da Mol, criada pela Roberta. O tema da edição é “Eu venci” e bem lá na página 18 tem uma foto linda minha, segurando duas flores com o título: “Entendi que o fracasso pode ser uma oportunidade de aprendizado”. A matéria carinhosa fala da minha experiência recente no contexto de uma pauta muito atual e oportuna: a reinvenção. Histórias de cinco pessoas que depois de um tombo, de um susto, uma fatalidade conseguiram florescer.

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Só podia ser obra de uma moça como a Roberta, agora mãe de outra linda bebê chamada Serena, que até hoje passa delineador nos olhos como ninguém.

Meus amigos são a minha cauda longa

 

Hoje recebi um zilhão de mensagens carinhosas de pessoas queridas comemorando o dia do amigo. Sou chata e odeio essas datas. A que eu mais detesto é o dia da Mulher, que me lembra que eu sou igual ao Mico Leão Dourado em termos de fraqueza e fragilidade políticas, apesar de pertencer ao gênero mais populoso do mundo. Hoje passei o dia pensando sobre o significado de “cauda longa”, o tal do mercado diversificado e de nichos, e de como só pensei em ter uma quando a necessidade falou mais alto. Agora, a poucos minutos de amanhã, tive uma luz. Melhor, vi uma luz. Os amigos foram e são a minha cauda longa, sempre. Vou explicar.

Vamos aos fatos. A pousada A Capela, meu dileto plano A, inaugurou há dois anos e meio com 100% de ocupação graças à reserva de amigos, que serviram de apoio e esteio e foram legítimas cobaias. João, Georgia, Vanessa, Juju, Patrícia e Cida sobreviveram a nossa inexperiência e nos ajudaram a melhorar muito. Eram queridos. Eram nichados. Depois deles, vieram mil outros. São carinhosos, verdadeiros e inspiradores. Perdoam nossas falhas. Colaboram com críticas e ajudam ao compartilhar a experiência da nossa hospedagem. Estão por perto sempre no inverno, primavera, verão e outono. Sem eles não haveria nem plano A, B ou C.

Falo disso no meu livro A Vida Sem Crachá, editado pelos também amicíssimos Carol e Kaíke, a ser lançado no dia 25 de agosto na livraria do Shopping Iguatemi de São Paulo, e que dependerá dos amigos para entrar na lista dos mais vendidos. Preciso de todos para superar o medo e o trauma de ficar lá sozinha.

Hoje, no dia do amigo, fechei o meu primeiro trabalho de consultoria em gestão de pousadas. A cliente é uma amiga de mais de 30 anos, Lina, que está acreditando nessa minha nova competência. Sem ela, a cauda longa da minha vida sem crachá seguiria um cotoco. A mesma motivação vem do amigo Nélio, outro companheiro de longa data, que está batalhando por uma palestra em BH para esticar os tentáculos dessa que vos escreve. Consultora e palestrante são a minha cauda particular.

O rabo comprido e vistoso também é um desejo da pousada. Graças a sugestão da minha amiga e sócia Nil, começamos hoje a fazer serviço de transfer do aeroporto para a pousada. E da pousada para o aeroporto. Em breve, teremos um cardápio que incluirá passeio de barco, aluguel de carro e buggy e serviço de massagem e manicure para os hóspedes. Mais moedas no caixa. Mais atenção e dedicação aos clientes.

Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito. Com a ajuda dos meus amigos fotógrafos, Camila, Nellie, André, Fábio e Sérgio, vou reaprender a fotografar no modo digital a partir deste segundo semestre. O foco é, novamente, a cauda longa. Desejo fotografar para os casamentos da pousada a partir de 2016. Um desafio e tanto. Um aprendizado do tamanho do mundo para quem começou a clicar com negativo e cromo e fez um milhar de passageiros. O que é fazer passageiro? Quem tem mais de 45 sabe.

A dois minutos do final do dia do amigo, concluo essa pensata com um verso do Mário Quintana mais popular que chuchu na serra das redes sociais e mais verdadeiro do que a certeza de que me chamo Claudia:

“amizade é amor que nunca morre”.

Já perdi amigos por causa da distância e de mal-entendidos, mas continuo amando-os como ontem. Meus amigos são a cauda que abana de felicidade e prosperidade a minha vida. Obrigada, amigos.

A minha primeira paixão

Hoje meu dia foi, verdadeiramente, descrachado. Acordei cedíssimo e cumpri todas as minhas obrigações. Tirei o atraso. Adiantei o serviço. Respondi e-mails, vendi diárias e resolvi pendências. Em quatro horas de expediente matutino, havia ganho meu dia. Sem lenço, sem documento, no sol de quase agosto, fui passear. De barco, na baía de Todos os Santos. Aprendi a desfrutar consciente e sem culpa.

Na frente do Forte São Marcelo, que fica defronte ao Elevador Lacerda, tem um posto de gasolina naval. Enquanto o frentista enchia o tanque da embarcação, a visão dos arcos transformados em residência, cada um, uma casa, cada casa de uma cor, me fizeram viajar no tempo.

Me afundei em minha memória. 16 de julho de 1982. Eu tinha 16 anos. Perdi uma viagem para Machu Pichu e ganhei, de consolação, uma excursão rodoviária de doze dias, Soletur, pelas cidades históricas mineiras e pelo litoral brasileiro, de Vitória a Salvador. De Salvador ao Rio de Janeiro. Viajei sozinha. Meus amigos estavam no lago Titicaca tomando chá de coca.

Não foi ruim viajar só. Dividi o quarto com uma bancária carioca. Esqueci o nome dela, mas não sua feição. Era ruiva, usava óculos e manequim 44. Baixa, gordinha e simpática. Não tinha namorado, mas não havia perdido as esperanças. Pediu a Santo Antônio em todas as igrejas nas quais o santo se fez presente.

Por coincidência, eu estava ao lado dela, quando o ferry boat vindo da Ilha de Itaparica foi se aproximando da costa de Salvador. Era final de tarde. A luz era doce. A balsa navegava lentamente e a visão tornava-se mais nítida a cada milha naútica. Enfim, vi e entendi o que era a tal Cidade Baixa e Cidade Alta que eu lia nos livros de Jorge. Do mar, ela era ainda mais bonita e misteriosa do que eu imaginara.

Antes de seguir, preciso falar sobre o título. Botei primeira paixão porque título tem que ser direto e vendedor. Na verdade, não consigo hierarquizar esse sentimento. Não sei se a primeira paixão da minha vida adulta foi Salvador ou Jorge Amado. Talvez Salvador seja a segunda e colateral. Antes de visitar a cidade, eu a conheci e a percorri lendo Amado. Imaginava as ruas, vielas, ladeiras, igrejas, bares, praias, bibocas, favelas, cortiços, casarões, sacristias, Campos Santos, altares, avenidas e praças. Sentia os sons, odores e sabores e, criança, imaginava que poderia cruzar com meus personagens favoritos caminhando pelas ruas.

Daquela vez, não conheci ninguém mas me perdi para sempre. A cidade me arrebatou. Cedi aos seus encantos óbvios e também aos mais sutis e invisíveis. Tive medo e tentei fugir. Não teve jeito. Um ano depois daquela primeira visão, lá estava eu de volta. Dessa vez para conhecer pessoas que marcaram minha vida. No ano seguinte, de novo. Em cada retorno, mais paixão, mais tesão, mais encontro.

No final dos anos de 1990, depois de visitar Jorge Amado, já doente, fazer um perfil com Tieta/Sonia Braga nas ruas da cidade e compartilhar à mesa e o morro da Paciência com o ídolo Caetano Veloso, o destino me levou para longe. Fiquei 10 anos sem voltar. Sem estabelecer contato. Sem sentir desejo. A Bahia ficou guardada na minha caixinha de pandora do bem. Bem trancada. Bem escondida.

Olhando os arcos de casas, uma do lado da outra, uma de cada cor, pensei sobre a vida e o destino. Será que maktub estava escrito? Será que era mesmo inexorável eu me encontrar hoje, 35 anos depois, na mesma baía, fascinada pelos mesmos arcos? Será que teria sido diferente se eu tivesse me mudado para Berlim?

Na falta de uma resposta, lembrei da canção Cajuína de Caetano, que coincidência, apareceu em um site, pouco antes de eu começar a escrever, de cuecas ao lado da Carla Perez e do Xandy*.

Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina

 

Depois da música e antes do ponto final, aproveito para dizer que sou fã do Xandy e que sempre fui tratada com muito carinho pelo casal.

 

 

Ouvi errado o nome dela, mas a história é verdadeira

Sou fascinada pela Aldeia Hippie de Arembepe. Pouco vou lá. Talvez por isso meu fascínio. Tenho um projeto – daqueles que a gente tem para um dia fazer – de criar um museu à céu aberto para contar a história da aldeia. Para quem não sabe, trata-se de uma das mais importantes comunidades de malucos de estrada – o nome contemporâneo para hippie – do mundo. Desde que Janis Joplin baixou por lá e mostrou como se canta Summertime para seus amigos baianos, o lugar virou uma espécie de Santiago de Compostela para os adeptos do modelo de gestão Flower Power. Para ser hippie de verdade, é obrigatório passar por lá, ao menos, uma vez na vida.

foto G1/Janir Junior
foto G1/Janir Junior

No verão, chega um monte de gente. Muitos gringos vindos da Europa e da América do Sul, com destaque para argentinos sempre muy amigos. Na baixa temporada, o lugar fica calmo, quase pequeno burguês, graças à população fixa, que tem filho matriculado na escola, conta fiado no mercado e ponto fixo na porta do restaurante Mar Aberto, um dos melhores do litoral Norte da Bahia, para vender artesanato.

Já tive uma funcionária, Desirée, que tentou escapar do bantu da aldeia. Separou do amor da vida dela, aceitou a palavra fiel do Jesus Cristo Evangélico e trocou a bata de batik pelo uniforme de ajudante de cozinheira. Durou pouco. O suficiente para ganhar um salário, um fogão de quatro bocas – porque ninguém é de ferro, mesmo quando a proposta é viver o amor em uma cabana – e um bocado de roupas para os meninos. 40 dias depois do primeiro bom dia, Desirée partiu, sumiu, escafedeu. Traiu Cristo, o pastor, a palavra e voltou para a lida de vender a pulseira de couro ao meio dia para comprar no final da tarde a janta.

Sempre que vou para aquelas bandas, levar algum hóspede no projeto Tamar, vizinho à Aldeia, estico o olho. Tento enxergar razões, motivos, inspirações para aquele estilo de vida e de estética. Mais do que viver sem trabalho fixo, enfim, sem crachá, os hippies cultivam à liberdade e se lixam para a segurança financeira. O que vale é o agora. O hoje. Não estão nem ai se faltará comida, bebida ou fumo amanhã. Também têm hábitos e estética muito particulares. Ainda hoje, têm aflição à barbeiro e cultivam o cabelo comprido de modo radical. Na cabeça, no rosto, no sovaco, no púbis, nos braços e nas pernas. Pelos rebeldes, pelos selvagens (pelo ainda tem acento?). Cabelo, cabeleira, cabeluda. Sem xampu ou sem água doce, as madeixas volumosas e rebeldes dão uma impressão permanente de uma falta de limpeza. Em compensação, na maioria absoluta das vezes, cruzo o meu olhar com o deles e vejo doçura, paz e tranquilidade. Como a fala, arrastada, tranquila e leseirenta. Como o espírito, conformado, compreensivo e apaziguado.

Chovia domingo. Eu fazia minha segunda viagem ao projeto Tamar, desta vez para pagar uma dívida de seis reais. O porteiro nos deixou entrar no fiado. Prometi retornar logo e pagar. Cumpri. Estava no caminho de volta quando vi a menina. Alta, magra, tez morena, cabelos pretos. Bonita como todos os adolescentes conseguem ser. Alma e corpo frescos. Olhos vivos. Pele brilhante e rija. Só os cabelos, maltratados, roubavam um pouco da espetacular beleza daquela menina. Cheguei junto com o carro e ofereci carona. Queria tirá-la da chuva. Queria ouvir a história dela. Sim, confesso a minha péssima intenção.

Ela aceitou a carona, mas entrou muda no carro. Percebi que era nova, mais nova que seu 1m72 de puberdade.

“Você está indo para o mercado?”, perguntei.

Ela fez que sim com a cabeça, tímida. Parecia intuir que seria metralhada de perguntas. Tateei. “Qual é o seu nome?”

Com voz fraca, ela respondeu: “Ananaiara”. Ao menos é isso que a minha memória entupida de vinho e lixo digital conseguiu guardar.

“O que significa?”, perguntei. “Duas flores”.

Percebi que a entrevista seria difícil. Ela era lacônica. Ressabiada. Aceitara a carona porque vira confiança na “sueca cinquentona two reais”, mas não pretendia entregar sua história em troca de mil metros de transporte.

“Você mora na Aldeia Hippie?”. Ela fez que sim com a cabeça.
“Nasceu aqui?”. De novo, agora com movimentos laterais, ela fez que não. “Nasci na Chapada Diamantina”, respondeu trinta segundos depois.

“Veio de lá para cá?”, provoquei. De novo, silêncio. “Não. Chequei aqui com quatro anos. Antes passei por nove países”.

Me animei. A menina tinha história.

“Quais países você conhece?” “Não sei. Não lembro. Acho que Colômbia, Argentina…”

“Você foi para a Europa? Estados Unidos? Ou só viajou para a América do Sul?”

Silêncio. Estátua. Ela não respondeu nada, nem fez qualquer movimento. De verdade, não sabia. Nada.

Truquei. “Você é hippie?”

“Eu não. Meus pais são.”

“Você não quer ser hippie?”

“Não”.

“Por que?”

“Porque não gosto. Preferia viver de outro jeito”.

“Você estuda?”

“Sim”.

“Tem televisão em casa?”

“Sim”.

“Então?”…

Quando soltei o então percebi o quanto idiota e velha eu era. Ter televisão em casa é pergunta do IBGE do século XIX. Que adolescente de 12 anos, a idade de Anananaiara e a mesma do meu filho, está preocupado com televisão? Eles querem Face, Insta, tablete, zapzap. Eles produzem o conteúdo que consomem. Eles criam novas linguagens. Inventam programas, aplicativos e efeitos especiais. Fazem música. Produzem seu programas no Youtube e arregimentam milhões de fãs. Não estão nem aí para as tramas da 5, 6, 7, 8, 9 e 11 da noite do Plimplim. Quanto muito, acompanham uma temporada de Masterchef ou devoram uma temporada de Gracie and Frankie no Netflix em ritmo de Triátlon. De que adiantava para Anananaiarara ter uma TV se ela não tinha um celular?

“O que seus pais fazem? Eles ainda vivem juntos?”, perguntei testando a longevidade do amor hippie.

“Sim estão. Faz 20 anos. Meu irmão mais velho tem 18. Eles fazem e vendem artesanato”.

Não, na casa dela não tem wi-fi nem computador. Ela conhece e usa, mas apenas na escola. Quando crescer, quer ser médica, dentista ou professora. Hippie não, não mesmo. Não gosta.

Lembrei das minhas batas de linho branco com pespontos em linha colorida, que adorava usar nos meus quinze anos. Combinavam com shorts curtos de jeans e belíssimas sandálias de couro curtido, fedidas como quê, que comprava no Mercado Modelo ou na Ladeira da Barroquinha sempre que vinha para Salvador da Bahia. Era comprar e perder. Voltava para São Paulo feliz, pendurava no armário e descia a Serra para terminar as férias no Guarujá, habitat da minha geração dourada. Era o tempo que minha mãe precisava para dar cabo do meu figurino BG (bicho grilo, o sinônimo de hippie da época).

Por que aquilo que os pais gostam os filhos odeiam? Por que aquilo que os filhos odeiam os pais adoram? Por que aquilo que os filhos amam os pais detestam?

Porque assim é a vida. Talvez. Porque, dizem os psicólogos, é preciso realizar o processo de individuação e se desconectar, por meio da rejeição, do ódio, dos opostos, da nave-mãe. Será?

Chegamos ao mercado Fonseca. Parei o carro na porta. “Muito prazer Anananananaiara. Você é filha da Desirée?, perguntei tentando puxar o último fio de conversa. “Não, minha mãe se chama Rosana”, ela respondeu, abrindo a porta do carro.

“Obrigada”. “De nada”.

Entramos juntas no mercado, mas logo a perdi de vista. Tinha que comprar folhas para a salada e limão para a caipirinha. Hora de ter pressa. Pensei dar à menina de nome de duas flores um xampu Pantene de presente. Cheguei a pegar aquele que a Gisele Bundchen anuncia. No caixa, não a encontrei. Deixei para trás, tentando lembrar como era mesmo o nome dela.

A poesia acaba aqui. Para editar o post, comecei a pesquisar na rede imagens. Procuro o óbvio. Aldeia Hippie de Arembepe. Encontro uma reportagem bem apurada do G1. Janir Júnir, texto e foto, fotografou minha menina e toda sua família. O pai Leandro, uruguaio, o irmão mais novo, Queñoa, e seu Jegue, Moleque, e Anahinayá. Sim, ele ouviu direito. Anahinayá, que como eu disse, quer dizer nome de duas flores. Na foto, ela tinha dez anos. Agora tem doze. Continua linda. A casa da família agora tem televisão. Não tinha.

No meio do caminho tinha um mar de orquídeas e uma lição sobre empreendedorismo

Estrada sem pedágio em mês de inverno é igual a queijo suíço: uma apoteose de buracos. Tentava escapar de muitos quando vi a placa, pequena, no canto da estrada. Meu descrachamento autorizou minha cena de cinema. Podia atrasar. Podia chegar mais tarde. Pisca alerta ligado, virei à esquerda e cruzei a pista, quase cantando os pneus.

Tomei a estrada de terra, com buracos mais macios e segui a direção indicada. Sacolejos, poças d’água, terra, lama e uma segunda placa avisando que em um quilômetro eu chegarei. Verdade, cheguei conforme o prometido. Cruzei o portão e um senhor de chapéu de palha com um sorriso 1001 – um dente em cada canto da boca – me recebeu.

– Moço, aqui é o orquidário Bahia?

Ele, simpático, exibiu outra vez o sorriso cinematográfico frente à minha pergunta estúpida. Bastava olhar em frente para ver um mar de orquídeas, de todos os tamanhos e cores, guardado debaixo da tenda de tela preta furadinha.

Metros à frente, encontrei outro mar, feito de perfumes, texturas, formas, cores, frescor. A guardiã dele me recebeu na porta sorrindo também. Dona Dina tem 60 anos e alguma coisa e há doze vive de cuidar de orquídeas. Sua rotina é simples e generosa. Acorda cedo para começar a tratar das meninas. Sem repertório científico, sem conhecer nomes difíceis em “botanicanês”, ela domina todos os tipos, espécies e famílias. Conhece seus cheiros, hábitos e desejos. Sabe quando vão florescer. Quando precisam ser podadas ou replantadas. Aprendeu a reconhecer o momento de tirar mudas e parir novos arranjos a partir de vasos cheios de bulbos.

– “Faço meu trabalho com muito amor”, diz dona Dina, que adora receber visitas no sítio perdido numa quebrada da via Cascalheira, que liga a estrada do Coco, litoral norte da Bahia, até a cidade de Camaçari.

Peço ajuda dela para escolher dois vasos para dar de presente a uma pessoa muito querida. Ela se anima e saltita entre as bancadas para me mostrar os melhores.

– Você precisa ver essa. Tem cheiro de chocolate!!!!

Desdenho um pouco da informação, mas caminho para conferir. Verdade de novo. A planta cheirava a cacau, melhor, a café com cheiro de chocolate. Apesar de não achá-la das mais belas, decidi comprá-la, junto com uma branca com manchas rosas, que estava repleta de brotos prestes a florir.

Na hora de partir, percebi o quanto dona Dina falara a verdade sobre trabalhar com o coração. Com o dinheiro em mãos e uma gorjeta de 10 reais porque não tinha troco, ela olhou triste para as suas flores que partiam. Despediu-se de mim e delas como uma mãe que dá adeus a um filho que parte para longe, para nunca mais ver.

– “Volte outras vezes”, ela pediu, sabendo que se eu retornasse, não traria as meninas dela, que ela nunca mais veria. Prometi revisitá-la. “Faço muitos casamentos na minha pousada e sempre precisamos de orquídeas”, falei, tentando reanimá-la com a hipótese de uma boa venda.

No curso de empreendedorismo que fiz, aprendi que paixão, amor e empreendedorismo se confundem apenas até a página três. Gostar do que se faz é bom, mas não é fundamental. O importante é o negócio, a venda, o projeto, a marca, o legado e, claro, o lucro. Empreendedor que se preze não se abate nem com o fim do negócio, porque entende que quem vai à falência não é ele, empreendedor, mas a empresa que ele montou. Empreendedor do primeiro escalão, se apaixona pela transação, pelo planejamento da ideia que vira negócio, pela ideia genial que se converte em milhões.

Definitivamente, dona Dina, gestora de seu mar de orquídeas perfumadas, não pertence ao Olimpo do empreendedorismo. Mas trabalha com muito amor.