Um despacho na minha porta

– Corre, corre, aqui, dona Cristina

João, um negro forte, tipo armário, de quase dois metros de altura estava branco, balbuciando meu nome. Cheguei perto. Antes que eu perguntasse “o que foi João, viu uma assombração?”, ele apontou para a porta. Quem falou foi Benedita, esbaforida e de língua sempre solta. “Tem um despacho, tem um despacho atrás da porta. E é novo, fresquinho”.

Era. Uma hora antes, eu havia aberto o portão e não tinha nada lá. Já era noite. Meia hora antes da descoberta, os cachorros fizeram uma sinfonia dodecafônica. Achei que os latidos eram para os cavalos. Errado. Eram para o portador do despacho. Sim, isso mesmo. Os despachos, muitas vezes, são despachados, acredite, por motoboy. Não é o mentor do descaminho que o coloca no devido lugar. O malfeitor manda fazer, tipo delivery, igualzinho a serviço de entrega de flores. A flor do dia de Olorum. A diferença é que o mandante do ebó não assina cartão com palavras bonitas nem votos de felicidade. Manda incógnito e deixa a dúvida: “quem será que me deseja o mal?”

Quando vi o prato pronto, todo arrumadinho para Exú, lembrei do meu amigo Marcelo Melo. Não, não imaginei que fosse dele o “presente”. Preciso explicar direito. Marcelo é editor, dono da editora Livros de Safra e publicou a espetacular trilogia chamada Deuses de Dois Mundos, do publicitário PJ Pereira. A primeira e última cenas do terceiro livro começam com um despacho. É eletrizante. A narrativa espetacular não explica, no entanto, o que fazer para quebrar o encanto de uma macumba como aquela na minha porta.

Quer saber se eu acredito em despacho? Não, mas respeito. E se respeito, de alguma forma acredito. Tanto que agi por instinto, intuição e fé. Não liguei para ninguém para perguntar o que fazer. Também não pesquisei no Google para descobrir se havia algum tutorial no Youtube sobre “como despachar um despacho”. Tem, descobri depois. Não tive paciência de ver, mas se você precisar, segue a dica. Outra boa, é rezar para São Cipriano, o mais poderoso de todos os santos nos mister de quebrar feitiços.

Deixei João e Benedita para trás. Comecei a rezar. Alto. Pai Nosso que está no céu, que emendava com Ave Maria Cheia de Graça. Randômico. Intermitente. Toquei o botão para abrir a porta. Sai para a rua. Era um despacho pequeno. Prato de barro (agdá) do tamanho de um prato de jantar. No centro, uma ave com suas penas. Não investiguei qual. Nas beiradas, farinha e arroz. Estava ladeado por quatro garrafas meio cheias de bebida. Duas de cerveja, duas de vinho espumante, da pior qualidade. No entorno do despacho tinha um pó branco, que imaginei ser farinha de tapioca ou talco, se Yemanjá estivesse envolvida na história. Uma vela de sete dias virgem foi posicionada na extremidade superior, formando o desenho de um pentágono ou de uma casinha ou de uma capelinha sem a cruz.

Com o mantra do Pai Nosso e da Ave Maria, começo a desmanchar o despacho. Quem será que fez? Por que? Para quem? Será para mim? O que será que eu fiz de mal além de existir?

Hoje uma pessoa ligou perguntando como se chegava aqui. Será que era o entregador delivery? Não sei as respostas, mas sei que os gregos e os hebreus quebravam vidros e pratos para espantar os maus olhados. Começo pelas garrafas. Esvazio-as no mato. Não choveu hoje e serve para molhar o campo. Agora, preciso quebrar. Bato com a primeira garrafa forte no poste. Um, duas, três vezes. Não quebra. Se estivesse inaugurando um navio, pagaria o maior mico. Procuro uma quina. Acerto. Espatifa. Repito com a segunda, terceira e quarta. Deu certo.

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Lembro novamente do livro do JP Pereira. Exu, o mensageiro, na trama e na vida cumprem a missão dos jornalistas. Dão notícias. Às vezes, boas. Às vezes, ruins. Respeito Exu. Somos irmãos de profissão. Sei que ele é faminto. Eu também sou. Pego o agdá e viro toda a comida no mato. Lamento tirar o alimento do orixá, mas algum bicho poderá comê-la. Se não, servirá de adubo. Compostagem. Com o prato limpo, quase sem vestígio da macumba, quebro-o em mil pedaços. Aprendi com Zorba, o Grego. Não canto a canção do filme. Sigo rezando. Ave-maria-cheia-de-graça-o-senhor-é-convosco-bendita-sois-vos-entre-as-mulheres…

Volto para o lugar do despacho. Só sobrou a vela. Me abaixo e pego. Não acredito no que vejo. É uma vela de sete dias de Irmã Dulce, minha santa protetora, minha madrinha baiana. Sorrio, feliz. Um despacho com irmã Dulce só pode terminar bem. Ela, como eu, era sincrética e respeitava todas as religiões. Tinha por sua vez o respeito das mães e pais de santo da Bahia. Ainda rezando, só que agora com meu pensamento em Dulce, que dizem, em breve, será canonizada, levei a vela para casa. Coloquei a num pires e a acendi. Vai queimar por sete dias. Vai me proteger por uma semana. Vou agradecer por todo o bem todas as noites.

Agora só falta fazer uma lavagem. Com água e cheiro, do jeito que aprendi com as baianas do Bonfim. Toda a segunda quinta-feira do ano, participo da festa. Formamos um grupo. Uma dúzia de amigos. A concentração acontece na casa de Mari e Bel na Vitória e, de lá, seguimos à pé até a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. De lá, vamos em romaria até às colinas sagradas. É uma festa religiosa. É uma festa pagã. Tem música, alegria, festa, riso, cerveja, política, promessa e oração. Cabe tudo. Por isso, é boa. Rezando, como quando amarro minha fita anual nas grades da igreja, terminei de lavar a calçada. Ficou limpa e cheirosa. Fiz meu serviço com carinho. Obrigada Nosso Senhor do Bonfim pela proteção. Oxalá, nos proteja.

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Quando acabei, João e Benedita estavam mais calmos. Primeiro, sentiram alívio por não terem tido a responsabilidade de despachar o despacho. Eles são evangélicos. Segundo, sentiram firmeza no meu despacho. Benedita foi categoria: “o feitiço foi quebrado. Seja o que for, para quem for, não vale mais. Morreu. Perdeu-se. Vamos dormir”.

Obedeci, Benedita. Fui para o quarto. Quando entrei e fiquei só, percebi que ainda estava rezando. “Não nos deixeis cair em tentação, mais livrai-nos do mal, amém”. A vela de Dulce, firme e forte, iluminava o banheiro. Defronte ao espelho, lembrei daquela canção linda que Ivete Sangalo e Maria Bethânia cantam em um disco chamado Lá em casa. Bem baixinho, cantei-a para mim:

 

Odô, axé odô, axé odô, axé odô

Odô, axé odô, axé odô, axé odô

Isso é pra te levar no ilê

Pra te lembrar do badauê

Pra te lembrar de lá

Isso é pra te levar no meu terreiro

Pra te levar no candomblé

Pra te levar no altar

Isso é pra te levar na fé

Deus é brasileiro

Muito obrigado axé

 Ilumina o mirin orumilá

Na estrada que vem a cota

É um malê é um maleme

Quem tem santo é quem entende

Quanto mais pra quem tem ogum

Missão e paz

Quanto mais pra quem tem ideais e

Os orixás

 Joga as armas prá lá

Joga, joga as armas pra lá

Joga as armas pra lá

Faz a festa