Epifania de domingo: pequenos prazeres

Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális

Todo mundo tem o seu retrato de Dorian Gray. O meu é esse acima. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Havia passado para o segundo ano da faculdade de Jornalismo. Me sentia livre, jovem, poderosa, inteligente e capaz. Estava muito apaixonada. Tinha certeza que cumpriria meus milhares de planos. Tinha a vaidade de achar que era dona da verdade e que poderia mudar o mundo sem precisar mudar de ideia. Tinha tantas vontades quanto as que cabiam dentro do meu peito.

No dia da foto, naquele distante janeiro de 1984, na ainda quase deserta praia de Canoa Quebrada, no litoral sul do Ceará, enxerguei, sem querer o futuro. Desisti de fazer uma tatuagem de lua e estrela no ombro direito, porque me vi ontem nua na frente do espelho, e pensei:

– Essa tatuagem não ficará bonita no corpo de uma mulher de 50 anos. E vou sentir uma dor, uma saudade, uma tristeza desse tempo que foi tão lindo, tão solar, tão sensacional. Vou cancelar o serviço.

Como disse nove linhas acima, eu era metida e pretensiosa. Burra. Vaidosa. E equivocada. Não tenho a tatuagem e lembro disso tudo como se a tivesse. Se a tivesse, seguramente, teria orgulho e carinho por ela em meu ombro ainda rijo ma non tropo. Sempre que a enxergasse, teria um arrepio de prazer na espinha. Perdi. Paciência.

O bom da vida é que sim, a gente dança. Baila e muda o tempo inteiro. No meu caso, além de mudar, acabo por engolir com farinha e gargalhadas tudo o que um dia disse “nunca, jamais faria”. Fiz tudo e mais um pouco do que já neguei e condenei na vida. Casei. Tive filho. Separei. Engordei. Emagreci. Cedi. Descasquei. Perdi. Apaixonei. Troquei. Principalmente falhei. E fundamentalmente, mudei. Mudei muito.

Sem arrependimentos, fi-lo porque qui-lo. Porque assim entendi ser melhor. Ontem aconteceu de novo. Depois de um feriado inesquecível, quando recebi meus hóspedes com carinho, estive reunida com meu filho e meus amigos mais queridos, quando tive o prazer de ser fotografada por um mestre e quando tive a honra de celebrar o amor de dois amados amidos, tive uma epifania na frente do espelho do meu banheiro.

Tirei a roupa para tomar banho e me vi nua. Despida das roupas e das ideias e preconceitos que carreguei por tantos anos. Reparei nos seios mais cheios e caídos do que no tempo do retrato e achei que eram lindos. Encarei minha barriga nada negativa e achei-a verdadeira e legítima. Representa os últimos anos de prazer. De festa com os amigos. De farra com a vida.

Não pretendo cultivá-la porque quero manter o meu guarda-roupa G, número 44. Mas definitivamente  não perseguirei mais o figurino 40 que me coube por tantos anos. Ele ficou para trás, como uma boa lembrança. Como a foto do topo desse texto. Como a força de vontade que me abandonou no café da manhã quando disse sim para um bolinho de estudante.

Ainda na frente do espelho ontem, lembrei de uma palavra que adoro e me inspirava a fazer dieta e exercício no ritmo 24×7. Sílfide. Sílfide para quem? Bonitinha e perfeitinha por quê? Um sorriso maroto apareceu no canto dos meus lábios, ligeiramente enrugadinhos. Pensei despudorada:

– “Ficou velhinha e espertinha. Abandonou o estoicismo e aderiu ao hedonismo. Boa escolha.”

Verdade, verdadeira. Ainda sou fibrosa, mas faz tempo que larguei mão de ser pétrea, incansável e inquebrantável. Estou ficando maneira, maleável e malemolente,  como as curvas da minha cintura, os excessos na minha coxa e a flacidez dos meus braços que agora só dão adeus no formato conchinha, tipo rainha da Inglaterra.

Entrei no chuveiro quente pensando nisso tudo e na felicidade que sentia. A pele bronzeada se arrepiou de prazer. Dane-se se ficou um pouco mais enrugadinha. De verdade, faz tão pouca diferença em comparação com a memória de um instante, assim, de prazer. O domingo, então, acabou assim em festa, com a súbita experiência da compreensão de algo assim tão essencial.

 

Dia de festa e de amor no mar

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Oxum era rainha e na mão direita tinha o espelho onde vivia a se mirar.

Quanto nome tem a rainha do mar? Dandalunda, Janaína, Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá.

O dia amanheceu cinza, garoento. Pensei com os botões: Ela deve estar mal-humorada, brava. Brigou com alguém ontem. Desci a ladeira de carona, acreditando que ia dar para seguir caminhando. Não deu. Começou a chover a cântaros. No taxi, pedi:

Moço, por favor, me leva para o Rio Vermelho.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Pela janela molhada fui olhando o mar cinza e pensando no meu pedido. Estava precisada. Dessa vez não poderia apenas agradecer. Lembrei da epifania de 14 de janeiro e tive esperança. Era a primeira vez que eu ia. Era a primeira vez que pedia. Tinha crédito. Tinha fé. E o pedido era singelo. Não queria dinheiro, poder, nem emprego. Queria de volta aquilo que havia perdido. Que Ela havia tomado de mim em um momento de distração.

Quando desci do carro a chuva apertou. Precisava urgente de uma capa ou de um guarda-chuva. Dobrei a esquina e numa biboca encontrei os dois. Comprei. 12 reais a sombrinha. Dez a capa. Andei 100 metros. A chuva, claro, parou. É sempre assim, o tempo e suas provações. Ficaria com a capa e a sombrinha pesando no corpo o dia todo. Paciência. Melhor sem chuva.

Perfume, flor, espelho e pente. Toda sorte de presente para ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?

Comecei a caminhar. No passeio, ambulantes ofereciam flores, água de cheiro, pentes. Recusei. Não sou militante, mas acho uma barbaridade sujar o mar com tranqueiras. Não ofereceria nenhum mimo, nenhum presente. Seria um papo reto. De mulher para mulher. Queria o que era meu de volta. Simples assim. Não tinha feito nada de errado. Por que a privação?

Na virada da curva do morro da Paciência quis descer para a areia. Ouvi um “não, não quero sujar os pés. Nos encontramos na escada da casa de Yemanjá”. Fiquei triste pela solidão. Fiquei feliz pela liberdade. Poderia me escarafunchar. Poderia parar, ouvir, falar sem precisar de acordos e negociações. Fui.

Alodê, Odofiaba, MInha-mãe, Mãe-d`água, Odoyá!

Qual é seu dia, Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro, quando na beira da praia eu vou me abençoar.

Mal cheguei à areia, fui atraída para uma tenda. Lá dentro um pai de santo com cara de índio e cabelos compridos fumava um charuto fedido e dançava. Os atabaques tocavam fortes, rápidos, animados. Era bonito e curioso ver. Ele começou a cantar uma ladainha e foi chamando os presentes para entrar na roda. Antes de deixar dançar, abraçava a pessoa primeiro do lado esquerdo, depois do direito. Dava uma baforada e sorria feliz. “Iemanjá merece. Iemanjá merece”, repetia para os filhos e filhas, que se curvavam a ele. Temi que minha hora de dançar chegasse e fui saindo de fininho. Iemanjá ficaria irritada com minha falta de jeito para o baile e não atenderia o meu pedido.

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O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita, se você chorar.

 A praia lotada ficava mais cheia a cada lambida de onda. Para seguir em frente, tive que ir para o mar. Bobeei e ensopei os pés com meia e tênis.

– Pronto, Minha Mãe, já me molhei. Já me melequei. Por favor, me ouve. Me ajuda. Como eu faço para ter de volta o que era meu e por distração perdi?

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia cantar.

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Na roda seguinte, agora sem tenda, um homem vestido de Yemanjá dançava como ela ao som de tambores, zabumba e de uma sanfona. Ele não era delicado, nem tinha trejeitos femininos, mas por ela parecia incorporado. O dono da sanfona, de óculos escuros, tocava compenetrado, ele também em um transe. Na areia, ajoelhado, um fotógrafo gringo metralhava a cena, enfeitiçado pela beleza diferente. Fiquei olhando os três, fascinada com a força Dela, capaz de unir três homens tão diferentes e, cada um a seu modo, seduzi-los.

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Três metros atrás, já dentro do mar, crianças brincavam de molhar o próximo. Riam, riam, riam. Estavam em festa com Oxum. A festa Dela, vale dizer, é uma grande farra. Com exceção de algumas fiéis, de olhar triste e distante e coração apertado, a maioria ali estava para celebrar. A vida, o mar, o amor. Ah, o amor.

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O que ela canta? Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita. Chora quando fica aflita se você chorar.

Quem é que já viu a rainha do mar? Pescador e marinheiro, quem escuta a sereia a cantar. 

É com o povo que é praieiro que dona Iemanjá quer casar.

Amor, não é preciso fazer pesquisa, é o que mais se pede à rainha do mar. Ela é mãe. Ela é generosa. Ela é amorosa. Se ficar comovida com a história de amor, acredite, vai ajudar. Gosta de atender aos pedidos masculinos em primeiro lugar. Das mulheres, com quem disputa a atenção masculina, exige mais afinco e devoção. Afinal, é sereia, dona de exclusivos feitiços.

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Fique viajando em meus pensamentos e demorei a chegar no lugar combinado. A multidão cresceu. Fiquei com um medo danado de me perder. De perder a minha companhia. De perder o meu desejo. De longe, fui escaneando a escada. Procurando, procurando, procurando. Achei. Neste momento, fogos espoucaram em festa. Mais um barco saia com oferendas. Mais um pedido seria entregue. Senti um calor no coração, uma ternura profunda. Sorri meu melhor sorriso. Será que ela já estava realizando o meu pedido?

Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar

 Resolvi encarar a fila enorme para visitar a casinha em homenagem a ela no Rio Vermelho. É um santuário, antigo, feito pelos pescadores dali que são seus primeiros devotos. Na porta um senhor negro monumental, dizia sorrindo, “vamos andando, minha gente. Ela vai atender a todos”. O lugar lindo, decorado com afrescos e mosaicos, fazia jus ao esplendor da rainha do mar. Lá dentro, oferendas em dinheiro e cheiro de lavanda. Estava na casa dela.

  • Então, rainha? Você vai me ajudar? Para cá eu vim por causa do mar e do amor. Aqui quero ficar mas sem mar e sem amor não dá.

Na saída do santuário de 30 metros quadrados, outro homem, também sorridente, me ofereceu um banho de alfazema. Tomei. Agradeci. Ele sorriu, como que dizendo “não tenha medo. Tudo vai dar certo.”

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É difícil explicar o que foi acontecendo. É difícil escrever e descrever. O céu ainda estava cinza, carregado, mas meus olhos começaram a ver azul. Desci na prainha atrás da casa. Lá, encontrei menos gente e mais fé. O mar já havia devolvido muitas das oferendas que Ela dispensou. Um rastro de flores e perfumes ocupou a praia. Um grupo de mulheres barrigudinhas atirava mais flores carregadas de pedidos. Amor, senhora. Amor. Logo ali, um grupo de umbanda destoava. O pai de santo era vaqueiro. De gibão, colete e chapéu, o homem entoava cantigas do interior. Falava de boi, vaqueiro, mato, montanha. Nada a ver com o cenário, nada a ver com a festa, nada ver com ela. Fiquei lá tentando entender, mas fé não tem mesmo explicação. Vez por outra, ele evocava a rainha e gritava: “Odoyá”. Se o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão, estava tudo certo.

Olhei de novo para a murada, procurando. Achei. Fiquei feliz. Sorri, novamente, meu melhor sorriso. Estou aqui. Me espere.

Quando voltei meu olhar para a praia, quatro mulheres vestidas de Yemanjá chegaram. Parei para ver e ouvir. A mais velha puxava a cantoria. As mais novas acompanhavam. Um rapaz vestido de azul fazia a voz masculina nas cantigas em homenagens a Ela. Lindas, simples, pueris. Fiquei lá, enfeitiçada, ouvindo, ouvindo. Depois de vários cânticos, entendi. Era um batismo. Uma moça vestida de branco foi coberta por um manto e abençoada. Todo o grupo abraçou a garota, aquele abraço cruzando os ombros, para recebê-la na irmandade. Meia hora depois do início do ritual, ela fazia parte do grupo. Crianças terminaram por acolhê-la.

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Havia chegado a minha hora de tomar uma benção. Fomos para o outro lado da praia e escolhemos uma mãe de santo com uma bacia imensa de pipoca. Ela bateu com as folhas na minha cabeça, nos meus ombros, jogou pipoca, sementes, colocou um pouco de pó branco no meu peito e nas minhas costas, enquanto sussurava um monte de coisas boas. Saúde, paz, amor e fé. Foquei nestas quatro, que era só o que eu precisa. Era só o que eu pedia. Era só o que eu queria. Lembrei de uma tarde distante, quando conheci Mãe Menininha do Gantois. Éramos oito amigas, jovens, paulistanas, recém-entradas na Universidade. Fomos parar no terreiro por curiosidade e interesse. Manoel, nosso amigo e guia, estava louco de paixão por Fanny e queria seduzi-la. Nos levar lá fazia parte do plano. Acontece que Mãe Menininha gostou de mim ou errou de loira – Fanny era tão sueca como eu. Com a voz fraca pela velhice e doença, ela me chamou. Fui, emocionada. Em meu ouvido, soprou: “você é filha de Oxum, a rainha das águas, e de Oxóssi, o rei das matas, o grande caçador. Cuide bem deles e seja feliz.”

Parece mentira, parece clichê, mas as nuvens andaram e o céu foi ficando azul.

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Subimos para a rua. Outra festa acontecia lá. Nos bares, música. Muita música. Até o pet shop, fechado, virou boate, com os amigos da dona dançando alegres na vitrine. Cena surreal, cena baiana.

Passava das 13 horas, senti fome. Fomos comer o feijão da Marta. Ela virou vegana radical, mas no 2 de fevereiro faz uma feijoada para Ogum. A casa se enche de amigos que entram, saem, comem, bebem, confraternizam e celebram. Me ofereci para servir. Com o privilégio da disposição, ajudei a montar os pratos dos 12 homens presentes, representantes do orixá macho alfa. Não conheço o ritual, mas acho que fiz tudo direitinho. Carnes diferentes, que o santo gosta, misturadas com arroz, feijão, farinha e pimenta.

A cerveja acabou. Fomos buscar mais e o dia estava lindo. O sol doce. A rua cheia. Entregamos a bebida e descemos, novamente, a ladeira. Voltamos para o mangue encantador do Rio Vermelho para ver e ouvir Carlinhos Brown homenagear à Mãe. Fomos acolhidos e abraçados por amigos que trabalham com ele. Cantamos. Dançamos. Sentimos. Porque a música é coisa de Deus.

Onde ela vive? Onde ela mora?

Nas águas, na loca de pedra, num palácio encantando no fundo do mar.

O que ela gosta? O que ela adora?

Meu peito estava aberto. Sentia uma vontade louca de abraçar e beijar as pessoas queridas. Não era álcool na cabeça, não. Era apenas amor. Era felicidade. Ela havia atendido o meu pedido. Havia me devolvido o sentimento. Precisava festejar e agradecer. Subi outra vez a ladeira. Para ver quem tinha chegado, para tomar um refresco e esperar a hora do próximo show. Escadaria acima, lembrei de uma canção que anos atrás eu havia interpretado semioticamente frase por frase. Coisa tola.

Se eu quiser falar com Deus, tenho que me aventurar nos palácios, nos castelos suntuosos do meu sonho.

Lembrei, então, do sonho estranho da véspera. Nunca sonho. Quando sonho e lembro, trata-se de algo estranho. Estranhezas são coisas de Deus. Como a música. Na varanda alpendre da casa de Marta e Nara, debruçada sobre o mar do Rio Vermelho, pisquei para a rainha. Obrigada Yemanjá. De longe, cumprimentei Gilberto Gil. Tive vergonha de chegar mais perto do gênio e contar para aquele homem tão bonito que as canções dele, nos últimos tempos, são a trilha sonora da minha vida.

Acabou a cerveja de novo. Hora de subir mais uma vez para a pracinha da rua Almirante Barroso. Mais amigos, mais encontros. Mais música. Silvia Patrícia, cantora baiana que estourou cantando música pop nos anos 90, faz todos os anos um show lá no alto para ela. Muitos amigos cantam e aplaudem. Quanto prazer, assim no meio da rua.

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A noite chega. Voltamos para perto do mar. Agora tenho certeza que ela atendeu o meu pedido. Tudo está comigo de novo. Recuperei o que perdi e é difícil não gritar para todo mundo ouvir. Na avenida do Rio Vermelho, mais gente e música. Mariella Santiago, com sua voz linda, divide o pequeno palco do bar Lálá com Moreno Veloso. Ele, agora com poucos cabelos, toca um prato branco. Ficamos por ali ouvindo até a vontade de partir ser maior. Vamos em direção à saída. A voz rouca e louca de Marcio Melo estreando o palco Toca Raul, ao lado da Igreja de Santana, nos faz parar.

Uma tonelada de amor. Uma tonelada de amor. Eu não sei viver sem você. E se ainda me quiser

Eu não vou te decepcionar. Imploro me arrasto aos seus pés. E se ainda me quiser. Eu não vou lhe decepcionar

 Se Iemanjá ouve, deve rir do acaso daquela canção. Canto a plenos pulmões. Adoro as canções daquele nobre vagabundo, que hoje se define como um punk solitário. Chego perto do palco e dou de cara com o senhor negro monumental que guardava a casa de Iemanjá de manhã. Agora ele guarda e protege o palco do querido Márcio. Continua rindo com seus raros dentes. Sempre que pode, ele tira uma casca das fãs mais ousadas que sobem no palco para fazer selfies.

Olho para ele com intimidade. Sei que ele não me reconhece, mas não importa. Ele e Ela fazem parte dessa história. Obrigada, senhor. Obrigada, Senhora. Odoyá.

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Nostalgia

 

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Hoje descobri porque gosto de andar de ônibus. Ele, diferentemente do carro, anda rápido e não me deixa na porta. Caminhar é preciso. Da porta de casa ao ponto. Do ponto ao destino.

Hoje o meu destino era o bairro de Higienópolis. Participo de uma mesa no II Congresso de Comunicação Interna e Cultura Organizacional, realizado na FAAP.  Fazia muitos anos que eu não caminhava pelo bairro, que foi minha casa por duas encarnações.

Sai pela porta do coletivo e aterrissei em 1984. Edificio Brasília, Avenida Angélica 2121. Minha primeira casa. Meu primeiro aluguel. Minha estreia na vida adulta. Uma onda de prazer inundou meu corpo. Fui muito feliz vivendo naquele apezinho de 60 metros quadrados, com vista para a Paulista. Tinha juventude. Tinha energia. Tinha um zilhão de projetos e vontades.

Era tudo novo. Era tudo primeira vez. Olhei para a janela e revi o filme do gato Zanzibar, que um dia escapou pela janela e pulou do décimo primeiro andar para a cobertura do décimo terceiro. Na virada da esquina, reparei na marquise que durante anos serviu de lar para um morador de rua que adotei. Até um dia em que acordei e ele havia sido assassinado. Vivi com a culpa por muitos dias e noites. Podia tê-lo abrigado e evitado a tragédia? Na esquina, encontrei a vaga da minha Brasília branca. Foi meu primeiro carro, que andava aos trancos e barrancos, com pneus carecas e tanque vazio. Foi nele que joguei todas as minhas tralhas quando sai de casa para casar.

Fiquei dez anos longe do bairro. Retornei em 2001 com o objetivo de emprenhar e ter um filho. Mudei para um apezão na avenida Higienópolis. O mais antigo do bairro. A sala tinha o tamanho de uma quadra de tênis e, de novo, eu estava prenha de planos, projetos e sonhos. O principal nasceu há 13 anos com o nome de Francisco. Enquanto caminhava pela calçada da praça Buenos Aires, senti uma profunda saudade do carrinho de bebê que eu empurrava ladeira acima e ladeira abaixo. A emoção de passar e parar na frente da vitrine da loja Hortelã não cabe em nenhuma palavra. Lá, diariamente, passeava com meu filho, que era querido e mimado pela dona da loja. É uma loja de brinquedo à moda antiga, com bonecos e carrinhos feitos de madeira, bolas de pano e piões de alumínio brilhante.

Foi um tempo bom que passou. Memorável. Não tenho nostalgia, porque não sinto tristeza nem melancolia profunda por algo que não fiz, perdi ou deixei para trás. A vida correu, a vida viveu gravada na minha memória e no trilho do bonde que cruzava a praça Vilaboim.

A praga do cut and paste

A primeira vez que ouvi a expressão “cut and paste” foi no século passado. 1984. Eu escrevia em uma Olivetti Lettera 82 verde, linda. Estava cursando o segundo ano de jornalismo na PUC-SP e um professor nos apresentou ao universo dos beatniks. Jack Kerouac, William Burroughs, Allen Ginsberg e Gregory Corso. Eu era uma pirralha comunista metida a intelectual. Pentelha e preconceituosa. Achava a cultura pop americana um lixo, porque vivia sob a influência dos existencialistas, marxistas e situacionistas. Meus ídolos eram, pela ordem, Camus, Sartre, Debord e, claro, Carlos Marques. Era, no entanto, cdf. Decidi desafiar o professor e mergulhei fundo no assunto e fiquei expert em beatniks japoneses. Consegui livros. Pesquisei. Escrevi um trabalho de 20 páginas. Tirei nota 10. Como era apenas pirraça, não consigo lembrar o nome do autor nem do professor.

Não existia computador pessoal naquela época. Pesquisávamos em arquivos, enciclopédias e livros. Ser cdf fazia toda a diferença na nossa vida pessoal e profissional. A memória era intransferível. Quem sabia, sabia. Ninguém tinha coragem de copiar ninguém. Os casos de plágio eram raros e execráveis. Quem roubava a propriedade intelectual do outro ia para o exílio. Aconteceu com um jornalista muito famoso à época. Escrevia sobre música, literatura e cultura na Folha Ilustrada. Era idolatrado, até que um dia que descobriram que ele havia traduzido e publicado como sua uma matéria inteira da Rolling Stone americana. Fraude e farsa. Depois deste feito, mudou-se para a Indonésia e hoje, conta a Wikipedia anda pela Rússia. Na era pré-Google, cut and paste era feito com papel, tesoura e cola. Tratava-se de uma técnica literária criada pelos dadaístas e levada à termo pelos beatniks, na qual o autor picava e misturava trechos de modo aleatório para buscar novo sentido. William Burroughs era fera nisso. “Almoço Nu” foi escrito assim. Em 2012, tive o privilégio de ver o original de “Almoço” e de “On the Road” no museu da Literatura em Paris. No rolão interminável de papel, o corte e a cola. Única, original e criativa.

Lembrei de tudo isso hoje por causa de um hábito perverso meu. Às vezes, leio um texto em uma das redes sociais e desconfio. Desconfio porque soa falso. Desconfio porque soa perfeitinho demais. Desconfio porque parece muito familiar. Desconfio também quando a produção do ser humano é caudalosa. Intermitente. Inesgotável. Fico curiosa. Fico com inveja. Fico com a pulga atrás da orelha. Daí, uso uma técnica que aprendi com um professor universitário amigo meu. Copio um parágrafo no meio do texto e jogo no Google. Não pode ser muito longo, senão o buscador reclama. Bastam cinco ou seis frases. É batata. O dito cujo aparece duas vezes. Primeiro na fonte de onde foi copiado. Segundo no texto do ser humano caudaloso, que normalmente é craque em rede social e tagueia superbem os seus escritos. Aí minha inveja passa e eu sinto uma tristeza danada. Preferia me sentir desafiada a escrever mais, melhor, com mais emoção e intensidade. Preferia me sentir inútil, preguiçosa e vagabunda.

A fraude intelectual faz tempo que deixou ser motivo de vergonha ou problema. A miséria do cut and paste, ouço dos amigos professores e redatores, tornou-se normal, comum e banal. A explicação é “tipo assim”: “trabalho muito, ganho mal e por isso posso copiar”. Ou: “trabalho muito, não ganho nada para publicar na rede social e por isso posso copiar”. Ou ainda: “se o texto do outro é bom, se ele disse tudo o que devia ser dito, porque preciso escrever de novo, pensar de novo, ir além?”. Desfaçatez. Descaramento. Rouba-se ideias e palavras sem a menor vergonha. Por que? Para que? A propósito do quê? Dei um find, fiz um cut, outro paste e não achei a resposta. Bom sinal…

 

Nós dois só temos um ao outro – O casal da rua 14, parte 2

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Nesta semana, o jornal New York Post publicou a história do ex-magnata do mercado financeiro, William “Preston” King. Ele é, também, ex-companheiro de farras do investidor Jordan Belfort, o personagem de Leonardo Di Caprio no filme O Lobo de Wall Street. Sem grana, sem amigos, afogado nas drogas e magro como um craqueiro, ele foi fotografado desmaiado sobre duas caixas vazias de pizza em uma calçada do Greenwich Village, em Nova York. Falido e fudido, ele acabou com seu patrimônio milionário em duas décadas de loucura e infortúnio. Segundo a reportagem do jornal, a irmã de King, Kristine, não tinha notícias dele desde janeiro deste ano. O “Lobo” Belfort também foi ouvido. Lamentou muito. “É triste saber que ele está na rua. Tomara que a família o ajude”, disse, lavando as mãos à moda de Pilatos.

As ruas de Nova York estão cheias de gente largada. Sem casa. Sem perspectiva. Sem muito futuro. Ontem, antes de tomar meu ônibus para o aeroporto, voltei à rua 14. Ao compartilhar a história do casal de jovens sem teto, não consegui me libertar. Muito ao contrário. Vários leitores apelaram por notícias. Clamaram por um fecho, por um fim. Um senhor, inclusive, me acusou de gastar, irresponsavelmente, o tempo dele. Ele leu e terminou sem o final. Ficou bravo comigo.

Voltei à rua 14. Fazia sol de novo. Vim descendo pela Sétima para ter certeza de que não erraria a localização. Cheguei na esquina da farmácia Duane Reade. De longe, vi uma pessoa sentada no chão. Não eram eles. Era outro. Sozinho. Antes que houvesse tempo de eu atravessar para perguntar sobre o casal, um carro de polícia com duas jovens profissionais encostou na calçada. Ambas desceram e foram falar com o rapaz. Blitz. Em segundos, ele junto os trapos e partiu. Vazou, correndo.

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Não parecia ser um bom dia, apesar do sol. Decidi tentar e segui pela rua em direção à Terceira avenida, minha casa. Lá estavam eles. Juntos e, novamente, grudados. “Nós só temos um ao outro”. O cartaz continuava lá também, agora em outra posição, ao lado de um copo vermelho para donativos. Encostadas na parede, duas grandes malas sem rodinha, apoiadas pelas outras pequenas bagagens que vi no domingo.

Antes que eu pudesse atravessar a rua, o carro da polícia, aquele, chegou. De novo, as duas policiais desceram e intimaram a partida. Helen estava desembaraçando os cabelos, que nas pontas são tintos de rosa. Frank lia um livro de capa mole. Não consegui ver o nome, nem o autor. Se não fossem as tranqueiras expostas na rua, de longe eles pareciam um casal desfrutando o fim do verão no hemisfério Norte. Acelerei o passo.

A história é triste e banal. Frank nasceu na Alemanha. Veio estudar nos Estados Unidos, se formou, conheceu Helen e se apaixonou. Decidiram morar juntos. Alugaram um apartamento no Brooklyn, bairro vizinho à Manhattan. Helen nasceu no interior, filha de uma família grande. Queria mais dá vida e deu um jeito de estudar e trabalhar em Nova York. Conheceu Frank, se apaixonou e foram morar juntos. Viviam bem com seus respectivos salários. Frank perdeu o emprego primeiro. Depois foi a vez Helen. Tentaram se recolocar. Não conseguiram. Não tinham reservas. Acumularam contas e dívidas. O dinheiro acabou. Deixaram de pagar o aluguel. O dono os colocou na rua. Simples assim. Estão na rua há um mês. Ele está cabeludo, mas não estão sujos. Tomam banho, se cuidam. Disseram não usar drogas. Parecia ser verdade.

– “Vocês não têm família?”, perguntei.

– “A minha mora na Alemanha. A dela não se importa conosco. Só temos um ao outro”, ele repetia.

– Por você vocês vieram parar aqui? O que você pretendem fazer para sair da rua?”, insisti.

Incomodado, Frank respondeu: “Não tínhamos para onde ir. Não sabemos o que fazer. Precisamos ir. A policial ordenou que fôssemos embora”, disse, interrompendo a conversa.

Não era uma entrevista e eu não me apresentei como jornalista. Disse apenas que era brasileira e que os tinha visto no domingo. Que queria ajudar de alguma forma. Perguntei porque ele não pedia ajuda na embaixada da Alemanha. Ele me olhou espantado. “Tenho que ir!”. Ofereci uma nota de 20 para ajudar na féria do dia. Agradeceram e se foram em direção ao sul, carregando as tralhas.

Passei o dia pensando no casal da rua 14. Tentei me colocar no lugar deles. Imaginar o que faria se vivesse uma situação como aquela. Estar literalmente no olho da rua. Não ter onde cair morto, como se diz no interior do Brasil.

A princípio senti muita pena e desolação. À medida em que caminhava, procurando não julgá-los, fui imaginando o que eu poderia fazer para conseguir ganhar algum e recomeçar. Lavar panelas. Varrer o chão. Ser garçonete. Cuidar de criança. Cuidar de velho. Fazer mudança. Passear com cachorro. Ensinar alemão (eu não sei alemão, ele sabe). Ensinar inglês. Ser manicure. Caixa de supermercado. Vendedor ambulante. Carroceiro. Catador. Diarista. Faxineiro. Paneleiro. Entregador. A minha lista imaginária foi crescendo, crescendo…

Parei. Parei quando entendi que infortúnio e poço sempre tem um fim. Voltar à tona é uma decisão pessoal e intransferível. Estou desejando que eles queiram e consigam, sem deixar de ter um ao outro. Se eles entendessem português, colocaria a canção Via Láctea do Renato Russo para tocar. Talvez os ajudasse.

O casal da rua 14

No cartão de papelão pardo está escrito em preto:

– Tudo o que temos é um ao outro.

Não li o cartaz na primeira vez que os vi. Estava do outro lado da rua. Reparei neles porque estavam juntos, grudados, corpo com corpo, como se fosse possível sentar em conchinha na calçada da rua. As malas preta e vermelha encostadas, lado a lado, repetindo o carinho dos corpos.

Do outro lado da rua pareciam bem. Saudáveis. Razoavelmente limpos. Não parei nem cruzei a rua. Segui caminhando em direção ao High Line. Era domingo. Queria ver o movimento. Fotografar. Comer gostosuras no Chelsea Market.

Eles não me saiam da cabeça. Antes de chegar ao mercado, já tinha o título óbvio. O casal da rua 14. Por que eles estavam na rua? Seriam uma versão nova-iorquina de Romeu e Julieta? Teriam fugido de casa? Eram viciados em droga? Teriam sido demitidos na última crise e caíram em depressão? Estavam de malandragem?

Enclausurei as perguntas no canto anterior da alma e subia as escadas do HL. Tinha ficado ainda melhor. Estive lá em 2010 e agora os espaços estavam ainda melhor ocupados pelo público. Era uma passarela orgânica. Colorida. Divertida. Variada. Fiquei por lá dois pares de hora. Me perdi no tempo e comemorei. É tão raro acontecer isso comigo.

Antes do pôr do sol, com fome e os pés cansados, decidi voltar. A memória do casal da rua 14 ocupou de novo a minha mente. Decidi repetir o caminho. Agora do outro lado da rua. Cruzo a sétima com a curiosidade pulsando na garganta. Será que eles ainda estarão lá?

Estavam. No mesmo lugar. Do mesmo jeito. Não arredaram o pé. Não curtiram o domingo. Ficaram ali esperando a bondade alheia. De longe, bem longe, fiz uma foto. Tenho horror a esse tipo de invasão. Pensei: quando chegar perto, pergunto se eles querem falar, se topam ser fotografados. Cacei uns trocados no bolso e fui chegando perto. Foi quando vi o cartaz.

– Tudo o que temos é um ao outro.

Não invejei a situação deles. Nem o estado deles. Confesso, no entanto, ter fantasiado ser coadjuvante de um amor assim. Puro, bruto, intenso, maldito, irracional, inconsequente.

A fantasia acabou quando fiquei na frente deles e me abaixei para colocar um dinheiro no copo vermelho. Eu podia ser mãe de um deles. O que eu teria feito de errado para estarem ali, jogados na rua? Cumprimentei o casal. Ele me olhou. Ela não. Estava aninhada, meio contorcida, meio que chorando. Estaria doente? Estaria arrependida de ter fugido? Estava com vontade de voltar para casa mas não sabia como dizer isso para ele?

Amarelei. Não tive coragem de perguntar o que havia acontecido. Engoli a pergunta do porquê eles estavam ali, vivendo na rua. Não ousei atrapalhar aquela comunhão de desamparo e solidão. Desejei sorte. Ela gemeu. Ele agradeceu. Levantei e fui andando para a rua 17. Antes de partir, preciso voltar lá. Não posso ir sem ter notícias do casal da rua 14.

Como nasce uma estrela

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Na boca do palco, ela conta que aos 14 anos fazia teatro na escola com a irmã mais nova, Vania. Um dia, a caçula pediu socorro. O equipamento de som tinha pifado. Alguém precisa encerrar o espetáculo cantando a música final, porque não seria possível usar o playback.

“– Na hora eu disse, posso ajudar? Eu sei a letra da canção. Vania não tinha outra escolha e aceitou minha oferta. Me lembro que fui para o canto do pátio e comecei a cantar à capela o Bêbado e o Equilibrista, do Aldir Blanc”.

Em passos lentos, ela abandona a luz e segue para o fundo do palco. Fica no escuro e canta:

“Caía, a tarde feito um viaduto. E o bêbado trajando luto. Me lembrou Carlitos”.

A voz é firme e potente, porém sem os trinados e os excessos de quando canta com acompanhamento e percussão. A voz é poderosa, profunda e intensa.

“A lua, tal qual a dona de um bordel.
Pedia a cada estrela fria,
um brilho de aluguel”.

A plateia silencia. Não se mexe na cadeira. Não tosse. Não canta junto. Apenas ouve. A voz. É a voz da mulher, que celebrou 50 anos de vida na semana passada. Também é a voz da menina, que trinta e tantos anos antes se descobriu estrela cantando no pátio da escola aquela mesma canção, à época e sempre um hino de resistência à ditadura.

“O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil!”

Nos versos finais da música, a estrela volta ao centro do palco. A plateia enfeitiçada por sua interpretação, segue muda, atônita até a última sílaba:

“A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.”

Aplausos, urros e assovios. A artista se emociona. É a mulher-menina arrebatando mais uma vez o público com sua voz. O público fica de pé para aplaudir. Agora transforma o silêncio em gritos de prazer e emoção. O rapaz ao meu lado chora. A moça da fileira da frente também. Eles não têm idade para ter vivido os anos de chumbo. A emoção deles é de natureza empírica. Irracional. Culpa da voz. Filha da estrela.

Conheço Daniela Mercury como cantora desde 1992, quando ela explodiu para o Brasil afirmando a pleno pulmões que o canto da cidade era dela. Conheço Daniela Mercury como artista e pessoa desde 2007. Fomos parceiras em um memorável projeto multiplataforma no Carnaval de Salvador. Posso dizer que ficamos amigas. Acompanho seu trio e assisto a seus shows desde então. Ontem, no espetáculo “Daniela 50 anos, Voz e Violão”, entendi a gênese da cantora. A razão da sua energia, de seu axé.

Neste show, tudo ficou claro, evidente, pelo simples fato de que os excessos foram descartados. Tudo era voz. Tudo era interpretação. Até a dança, outro talento da artista, ficou comedida, econômica e intensa. Não sobrou trinado nem requebrado. Tudo coube na medida de um show que conta, do começo ao fim, como nasce uma estrela.

A história de um nome. Porque me chamo Claudia

Captura de Tela 2015-07-29 às 18.47.34Sherazade é um dos meus personagens favoritos apesar de eu não ter lido As Mil e Uma Noites até o fim. Gosto dela por ser a prova literária de que uma boa história pode salvar muitas vidas. Salvou a dela. Salva a nossa. Da tristeza, do tédio, da prisão da rotina, salva, principalmente, da solidão. Quem gosta de ler nunca está só. Quem gosta de ler tem sempre companhia de um milhão de personagens e de suas respectivas emoções. Lendo vivo a minha vida e a do outro. Viajo. Amo. Sou homem, mulher, velho e criança.

Faço esse nariz de cera digno de Cyrano de Bergerac para contar uma história. A história do meu nome. Claudia quer dizer claudicante, manco e defeituoso da perna. Isso todo mundo sabe. Não me chamo Claudia por isso. Me chamo Claudia por causa da revista Claudia. Verdade. Absoluta. Nasci em 1965. A revista tinha quatro anos de idade. Havia sido lançada em 1961 e foi logo um sucesso. Minha mãe a adorava. Colecionava os exemplares desde o número 1. Minha avó paterna também. Tinha pilhas de Claudia na garagem da casa dela no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Claudia foi a primeira revista que vi. A primeira que recortei. Antes mesmo da Recreio, que foi lançada em 1969 e foi a primeira revista que chamei de MINHA, assim com caixa alta.

Minha mãe gostava muito da revista e estava em dúvida sobre o meu nome. Chegou a pensar em me chamar Renata, mas meu pai encrencou porque seria uma homenagem ao primeiro namorado que ela teve, Renato. Meu pai, por sua vez, queria que eu fosse Cristina, que era o nome de uma das muitas namoradas que ele teve. Para não ter briga, eu brinco, eles chegaram ao consenso visitando uma banca de revistas. Pronto, fui batizada e sem saber marquei o meu destino com aquela marca.

Quando eu era menina tive a honra de ter uma foto minha publicada na revista. Era pequena, preto e branco. Saiu em uma sessão chamada “Elas se chamam Claudia”. Era um sucesso. Muitas mulheres, fãs da publicação que tinha Carmem da Silva como colunista, fizeram como a minha mãe. Havia uma profusão de meninas Cláudias e a revista, sábia e oportunamente, decidiu homenagear todo mundo. E, claro, vender exemplares. Na minha família, naquele mês, compramos bem uns dez. Todo mundo queria ter uma Claudia com a foto da Coca, então o meu apelido, guardada de recordação.

Cresci leitora da revista. Era quase osmose. Quando decidi ser jornalista, não sonhei trabalhar em Claudia. Queria trabalhar em uma semanal de informação. Gostava de política, economia, internacional e assuntos gerais. Realizei meu sonho e viciei em semanal. Voltei a aparecer na revista Claudia adulta, nos anos 90, quando fui personagem de uma reportagem. A pauta era divertida. Falava sobre profissionais que tinham trabalhos diferentes, incríveis e eram muito felizes porque ganhavam para fazer coisas que todo mundo desejava e sonhava como lazer, prazer e por exclusividade. Na época, eu trabalhava na revista Caras e figurei como uma jornalista que tinha o privilégio de viajar pelo mundo – eu tinha ido para a Polinésia Francesa –, conviver com artistas e frequentar Castelos e Ilhas. De novo, a Claudia se encontrava com a Claudia. Entreguei um exemplar para a minha mãe, que ficou muito feliz com o “sucesso da filha”.

Há alguns anos, contei essa história para o dono da revista. Ele ficou feliz e emocionado com a história de amor da minha mãe por sua “irmã”. A mãe dele havia sido a idealizadora da publicação, que recebeu o nome da filha que ela não teve. Na ocasião, ele tirou o caderninho de anotações do bolso e pediu o nome e o endereço da minha mãe. Não entendi o motivo, mas dei sem discutir. Dias depois, chegava uma carta assinada por ele junto com um exemplar, que era parte de uma assinatura de cortesia para a minha mãe. Não preciso dizer que ela quase morreu de alegria. Não preciso contar que ela se debulhou em lágrimas. Também é desnecessário falar que ela reza pela alma dele todas as noites antes de dormir.

Hoje quem ficou feliz fui eu. Saiu uma nota sobre o meu A vida sem crachá, na seção de livros de Claudia. É uma divulgação positiva e importante para o lançamento. O significado da nota, no entanto, é maior e mais emblemático. Cuidei dessa marca durante meu último ano com crachá. Peguei amor. Carinho. Foi triste deixar para trás a logomarca que ficava na estante da minha sala com o “nosso” nome. Com a notinha, a Claudia se encontra de novo com a Claudia. Na paz, na boa, com amizade, carinho e gratidão.

Ouvi errado o nome dela, mas a história é verdadeira

Sou fascinada pela Aldeia Hippie de Arembepe. Pouco vou lá. Talvez por isso meu fascínio. Tenho um projeto – daqueles que a gente tem para um dia fazer – de criar um museu à céu aberto para contar a história da aldeia. Para quem não sabe, trata-se de uma das mais importantes comunidades de malucos de estrada – o nome contemporâneo para hippie – do mundo. Desde que Janis Joplin baixou por lá e mostrou como se canta Summertime para seus amigos baianos, o lugar virou uma espécie de Santiago de Compostela para os adeptos do modelo de gestão Flower Power. Para ser hippie de verdade, é obrigatório passar por lá, ao menos, uma vez na vida.

foto G1/Janir Junior
foto G1/Janir Junior

No verão, chega um monte de gente. Muitos gringos vindos da Europa e da América do Sul, com destaque para argentinos sempre muy amigos. Na baixa temporada, o lugar fica calmo, quase pequeno burguês, graças à população fixa, que tem filho matriculado na escola, conta fiado no mercado e ponto fixo na porta do restaurante Mar Aberto, um dos melhores do litoral Norte da Bahia, para vender artesanato.

Já tive uma funcionária, Desirée, que tentou escapar do bantu da aldeia. Separou do amor da vida dela, aceitou a palavra fiel do Jesus Cristo Evangélico e trocou a bata de batik pelo uniforme de ajudante de cozinheira. Durou pouco. O suficiente para ganhar um salário, um fogão de quatro bocas – porque ninguém é de ferro, mesmo quando a proposta é viver o amor em uma cabana – e um bocado de roupas para os meninos. 40 dias depois do primeiro bom dia, Desirée partiu, sumiu, escafedeu. Traiu Cristo, o pastor, a palavra e voltou para a lida de vender a pulseira de couro ao meio dia para comprar no final da tarde a janta.

Sempre que vou para aquelas bandas, levar algum hóspede no projeto Tamar, vizinho à Aldeia, estico o olho. Tento enxergar razões, motivos, inspirações para aquele estilo de vida e de estética. Mais do que viver sem trabalho fixo, enfim, sem crachá, os hippies cultivam à liberdade e se lixam para a segurança financeira. O que vale é o agora. O hoje. Não estão nem ai se faltará comida, bebida ou fumo amanhã. Também têm hábitos e estética muito particulares. Ainda hoje, têm aflição à barbeiro e cultivam o cabelo comprido de modo radical. Na cabeça, no rosto, no sovaco, no púbis, nos braços e nas pernas. Pelos rebeldes, pelos selvagens (pelo ainda tem acento?). Cabelo, cabeleira, cabeluda. Sem xampu ou sem água doce, as madeixas volumosas e rebeldes dão uma impressão permanente de uma falta de limpeza. Em compensação, na maioria absoluta das vezes, cruzo o meu olhar com o deles e vejo doçura, paz e tranquilidade. Como a fala, arrastada, tranquila e leseirenta. Como o espírito, conformado, compreensivo e apaziguado.

Chovia domingo. Eu fazia minha segunda viagem ao projeto Tamar, desta vez para pagar uma dívida de seis reais. O porteiro nos deixou entrar no fiado. Prometi retornar logo e pagar. Cumpri. Estava no caminho de volta quando vi a menina. Alta, magra, tez morena, cabelos pretos. Bonita como todos os adolescentes conseguem ser. Alma e corpo frescos. Olhos vivos. Pele brilhante e rija. Só os cabelos, maltratados, roubavam um pouco da espetacular beleza daquela menina. Cheguei junto com o carro e ofereci carona. Queria tirá-la da chuva. Queria ouvir a história dela. Sim, confesso a minha péssima intenção.

Ela aceitou a carona, mas entrou muda no carro. Percebi que era nova, mais nova que seu 1m72 de puberdade.

“Você está indo para o mercado?”, perguntei.

Ela fez que sim com a cabeça, tímida. Parecia intuir que seria metralhada de perguntas. Tateei. “Qual é o seu nome?”

Com voz fraca, ela respondeu: “Ananaiara”. Ao menos é isso que a minha memória entupida de vinho e lixo digital conseguiu guardar.

“O que significa?”, perguntei. “Duas flores”.

Percebi que a entrevista seria difícil. Ela era lacônica. Ressabiada. Aceitara a carona porque vira confiança na “sueca cinquentona two reais”, mas não pretendia entregar sua história em troca de mil metros de transporte.

“Você mora na Aldeia Hippie?”. Ela fez que sim com a cabeça.
“Nasceu aqui?”. De novo, agora com movimentos laterais, ela fez que não. “Nasci na Chapada Diamantina”, respondeu trinta segundos depois.

“Veio de lá para cá?”, provoquei. De novo, silêncio. “Não. Chequei aqui com quatro anos. Antes passei por nove países”.

Me animei. A menina tinha história.

“Quais países você conhece?” “Não sei. Não lembro. Acho que Colômbia, Argentina…”

“Você foi para a Europa? Estados Unidos? Ou só viajou para a América do Sul?”

Silêncio. Estátua. Ela não respondeu nada, nem fez qualquer movimento. De verdade, não sabia. Nada.

Truquei. “Você é hippie?”

“Eu não. Meus pais são.”

“Você não quer ser hippie?”

“Não”.

“Por que?”

“Porque não gosto. Preferia viver de outro jeito”.

“Você estuda?”

“Sim”.

“Tem televisão em casa?”

“Sim”.

“Então?”…

Quando soltei o então percebi o quanto idiota e velha eu era. Ter televisão em casa é pergunta do IBGE do século XIX. Que adolescente de 12 anos, a idade de Anananaiara e a mesma do meu filho, está preocupado com televisão? Eles querem Face, Insta, tablete, zapzap. Eles produzem o conteúdo que consomem. Eles criam novas linguagens. Inventam programas, aplicativos e efeitos especiais. Fazem música. Produzem seu programas no Youtube e arregimentam milhões de fãs. Não estão nem aí para as tramas da 5, 6, 7, 8, 9 e 11 da noite do Plimplim. Quanto muito, acompanham uma temporada de Masterchef ou devoram uma temporada de Gracie and Frankie no Netflix em ritmo de Triátlon. De que adiantava para Anananaiarara ter uma TV se ela não tinha um celular?

“O que seus pais fazem? Eles ainda vivem juntos?”, perguntei testando a longevidade do amor hippie.

“Sim estão. Faz 20 anos. Meu irmão mais velho tem 18. Eles fazem e vendem artesanato”.

Não, na casa dela não tem wi-fi nem computador. Ela conhece e usa, mas apenas na escola. Quando crescer, quer ser médica, dentista ou professora. Hippie não, não mesmo. Não gosta.

Lembrei das minhas batas de linho branco com pespontos em linha colorida, que adorava usar nos meus quinze anos. Combinavam com shorts curtos de jeans e belíssimas sandálias de couro curtido, fedidas como quê, que comprava no Mercado Modelo ou na Ladeira da Barroquinha sempre que vinha para Salvador da Bahia. Era comprar e perder. Voltava para São Paulo feliz, pendurava no armário e descia a Serra para terminar as férias no Guarujá, habitat da minha geração dourada. Era o tempo que minha mãe precisava para dar cabo do meu figurino BG (bicho grilo, o sinônimo de hippie da época).

Por que aquilo que os pais gostam os filhos odeiam? Por que aquilo que os filhos odeiam os pais adoram? Por que aquilo que os filhos amam os pais detestam?

Porque assim é a vida. Talvez. Porque, dizem os psicólogos, é preciso realizar o processo de individuação e se desconectar, por meio da rejeição, do ódio, dos opostos, da nave-mãe. Será?

Chegamos ao mercado Fonseca. Parei o carro na porta. “Muito prazer Anananananaiara. Você é filha da Desirée?, perguntei tentando puxar o último fio de conversa. “Não, minha mãe se chama Rosana”, ela respondeu, abrindo a porta do carro.

“Obrigada”. “De nada”.

Entramos juntas no mercado, mas logo a perdi de vista. Tinha que comprar folhas para a salada e limão para a caipirinha. Hora de ter pressa. Pensei dar à menina de nome de duas flores um xampu Pantene de presente. Cheguei a pegar aquele que a Gisele Bundchen anuncia. No caixa, não a encontrei. Deixei para trás, tentando lembrar como era mesmo o nome dela.

A poesia acaba aqui. Para editar o post, comecei a pesquisar na rede imagens. Procuro o óbvio. Aldeia Hippie de Arembepe. Encontro uma reportagem bem apurada do G1. Janir Júnir, texto e foto, fotografou minha menina e toda sua família. O pai Leandro, uruguaio, o irmão mais novo, Queñoa, e seu Jegue, Moleque, e Anahinayá. Sim, ele ouviu direito. Anahinayá, que como eu disse, quer dizer nome de duas flores. Na foto, ela tinha dez anos. Agora tem doze. Continua linda. A casa da família agora tem televisão. Não tinha.

A experiência do escuro. De volta ao século XIX

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Ontem me exibi com uma foto linda de pôr do sol e outra mais linda de um fim de tarde com arco íris espetacular. A natureza me castigou. Não, me ensinou a não me cabar com aquilo que não me pertence.
Hoje o dia amanheceu cinza. Choveu horrores e no fim da tarde a chuva acabou com a luz. Estamos no escuro há três horas. Como no século XIX. Como na Idade Média.
A pousada está quase cheia e estamos todos experimentando ficar no escuro. Sem TV, sem Wi-Fi, sem cabo, no escuro. Quem não se conhecia se apresentou. No espaço gourmet, hóspedes de quatro apartamentos trocam histórias e impressões alumiados por uma vela. Na sala, um superpai entretém três crianças menores de 10 anos com histórias da carochinha e jogo de luzes a base de lanternas de Led.
Confesso que tenho medo de escuro. Coisas da infância que ficaram na minha alma e nenhuma terapia curou. Mas a paz das pessoas que me circundam está me acalmando e eu estou bem. A ponto de ser capaz de escrever e refletir sobre esse momento.
O mundo muda rápido. A tecnologia é avassaladora. Mas o ser humano mantém, felizmente, algumas características ancestrais. À noite, no escuro, todos se juntam e exercem a atividade mais primal e incrível do homo sapiens: a oralidade. Cada um conta sua história de vida, suas experiências, seus gostos, suas paixões de modo encantador e singelo. Fico aqui no bar ouvindo. Às vezes, palpito. É assim acredito que tudo vai dar certo. E que existe futuro.

A luz voltou às 5 horas da manhã. O sol ainda não deu as caras.