A vergonha é o mal do mundo

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Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse nãoinúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

Por que Plano B?

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Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.

A vida sem vergonha

 

Beatriz Franco, 28 anos, nasceu e mora em Santos, litoral sul de São Paulo. É jornalista e tradutora. Fala e escreve com fluência português, espanhol e inglês. Como milhares de profissionais da comunicação, foi apanhada pelo passaralho, o monstro de asas que está desertificando as redações de jornais, revistas, sites, assessorias, televisões mundo a fora. Para quem não é do ramo vale explicar: não se trata de uma crise. Não é um drama, exclusivamente, brasileiro. Trata-se de uma transformação no modelo de negócio. É global. O formato anterior que financiava os veículos impressos por meio da receita vinda do leitor que comprava na banca ou assinava e pela receita dos anúncios faliu. Os meios digitais, em sua maioria gratuitos, mudaram essa equação. O mesmo vale para a televisão, que sofre com a queda de audiência e, consequentemente, de receita publicitária. As novas plataformas digitais como Google, Youtube, Facebook fazem parte dessa mudança. Um novo modelo ainda vai nascer. Neste meio tempo, os jornalistas estão na lona, sem emprego, sem trabalho e sem ganhar dinheiro. Estão virando suco.

No domingo, ao publicar um texto sincero no Facebook, Beatriz virou um exemplo. Exemplo de transparência, de honestidade e de redenção. Depois de ficar quatro meses sem trabalho, agoniada, sofrendo no sofá de casa, decidiu enfrentar seus medos, suas vergonhas e preconceitos. Criou um plano B ao aceitar o convite de uma amiga para trabalhar de quarta a sábado como atendente em uma doceira de bairro em Santos.

Ao assumir a nova função, descobriu novos talentos. Ao ir à luta, decidiu contar o seu processo. Compartilhou suas descobertas e, consequentemente, encarou de frente os seus fantasmas. Não sabia, mas havia criado um viral (https://www.facebook.com/beatriz.franco.792197?fref=nf&pnref=story). Virou exemplo e modelo de superação. Ajudou um bocado de gente a sair do modo “pausa”. “Nunca imaginei que o meu texto teria essa repercussão. Escrevi para exorcizar a minha vergonha”, diz Beatriz, que agora exibe com orgulho a touquinha de vendedora que tanto a desestabilizou nos primeiros dias.

Você escreveu em seu texto que o pior foi vestir a touquinha. Por que?

“Eu tinha vergonha. Era preconceito. A touca era o símbolo de que eu estava, supostamente, fazendo uma atividade “menor”, inferior. Afinal eu era jornalista, falava três idiomas. É um absurdo a forma como vemos certos trabalhos. É um absurdo sentir vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas.”

Quando a sua vergonha passou?

“Comecei a trabalhar em uma quarta-feira. É uma loja de bairro. Existe uma rotina. As pessoas chegam na mesma hora, todos os dias. Vem tomar um café, comer um pedaço de bolo. Fui sentindo prazer em atender, conversar, trocar com os clientes. Além disso, descobri que nos finais de semana, o trabalho é uma loucura. Tenho que me desdobrar para atender a todos com rapidez e eficiência. Não é um trabalho tão fácil e simples quanto parecia. Percebi que eu tinha muitos preconceitos. Acho que ao entender isso, a vergonha foi passando. Hoje estou aprendendo sobre gestão. Quero estudar, fazer cursos, posso me tornar uma empreendedora.”

E os amigos?

“Eu sentia vergonha deles também. Ficava pensando sobre o que eles iriam pensar me vendo ali servindo mesas. Outra bobagem. Acho que escrevi o texto para colocar um ponto final neste sentimento. Funcionou.”

– Como está a sua vida agora?

“Estou feliz. Faz três semanas que estou trabalhando. Gosto de atender as pessoas. Gosto de ouvir histórias. Estou interessada em aprender mais sobre a gestão do negócio. Acho que levo jeito para a coisa. Adoro o jornalismo. É a profissão que eu escolhi. Estudei muito, mas neste momento não dá para viver disso. Estou aprendendo uma atividade nova. Estou ouvindo muitas histórias, conhecendo muita gente. E agora, estou escrevendo a minha história de um jeito diferente. No fundo, também foi para isso que fiz jornalismo. Curioso, não é?”

 

 

Plano C

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O plano B virou A. O antigo A caminha para a extinção. Como prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém, parti para a construção do meu Plano C, que será B logo que deixar o plano das ideias e encarnar em um plano de negócios.

Dessa vez, vou fazer tudo direitinho. O time do Sebrae de Camaçari, meu município baiano, e de Salvador, a primeira capital do Brasil, estão me ajudando. A proposta é começar do começo. Fazer um plano estratégico, um plano de negócio e estressar, até o limite, todas as hipóteses antes de colocar a mão no bolso.

Já temos a ponta do fio da meada nas mãos. Agora é hora de investigar, pesquisar, ouvir, perguntar, consultar e ler tudo o que estiver disponível sobre o tema. Você deve estar pensando: “plano C em meio a crise?” Pois é, existem dois momentos bons para investir. Aqueles de profunda bonança, como quando inaugurei a minha pousada. E momentos de absoluta tormenta, como agora. Espero estar escolhendo um nicho de mercado que faça sentido – meio caminho andado para o sucesso de qualquer plano C.

Preciso fazer uma confissão: a escolha fala ao coração. Sou do time que defende que plano B bom é filho do prazer. Gostar de fazer faz toda a diferença no resultado do negócio – e na satisfação que você tira dele. É o meu caso. O meu plano inclui garimpo, pesquisa, viagens, interação com o público e planejamento. Tudo o que eu gosto e sei fazer.

Cachorro picado por cobra tem medo de salsicha. Vou repetir o modelo, bem sucedido, do meu plano A. Vamos começar pequeno. Vamos mirar o bom e deixar o ótimo para o futuro. O risco foi a primeira coisa que avaliamos. Ele é pequeno. Não gosto de arriscar demais. Não quero sentir pressão de investidor, banco ou acionista. Acredito no simples. Gosto de começar pequeno e ver crescer. É o meu perfil. Perdoem-me, portanto, pela falta de ousadia.

Em ritmo de baile permanente, voltei ontem para as quadras e hoje para a academia. Preciso de muita disposição e energia para trabalhar. Desconheço plano B, C ou D que dê certo ou gado que fique gordo sem o olhar e o suor permanente dono. O negócio próprio, pequeno ou grande, prospera quando o dono está ali, do lado, colado, trabalhando, pensando e colocando a mão na massa.

Quem diria, que menos de um ano depois, eu iria rever todas as minhas apóstilas do Empretec para começar de novo. Que Hefesto, o Deus do trabalho, e São José nos protejam.

João das Alagoas e seus discípulos mestres na arte de esculpir histórias

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Seu João das Alagoas é um mestre da arte popular. Com as mãos, molda um mundo particular. Ele é feito de barro cozido no forno. As imagens contam histórias singelas da vida na Capela, uma pequena cidade no interior das Alagoas. Seu João é louco pelo boi. Sobre as costas dele aplica, em alto relevo, um manto de personagens e elementos. O casamento. O batizado. A festa. O folguedo. É tão lindo que dá vontade de namorar, passar a mão e acariciar.  Seu João percebe quando a pessoa se apaixona pelo o que ele faz. Quando isso acontece, ele abre o sorriso e dá conversa. Conta causos e fala da sua história.

João das Alagoas nasceu João da Silva. Quando menino, com os pés gostava de jogar futebol. Era bom e, por isso, tinha o apelido de João Maravilha, uma referência ao craque Dadá. Com as mãos fazia arte no barro. Imitava os trabalhos de mestre Vitalino, de Caruaru, cidade que fica a 280 quilômetros de Capela. Foi fazendo, foi fazendo e ficando mestre. Mas ainda tinha que fazer dupla jornada como pedreiro e pintor. “Eu tinha minha família para sustentar”, conta ele, que expôs pela primeira vez em 1987, em Campinas, interior de São Paulo. “Foi lá que me deram a sugestão do nome João das Alagoas. Gostei e adotei.”

O trabalho foi crescendo. Ele foi fazendo, criando, expondo e de gerúndio em gerúndio faz mais de uma década que vive de arte. Faz bois sob encomenda. Uma peça grande e elaborada pode vale mais de 5 mil reais. Não vive sozinho. Em seu ateliê, simples e rústico, vizinho a uma escola estadual de Capela, ele começou a ensinar. Os discípulos foram se convertendo em mestres. Hoje João trabalha ao lado dos artesãos Sil, Leonilsson, vulgo Galego, Nena, João Carlos, Claudio e Van. 

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Na foto acima, ficou faltando Sil, que estava doente, e João Carlos, que ainda não havia chegado ao trabalho. Fiquei muito impressionada com o talento deles e com a generosidade de João. Depois de contar sobre seu trabalho e vender um boi para nós, que deve ficar pronto daqui dois meses, João fez questão de apresentar o trabalho de todos os seus colegas. Explicou a história do Jaraguá de Sil, mostrou no forno peças recém-queimadas por Nena e Van e descreveu com encanto o São Jorge de Galego e as miniaturas de Claudio, um mestre em esculpir  pequenino. “Nosso trabalho é feito com muito carinho. Adoramos pensar que nossas peças viajam pelo mundo levando um pouquinho de nós”, contou João, que no dia 4 de agosto de 2011  foi declarado como Patrimônio Vivo Cultural de Alagoas.
Quando dei a partida na nossa Ranger preta, carregada de peças e do carinho deles, olhei para trás para dar o último ciao e, a meu modo, agradecer por tanto carinho e beleza. Sim, eles viajam pelo mundo por meio de suas obras. Aquelas que comprei, agora, estão na minha Capela para serem admiradas por viajantes que chegam até o meu paraíso particular. Assim um novo circulo virtuoso se cria. Obrigada, João.
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Noivos de Van
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Dia de domingo de Nena
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Miniatura de fazenda de Claudio

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Árvore de Natal de Leonilson, o Galego

O plano B que saiu do armário

Despir a alma, vestindo o corpo. Despir o corpo para revestir a alma de prazer e felicidade.

Depois que conversei por telefone com a Theresa Rachel, essa foi a imagem que me veio à cabeça. Pouco antes de desligar o telefone, ela confessou que, recentemente, havia chorado de contente. Tinha realizado um workshop com ótimos resultados. Depois que as clientes se foram, sentou-se à beira do lago do sítio onde mora, no interior de São Paulo. Olhou em volta, olhou para si, reviu os últimos capítulos da sua reinvenção e não aguentou de emoção. “Mudei muito nos últimos quatro anos. O mais bacana é que a minha mudança tem ajudado outras mulheres a mudar também”, diz com orgulho na voz. O que ela faz? É terapeuta de guarda-roupas. Ahhh? Calma, vou contar e explicar.

Theresa tem 35 anos. É filha da geração X, que já nasceu no rabo do foguete. Filha de São Paulo, formou-se em Marketing e em 2009 mudou-se para Campinas para trabalhar. Foi funcionária de várias multinacionais. Tinha cargo bom, salário e benefícios atraentes. Tinha prestígio na família. Tinha o respeito dos amigos. Faltava satisfação. Faltava sentido. Faltava tesão. Acordava de manhã sem vontade de trabalhar. Vivia no automático. Trabalhava até tarde e se perguntava o que estava fazendo da vida.

“No final de 2011, a corda arrebentou. Decidi tirar férias do trabalho, do meu marido e da minha rotina. Me enfiei em um retiro de revisão de vida em um mosteiro no interior de São Paulo. O desafio era ficar cinco dias em absoluto silêncio. Tinha um caderno e uma caneta, onde fui escrevendo o que eu estava sentindo. Durante um exercício, uma voz falou no meu ouvido. Tive um insight. Lembrei que havia recebido um atendimento com uma personal stylist na Casa Natura em 2009 e que aquele trabalho tinha me encantado. Decidi que depois do retiro, estudaria para entender que profissão era aquela”.

Antes de continuar, preciso de parênteses. Theresa nunca teve closet de quarenta metros quadrados. Jamais colecionou sapatos Louboutin e não vende a mãe para ter a última Lady Dior. Não era ligada em moda nem em tendências fashionistas. A vontade de trabalhar com estilo pessoal tinha a ver com transformação e não com glamour nem grife.

“No segundo dia do retiro, tinha certeza que queria mudar de vida e trabalhar com o jeito de vestir das pessoas. Me inscrevi em um curso de personal stylist e comecei a vivenciar meu segundo momento de autoconhecimento e transformação. Entendi que tinha uma enorme dificuldade de me identificar com as peças do meu armário. Comecei a prestar atenção em mim, no porquê das minhas escolhas. A reflexão extrapolou meu guarda-roupa”, relembra.

“Percebi que não conseguia escolher uma roupa que revelasse, de verdade, quem eu era. Se eu não sabia fazer algo tão simples, como é que eu poderia escolher o rumo da minha vida?”

A reflexão é absolutamente pertinente. A roupa é nossa fina estampa. Ela fala quem somos, o que queremos e revela se estamos bem. Theresa virou o guarda-roupa do avesso e, com ele, a própria vida. Pediu demissão, se separou do marido e trocou de casa. Recomeçou. Tinha uma reserva de dinheiro e uma enorme vontade de se descobrir. A princípio, sabia apenas o que NÃO queria. Não queria trabalhar no mundo corporativo. Não queria mais usar suas roupas certinhas, normais, de cor única. Decidiu estudar. Fez cursos de formação de consultoria de imagem. Fez cursos de inteligência emocional. Foi para Miami, nos Estados Unidos, fazer outro curso de personal stylist. Na prática, foi sendo estilista de si mesma. Foi desenhando e ajustando um novo figurino para a pessoa física e jurídica que queria ser.

“Durante o mês que passei nos Estados Unidos, aprendi muito mais do que orientar clientes na forma de se vestir. Aprendi que pessoas especiais entram em nossas vidas para aprendermos e trocarmos experiências. Foi outro momento importante de autoconhecimento”, diz Theresa, que segue estudando e se preparando para ajudar pessoas a mudar de guarda-roupa, de roupa, de corpo e de vida.

Ao retornar, estava preparada para encarar a nova profissão. Também havia descoberto uma nova Theresa. Estava repaginada. Tanto que recasou com o ex-marido, que neste processo também era “outro marido”. Foi ai que decidiu começar a atender. As primeiras clientes foram cinco amigas, que a ajudaram a criar o modelo de negócio e a chegar no conceito de que não era apenas consultora de imagem mas uma terapeuta de guarda-roupa. Qual a diferença? Theresa explica.

“A grande sacada foi quando entendi que meu trabalho não era com moda, tendências, grifes de luxo e desfiles de passarelas. O que eu fazia era ajudar pessoas. Meu desejo sempre foi trazer algo mais significativo, fazer com que minhas clientes pudessem se observar, se conhecer e se reconhecer por meio daquilo que vestem e, a partir daí, ver a vida com mais prazer, propósito, amor e beleza”, define a terapeuta de guarda-roupa, que tem no autoconhecimento a sua principal ferramenta de trabalho. “A mudança na imagem pessoal é um processo que vai muito além do vestir.”

Depois da experiência com as amigas cobaias, Theresa começou a planejar o novo ofício. Aplicou todos os seus conhecimentos de marketing para dar cara à sua empresa. Montou um site muito bonito (www.theresarachel.com.br) e eficiente. Criou um conceito e uma marca. Estabeleceu que iria trabalhar em casa, no seu sítio cercado de mata e bichos, perfeito para cursos e workshops, ou em domicílio, fazendo atendimentos individuais. Criou três módulos de atendimento de 13 a 25 horas, com preços e focos diferentes. O mais completo, batizado de máster, oferece autoconhecimento, avaliação de tipo físico, análise de coloração, maquiagem, auditoria de guarda-roupa, gerenciamento de guarda roupa, pré-shopping e personal shopping e gerenciamento de guarda-roupa pós shopping. É instigante.

Ela dá um curso intensivo por mês. Também oferece cursos em empresas e para grupos fechados. Escolheu atender apenas o gênero feminino, porque acredita elas estão abertas à mudança e têm no vestir uma linguagem muito importante. “Atendo mulheres dispostas a se reinventar. Algumas se separaram. Outras arrumaram um novo emprego. Tem também as que se tornaram mães há pouco tempo e as que fizeram severos regimes e por isso precisam mudar hábitos e, também, todo o guarda-roupa”, conta Theresa. A propósito, ela, em breve, pretende outra mudança radical: quer ser mãe.

Proprietária de uma micro-empresa, com CNPJ e inscrição estadual, Theresa está exultante. Ganha bem mais do que quando tinha crachá de uma empresa de alimentos e, principalmente, trabalha com absoluta paixão e prazer. “Acredito que cada cliente que entra na minha vida veio até mim por alguma razão. Acredito que tenho uma missão a cumprir na vida delas e que também tenho algo para aprender com elas. Em cada atendimento, planto uma sementinha de mudança que se inicia pelo guarda-roupa mas que se estende à relação delas com elas mesmas”, acrescenta.

“Estou muito realizada com este meu trabalho. Valeu a pena mudar para ser feliz.”

 

 

Os planos B de Belisário

Os planos B do Belisário

 

Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

 

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

 

Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Batista. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

 

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma emprea concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

 

– Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

 

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

 

  • Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.

 

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

 

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

 

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

 

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

 

–“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

 

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

 

  • “Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

 

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

 

  • “Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

 

 

Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Batista. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma emprea concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

– Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

“Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.”

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

–“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

“Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

“Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

 

 

 

 

 

Uma incrível entrevista de emprego

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Contratei e demiti muita gente em 30 anos de carreira. No caso da contratação, a etapa final é a famosa entrevista de emprego. Aquele momento em que você fica cara a cara com o seu futuro chefe direto ou indireto. Na maior parte das vezes, é decisivo. Se agradar, a vaga é sua. Assim, tipo nocaute. Se não agradar, fica no purgatório da repescagem, tentando ganhar por pontos. Quando contratava, detestava seleções decididas por pontos. Significava que ninguém era suficientemente empolgante, diferente ou brilhante. Por isso, se quiser o emprego, acerte logo um soco de baixo pra cima no queixo do contratador. Deixe o coxinha de quatro e não lhe dê a fatídica oportunidade de perguntar “quantas bolas de tênis cabem em uma piscina”.

Foi o que a Roberta fez comigo. Acho que no começo de 2004. Eu dirigia uma área de edições especiais para a nova classe média, cuidava de duas revistas de televisão semanais populares e também fazia edições customizadas para clientes. Precisava de um repórter e não tinha a intenção de perguntar sobre as bolinhas de tênis. Ela entrou de salto alto agulha, saia preta no corte lápis e camisa branca. Discreta e elegante. Usava os dois primeiros botões da camisa abertos, porque tinha um colo lindo e fazia o tipo diferente. Não era um sílfide e não estava nem aí para esse detalhe. Mas não foi o figurino que me chapou.

Eu que não entendo nada de maquiagem e nem uso (agora posso declarar minha ignorância em praça pública) fiquei espantada com o modo perfeito com o qual Roberta passava delineador em seus olhos. O traço era equilibrado. Sem borrões. Os olhos dela ficaram ainda mais inteligentes e o discurso que ela fazia mais crível. Tinha estudado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Para isso, tinha deixado a cidade do interior onde nascera e havia se aventurado na capital. Sozinha? Não, com a filha pequena, Gabriela, fruto de um amor de adolescência.

Neste momento, confesso aqui, contratei Roberta. Amigos de RH, me perdoem. Após essa resposta, eu, que já estava gostando da moça, levei meu direto no queixo. Era diretora de redação, tinha 38 anos, 20 de carreira, e estava quebrada ao meio por causa da dificuldade de conciliar o meu trabalho com a maternidade do meu Chico, então com 1 anos e alguns meses. Aí me aparece uma guria, de 20 anos, do interior de Santa Catarina, inteligente, articulada, disposta, bem vestida, mãe de uma garotinha e ainda capaz de passar um delineador impecável. Era muito para uma segunda-feira.

Trabalhamos juntas por quase dois anos. A vida dela não era fácil comparada com a minha. Salário curto. Jornada longa. Desafios absurdos. Sem babá, sem marido e sem estrutura. Roberta trabalhava muito. Pegava todos os frilas. Eu deixava porque me via nela. Havia sido uma pirralha hiperprodutiva no início da carreira. Mas não tinha filho, o que deixava tudo mais fácil.

Um dia, Roberta pediu para ir embora. Um gestor de RH rigoroso diria que eu contratei mal. Discordarei respeitosamente e absolutamente. Ela era um gênio e por dois anos tivemos um gênio trabalhando em nosso time. Ela voltou para Floripa, reorganizou a vida, capitalizou, pensou, criou e um dia voltou. Disse adeus ao crachá, bem antes do que eu. Com amigos, montou uma editora, a Mol, que se especializou em fazer projetos customizados. Só que uma pegada diferente, com foco e pé na economia sustentável e solidária. Em 2008, eles lançaram a revista Sorria, patrocinada pela Droga Raia e por seus clientes, que ao comprar um exemplar faziam uma doação para o Craac (grupo de apoio ao adolescente e criança com câncer).

Por que decidi contar tudo isso? Porque hoje fui na Drogasil comprar um remédio para uma hóspede e encontrei a edição de agosto da revista Todos, a segunda revista customizada da Mol, criada pela Roberta. O tema da edição é “Eu venci” e bem lá na página 18 tem uma foto linda minha, segurando duas flores com o título: “Entendi que o fracasso pode ser uma oportunidade de aprendizado”. A matéria carinhosa fala da minha experiência recente no contexto de uma pauta muito atual e oportuna: a reinvenção. Histórias de cinco pessoas que depois de um tombo, de um susto, uma fatalidade conseguiram florescer.

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Só podia ser obra de uma moça como a Roberta, agora mãe de outra linda bebê chamada Serena, que até hoje passa delineador nos olhos como ninguém.

A melhor coxinha do mundo

Descobrir o talento é um divisor de água. Algumas pessoas nascem com habilidades tão evidentes que isso está longe de ser um problema. Mozart compôs sua primeira sinfonia aos cinco anos. Pelé ganhou sua primeira Copa do Mundo aos 17. Mark Zuckerberg fundou o Facebook aos 20. Pessoas normais também se revelam cedo. Minha sócia, Nil Pereira, aprendeu a fazer a melhor coxinha do mundo aos 15 anos, quando ainda morava em sua cidade Natal, Ilhéus. Aprendeu com a mãe dela, dona Aidil, para juntar um dinheirinho e comprar um sapato “cavalo de aço”. Para quem não é das antigas, a explicação: cavalo de aço é um sapato de couro com salto plataforma, que fez muito sucesso na época da Jovem Guarda.

Nascida na terra do cacau, Nil não era filha de fazendeiro rico. Longe disso, dividia o orçamento de classe média com outros quatorze irmãos. Por isso, desenvolveu seu dotes culinários, dignos de Gabriela, para subir na vida. Começou fazendo coxinhas para fornecer às cantinas das escolas da cidade. Foi ficando craque e rápida. Uma coxinha por minuto. Sessenta coxinhas por hora. Um real por coxinha, 60 reais por hora em dinheiro de hoje. A conta se tornou exponencial quando Nil se mudou para Salvador, a capital. Na época, o dinheiro era cheio de zeros e a inflação comia o resultado do trabalho no final do dia. A produção era alta. Uma média entre 800 e mil coxinhas por dia, que eram vendidas em lanchonetes, barracas de rua e cantinas de colégio. Nos finais de semana, a produção migrava para festas familiares e casamentos. O lucro não era exatamente espetacular, mas dava para pagar a conta do aluguel de um apartamentinho na Barra, condomínio, gastos pessoais e um dinheirinho para a farra do final de semana. Estamos falando dos 80, os melhores anos da vida de quem já ultrapassou a barreira dos 50.

A coxinha da Nil virou um ícone cult. Especialmente quando ela deixou de fazê-las profissionalmente. Nos anos 90, ela se tornou uma das maiores produtoras de evento da Bahia, o quitute tornou-se exclusivo dos amigos e parentes. Vez por outra, um coro de famintos pedia que ela fizesse a guloseima. E ela, orgulhosa, ia para cozinha preparar a massa, o frango e o recheio. Como se trata de evento, nestas ocasiões ela monta uma bancada e faz as coxinhas ao vivo e a cores para todos verem e aplaudirem a sua habilidade. É quase um happening. Como ela tem um metro e meio de altura, sua modéstia não é proporcional ao tamanho. Ela diverte todos definindo-se como a melhor fazedora de coxinhas do mundo. Como a mais rápida de todos. Como a mais perfeitas. Todos riem. Quem discute, toma uma tapada de primeira. “Eu sei fazer coxinhas. E você, sabe fazer o quê?”

Quando ouvi a pergunta pela primeira vez, calei. Sei escrever mais ou menos. Escrever não enche a barriga de ninguém. Vou roubar uns versos da música Língua de Caetano que têm duplo sentido e cabem perfeitamente para fechar este texto:

Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira

Comecei minha jornada assim. Fazendo coxinha! Hoje estou fazendo a Coxinha da Nil para meus amigos e hóspedes queridos! #pousadacapela #coxinhadanil

A video posted by Pousada A Capela | Nil Pereira (@pousada_a_capela) on

No meio do caminho tinha um mar de orquídeas e uma lição sobre empreendedorismo

Estrada sem pedágio em mês de inverno é igual a queijo suíço: uma apoteose de buracos. Tentava escapar de muitos quando vi a placa, pequena, no canto da estrada. Meu descrachamento autorizou minha cena de cinema. Podia atrasar. Podia chegar mais tarde. Pisca alerta ligado, virei à esquerda e cruzei a pista, quase cantando os pneus.

Tomei a estrada de terra, com buracos mais macios e segui a direção indicada. Sacolejos, poças d’água, terra, lama e uma segunda placa avisando que em um quilômetro eu chegarei. Verdade, cheguei conforme o prometido. Cruzei o portão e um senhor de chapéu de palha com um sorriso 1001 – um dente em cada canto da boca – me recebeu.

– Moço, aqui é o orquidário Bahia?

Ele, simpático, exibiu outra vez o sorriso cinematográfico frente à minha pergunta estúpida. Bastava olhar em frente para ver um mar de orquídeas, de todos os tamanhos e cores, guardado debaixo da tenda de tela preta furadinha.

Metros à frente, encontrei outro mar, feito de perfumes, texturas, formas, cores, frescor. A guardiã dele me recebeu na porta sorrindo também. Dona Dina tem 60 anos e alguma coisa e há doze vive de cuidar de orquídeas. Sua rotina é simples e generosa. Acorda cedo para começar a tratar das meninas. Sem repertório científico, sem conhecer nomes difíceis em “botanicanês”, ela domina todos os tipos, espécies e famílias. Conhece seus cheiros, hábitos e desejos. Sabe quando vão florescer. Quando precisam ser podadas ou replantadas. Aprendeu a reconhecer o momento de tirar mudas e parir novos arranjos a partir de vasos cheios de bulbos.

– “Faço meu trabalho com muito amor”, diz dona Dina, que adora receber visitas no sítio perdido numa quebrada da via Cascalheira, que liga a estrada do Coco, litoral norte da Bahia, até a cidade de Camaçari.

Peço ajuda dela para escolher dois vasos para dar de presente a uma pessoa muito querida. Ela se anima e saltita entre as bancadas para me mostrar os melhores.

– Você precisa ver essa. Tem cheiro de chocolate!!!!

Desdenho um pouco da informação, mas caminho para conferir. Verdade de novo. A planta cheirava a cacau, melhor, a café com cheiro de chocolate. Apesar de não achá-la das mais belas, decidi comprá-la, junto com uma branca com manchas rosas, que estava repleta de brotos prestes a florir.

Na hora de partir, percebi o quanto dona Dina falara a verdade sobre trabalhar com o coração. Com o dinheiro em mãos e uma gorjeta de 10 reais porque não tinha troco, ela olhou triste para as suas flores que partiam. Despediu-se de mim e delas como uma mãe que dá adeus a um filho que parte para longe, para nunca mais ver.

– “Volte outras vezes”, ela pediu, sabendo que se eu retornasse, não traria as meninas dela, que ela nunca mais veria. Prometi revisitá-la. “Faço muitos casamentos na minha pousada e sempre precisamos de orquídeas”, falei, tentando reanimá-la com a hipótese de uma boa venda.

No curso de empreendedorismo que fiz, aprendi que paixão, amor e empreendedorismo se confundem apenas até a página três. Gostar do que se faz é bom, mas não é fundamental. O importante é o negócio, a venda, o projeto, a marca, o legado e, claro, o lucro. Empreendedor que se preze não se abate nem com o fim do negócio, porque entende que quem vai à falência não é ele, empreendedor, mas a empresa que ele montou. Empreendedor do primeiro escalão, se apaixona pela transação, pelo planejamento da ideia que vira negócio, pela ideia genial que se converte em milhões.

Definitivamente, dona Dina, gestora de seu mar de orquídeas perfumadas, não pertence ao Olimpo do empreendedorismo. Mas trabalha com muito amor.