Família, amigos e música

 

O gênio da lâmpada apareceu na sua frente e disse: “Escolha três coisas que você mais ama e não pode viver sem? O que você responderia? Já pensou nisso?

De chofre, a resposta automática pode ser aquilo que você mais demanda naquele instante. Tipo: está duro? Pede dinheiro. Está com fome? Pede comida. Mas não é isso que o gênio quer saber. Irritado, ele explica: “Eu disse três coisas que você mais ama e não pode viver sem porque vai sentir fome e dor no coração”.

Agora entendi. Obrigada gênio. Deixa eu pensar. A lista de itens começa a rodar em ordem alfabética como um letreiro de filme.

Amigos. É o primeiro objeto do desejo que brota na minha cabeça. Só de pensar em abrir mão deles começa a doer.

Amor. Amor verbo intransitivo. Está na categoria comer e respirar. Ufa, passei.

Bicicleta. Lembro da Lola estacionada na garagem. Sinto tristeza e nostalgia. Adeus minha companheira.

Bichos. Lembro da família de quatro patas e já sinto vontade de chorar. Gênio, vamos negociar isso aqui?

Cinema. Amo, adoro, mas às vezes fico meses sem ver. Passo.

Chocolate? Já fiquei um ano sem comer em uma promessa que fiz, sobrevivo sem.

Cachaça? Como será a vida sem uma caipirinha? Possível. Fora do rol.

Churrasco. Enfim, virarei vegetariana?

Doces? Posso sim riscar o açúcar da minha existência. Um, dois, três e já.

Família? Amigos, bichos e família são para mim um único item. Gênio, vamos negociar?

Fotografia. Adoro ver. Adoro fazer. Saudade.

Livros? Ai meu Deus, vamos deixar na lista para decidir no final?

Mar. Se o gênio me levar para Marte, fazer o quê?. Se na Terra, eu ficar será muita falta de sorte ficar longe dele de novo. Vamos rezar. Vamos torcer.

Música. Sem chance. Sem chance. Sem chance.

Arembepe, Londres, Paris, Rio e Roma? Foi um privilégio conhecê-las. Vão morar para sempre no meu coração.

Vou espremendo a memória. Revendo os itens, como quem faz a limpeza anual do guarda-roupa. Como quando lota a capacidade de armazenamento do MacBook Air e você precisa escolher quais fotos ficam na memória e quais vão para o HD externo. Lembro de um monte de coisas que gosto de fazer mas que faz um tempo enorme que não pratico, como mergulhar, jogar handball e fazer fios de ovos. Percebo que está cada vez mais claro quais são as prioridades. Fico feliz. Será mais fácil negociar com o gênio, se é que existe negociação.

“Gênio, minha família, meus amigos e meus bichos podem fazer parte de um único item?” Ele ri, sarcástico. Deve ouvir cada proposta indecente. “Você pariu seu cachorro, Zapata, do mesmo jeito que pariu seu filho, Chico?”. A pergunta encerra o assunto. Ele me olha com impaciência.

Então, qual é a dúvida? Quer saber? Nenhuma.

“Família, amigos e música.”

A lista tríplice é definitiva. É um deleite saber poder definir, assim, com relativa facilidade os meus amores. Enquanto escrevo, sinto uma leveza e uma sensação de liberdade. O resumo das minhas necessidades. A essência. Só isso importa. Só isso interessa. O resto é acessório. Se tiver muito bem. Se não tiver paciência. Faço um rápido flash back. É a prova dos nove. Não esqueci nem deixei nada para traz. A última quinzena foi linda, especial. Vivi cercada de gente que amo, celebrando a vida em modo festa, encontro, jantar, reunião. Família, amigos e música.

IMG_8224fotopost1

Obrigada, Gênio. Não preciso pedir nada. Tenho tudo aquilo que amo e preciso.Ah, por favor, deixa eu terminar meus dias na beira do mar.

 

 

 

 

 

 

Ali vai alguém que não deve nada a ninguém

_MG_0577-1

 

Outro dia vi uma propaganda de produtos cosméticos que discutia questões de gênero. Não lembro a marca. Não lembro o produto. A mensagem me devolveu à infância. Uma voz adulta dizia: “você não pode sentar de perna aberta”. Outra voz bronqueava: “está toda desarrumada. Parece um menino.” Uma terceira fala, agora em coro, bradava acompanhada de diferentes predicados: “o que vão pensar de você…vestida assim desse jeito, …falando desse jeito, …agindo desse jeito.”

 

O efeito dessas vozes, repetidas insistentemente durante a infância e adolescência pelas avós, tias, mãe e amigas das mãe, tias e avós, sobrevive no meu corpo e na minha alma. Por mais que goste, não consigo sentar de perna aberta. Estou sempre com elas cruzadas, até mesmo agora, enquanto escrevo sentada à mesa. Sobre a desarrumação, a fala teve efeito reverso de trauma-maldição. Me tornei uma adulta desarrumada e bagunceira ao extremo. Até eu mesma me canso da minha zorra, às vezes.

 

A terceira ladainha, poderosa como um mantra do capeta, é o motivo deste texto. O que vão pensar de mim? Por causa dessa dúvida, preocupação estúpida, pessoal e intransferível, vivi a maior parte dos meus 50 anos pensando nos outros – ou melhor, naquilo que eventualmente os outros poderiam pensar sobre a minha insignificante pessoa. Será que alguém pensava? Será que alguém falava? Não sei. Bastou a ameaça. Bastou a potencialidade de um mau julgamento para eu me comportar, agir, escolher segundo os bons modos do senso comum.

 

Por causa do que poderiam pensar sobre mim, quantos momentos de prazer eu perdi? Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantos projetos equivocados abracei? Quantas horas de sono eu perdi? Quantos burradas cometi? Não sei dizer quantas, mas sei que foram muitas, inúmeras, incontáveis. Por que me submeti ao julgo alheio? Por que cedi à pressão do sequestro do olhar alheio? Vaidade, medo, vontade de criar um legado. A essa altura, bobagem fazer novos julgamentos. O feito está. E legado, definitivamente, é algo que não se preza em tempos de snapchat.

 

O fio da meada dessa reflexão foi puxado nesta semana. Estava andando pela rua e um amigo me viu. Buzinou. Gritou. Nada. Não conseguiu atrair minha atenção. Daí me escreveu: “chamou-me atenção seu ritmo: leve, fluido, sem pressa. Cabelos ao vento e perfil ereto. Pensei…tá de bem com a vida. Como dizia o Walter Franco: espinha ereta, a mente aberta e o coração.” Sim, estou de bem com a vida. Mas, o que faz mesmo a diferença é saber que nada faz diferença. Que digam, que pensem e que falem. Só posso dizer que, felizmente, não devo nada para ninguém.

 

 

Prepare-se para o erro

Partiu Plano B? Chegou a hora de sair da sala vip do conforto e dar o passo em direção ao novo? Na espinha, aquele frio polar. No estômago, aquele nó de ansiedade e excitação só comparável ao nó dos extremos da paixão. Na cabeça, passam dois filmes. O primeiro é blockbuster. Fila na porta para te ver e te ouvir. Fila na porta para comprar seu produto ou seu serviço. Fila na porta para te aplaudir e no caixa o dinheiro jorrando, feito as Cataratas do Iguaçu. Aplausos em cena. Só falta levar o Oscar.

O segundo documentário é em preto e branco. As cenas são escuras e angustiantes. A trilha sonora lembra enredo de terror. O ritmo é lento como um clássico de Tarkovsky. O seu negócio está vazio. Entregue às moscas. Ninguém chega. Ninguém entra. Os amigos atravessam a rua para nem ver a sua agonia, a sua miséria, a sua vergonha.

Você sacode a cabeça para dissipar a imagem ruim, para acordar do pesadelo e volta a pensar nas imagens coloridas do sucesso.

Acalme-se, respire.

A descrição acima não é nada original. Quem começou, lançou ou estreou já passou por todas essas sensações. Tudo pode dar certo. Tudo pode dar errado. Sempre existe um imponderável que abençoa ou maldiçoa um novo empreendimento. Isso não quer dizer, no entanto, que basta entregar para Deus e rezar. Definitivamente, trata-se do oposto. Porque existe esse imponderável, que gosto de chamar de coeficiente de mangue, o pêndulo do Universo tende sempre para o erro, para a falha, para o caos, para o insucesso, para o fracasso.

É dura a vida da bailarina. É dura a vida do empreendedor. É dura a vida dos sem crachá. É linda, desafiadora e livre a vida da bailarina e dos seus colegas de palco. Sonhe, mas não fantasie. Deseje, mas não se iluda. Acredite, mas não minta para si mesmo. Do céu, só cai chuva, avião e sujeira de passarinho. Tudo, tudo pode dar certo mas é preciso trabalhar desavergonhadamente para isso.

Fazer o que? Prevenção. Isso mesmo, previna-se contra o coeficiente de mangue como se ele fosse dengue. Trabalhe em dobro. Planeje. Antecipe, como se embarcasse em uma excursão para Marte, todas as possibilidades de erro, de falha, de defeito e de perda. Acredite no erro e multiplique o seu esforço para transformá-lo em acerto. A prevenção, vale enfatizar, não é filha do pessimismo. Ao contrário, é irmã de sangue do otimismo, porque trabalha para e pelo sucesso absoluto. Ao premeditar tudo o que pode dar errado, revisamos todos os processos, apertamos todas as porcas e parafusos para garantir que o avião vai decolar e aterrissar sem sustos. Só com uma leve turbulência.

Captura de Tela 2015-10-21 às 17.19.32

A vantagem desse ponto de vista é que mesmo quando dá errado, pode dar certo. Afinal, guarda-se na manga o plano de contingência para fazer o conserto antes de chegar na lua. É o plano B do plano B. Comprou um produto que encalhou? Não conseguiu encher a sala? Não vendeu todos os patrocínios e convites? Enquanto contabiliza o prejuízo, vai pensando como reverter as perdas. Procura um destino para o encalhe. Negocia uma revenda. Corta uma etapa. Economiza um transporte. Renegocia um pagamento. Só a letargia é proibida na vida daqueles que decidiram encarar o voo solo. Quer chorar? Chore, mas enxugue as lágrimas enquanto reage, retrabalha e refaz o planejamento do segundo round. Quer saber qual é música?

 

“Chorei, todos viram.

Sentiram pena de mim, não precisava

Ali onde eu chorei qualquer um chorava.

Dar a volta por cima que eu dei

Quero ver quem dava”

Boa sorte. Bom trabalho.

 

 

Tudo é mudança

“Tudo é mudança”, dizia Eurípedes, o poeta trágico grego. “Tudo cede o seu lugar e desaparece.” Eurípedes é o poeta da mudança. Deixou os deuses de lado. Escolheu tratar dos problemas triviais dos humanos, que no século V a.C viviam um momento de mudança de vida e de tradições na sociedade ateniense. Eurípedes mudou também o ponto de vista da tragédia. No lugar dos feitos e das vitórias, escolheu contar a história dos derrotados, dos vencidos e das mulheres, que nem eram consideradas parte da sociedade. Escreveu 95 peças. Só achou o sucesso pleno séculos depois da sua morte. Inspirou dramaturgos modernos como Racine, Goethe e Eugene O’Neil.

 

Eurípedes era caudaloso e recolhido. Morreu sozinho como viveu. Medeia é a peça dele que mais me impacta e impressiona. A história de uma mulher tomada de amor e ódio pelo marido. Ao ser traída, abandonada e rejeitada por ser estrangeira, rebela-se. Revolta-se. Vinga-se dele e do mundo masculino, matando os próprios filhos que ama profundamente. Fúria, morte, dor e mudança. “Deixe em paz meu coração, que ele é um ponte até aqui de mágoa e qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’água”, canta Medeia na peça Gota d’Água de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptada da tragédia grega.

 

Muita gente odeia mudar. Acha uma tragédia, digna de Medeia. Eu gosto. Antes de tudo, acho a palavra linda. MUDANÇA. No dicionário, a etimologia explica: radical de mudar + ança. Vem do latim. É sinonímia de deslocamento, modificação e variante. Antônimo de conservação. Faço também de uma leitura livre: Mu, um Deus, + Dança, um movimento, um deslocamento com ritmo, intenção e música. Mudança é um baile. Mudança é um baile permanente.

 

Vou mudar de novo. Agora, de casa. Em novembro, quando completo 50 anos, serão 18 mudanças de casa. Na média, dá uma troca de lar a cada 2, 7 anos. É bastante. Vou mudar porque sou conservadora. Vou mudar para manter meus planos em linha. Vou mudar para que tudo fique como está, como promete o príncipe Falconeri, personagem do livro O Leopardo de Giuseppe de Lampedusa.

 

Acredito nisso e por isso gosto de mudar. Dessa vez, no entanto, demorei a tomar a decisão. Precisei de um ano e de uma briga para decidir. Puxaram a minha orelha. Cobraram uma posição. Questionaram o meu discurso. Disseram que eu estava fazendo cortes cosméticos. Era verdade. A equação é simples. Aritmética, como 1 + 1 = 2. Vou sair do meu apartamento gigante e mudar para outro com a metade do tamanho. O benefício será reduzir 50% do custo do condomínio e contar com uma receita nova de um bom aluguel.

 

Por que não fiz isso antes? Autoindulgência. Gosto da minha casa grande com vista para a piscina do clube. Gosto da minha rua com ciclovia. Gosto dos meus móveis espalhados por uma sala de três ambientes. Preciso disso? Descobri, agora, que não. Descobri na semana retrasada, que ainda estava apegada a uma imagem e a um status quo que não mais me pertencem. Esse apego, considerando o planejamento orçamentário da ME Vida Sem Crachá S.A , poderia significar uma conta cara demais para pagar lá na frente, quando espero viver na sombra e com água fresca. Portanto, como diz o príncipe, mudo agora para não precisar mudar meus planos no futuro.

 

Doeu? Nada, por enquanto. Até meu filho, um virginiano apegado ao método e à bagunça organizada que ele produz, descobriu uma diversão na busca por uma nova casa. Nos sites das imobiliárias, imaginamos como seriam os proprietários daqueles apartamentos e mobílias. “Esse deve ser barroco, como eu”. “Aquele tem um péssimo gosto”. “Fulano deve ser um acumulador. Olha quanta tranqueira tem no quartinho de tranqueiras.” A proposta de mudança transformou-se em mais um exercício de encontro entre mãe e filho e agora brincamos e brigamos na disputa sobre quais móveis vão ou não para a nova casa. Já sei que vou acabar perdendo, o que é ótimo. Será mais uma mudança no meu histórico de jamais perder, mesmo que seja no par ou ímpar.

 

 

 

O bolo do sonho da Luciana, direto da Austrália

 

Não sei porque, mas a gente tem a mania de protelar os sonhos. Deixar para amanhã aquilo que poderia fazer ontem. Deixar para depois aquela vontade, aquele desejo mais profundo. Esperar um pouquinho mais. Adiar um segundo só, que acaba virando um minuto, uma hora, um dia, um mês, um ano, uma década, se bobear um século. Fiz isso muitas vezes. Vi amigos fazendo também. A minha geração era bundona. Tinha um apego danado ao mass midia, ao stabilishment, ao mainstream. Quando jovem, até sonhei em jogar tudo para cima e para o lado e mudar para a Europa. Viver na França e lavar prato. Por aqui, Sarney governava um país consumido pela inflação: 363% ao ano. Uma loucura. Um crise, que de tão profunda a gente achava até normal. Fui e voltei. Tinha cinco empregos quando parti. Ganhava 5000 dólares por mês (naquela época tudo era dolarizado), uma fortuna para um pirralha recém-formada de 21 anos. Meu sonho ficou no ar. Quem sabe aos 60, coloco em prática.

O projeto da Vida sem crachá não foi um sonho, mas uma contingência. Deu certo. Agora, a proposta da versão 2, a missão, é contar sonhos que viraram planos B e deram certo. Ou vão dar certo. Ou não. Tanto faz. O que importa é sonhar. A primeira história é da Luciana Rodrigues. Ela é gaúcha. Publicitária. Não é menina, nem representa a geração ypsilone, conhecida também como millenium. Lu tem 38 anos e sonha alto e longe.

Ela conta que até os 36 anos viveu “bela adormecida”. Sonhava mas não sabia direito com o que. Foi casada por 20 anos com homens diferentes, porque costumava engatar um relacionamento longo em outro mais longo ainda. O penúltimo, que durou 6 anos, terminou em 2012. Na sequência, emendou em outro que durou pouco, mas que segundo ela: “me acordou pra vida com um tapa na cara”.

Paft!!!!

“Hoje, olhando pra trás, tenho a sensação que até os meus 36 anos de vida eu dormi ou vivi num estado de semi consciência”, diz Luciana, definindo o seu modo stand by de viver.

A transformação/virada aconteceu, acreditem, nas férias. Luciana viajou em dezembro de 2013 para Sydney, na Austrália, para passar uma temporada de apenas 30 dias com o irmão, que mora lá há oito anos. Era gerente de marketing de uma grande companhia. Ganhava bem. Tinha prestígio. Futuro. Estava com o coração partido. Melhor, despedaçado. Tomara um pé na bunda daqueles. Vamos ouvi-la:

“Cheguei em Sidney no dia 30 de dezembro de 2013, às 21h30 depois de uma viagem longa e cheia de imprevistos. Virei o ano numa festa absurdamente maravilhosa na Ópera House, onde vi os fogos explodirem na Harbour Bridge num cenário de filme. Não sabia se chorava de emoção, de alegria ou se abraçava meu irmão e minha cunhada pra desejar Feliz Ano Novo. Passei o mês de janeiro de 2014 inteiro aqui em Sydney curtindo a cidade, as praias, a vida. Foi intenso. Foi decisivo.”

Captura de Tela 2015-10-02 às 00.19.37

As férias terminaram e Luciana voltou para o Brasil. Estava decidida. Em 3 de fevereiro, dia do seu aniversário, a executiva voltou ao trabalho e revelou à chefe sua decisão. Em um ano, deixaria a empresa para morar na Austrália. Ahh?

“Nunca antes na história da minha vida tinha planejado alguma coisa, tudo sempre foi acontecendo pra mim de um jeito ou de outro. Planejei minha mudança para a Austrália, coloquei tudo no papel, listei as razões pelas quais ia deixar minha boa vida em Porto Alegre e viria pra cá. O grande objetivo era me desafiar porque a vida na capital gaúcha era boa, mas era entediante. Meu trabalho, apesar de ser invejado por muitos, não me oferecia nenhuma oportunidade de crescimento à médio prazo. Eu queria mais, muito mais. Queria frio na barriga, medo, incerteza, desafios, queria saber os meus limites e quem eu sou de verdade. E achei que não iria conseguir esse pacote completo no Brasil. Então, comecei a executar o plano. Pra praticar mais o meu inglês, decidi virar hostess do CouchSurfing, um programa de hospedagem, e recebi muito gringo em casa. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Conheci muita gente legal, me conheci através deles e hoje tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Decidi também ser voluntária na Copa do Mundo e de novo, foi uma experiência incrível.”

Em paralelo às novas experiências, Luciana dedicou-se a juntar todo o dinheiro possível. Precisava comprar as passagens, pagar o curso e sobreviver. Não conseguiu ser transferida pela empresa onde trabalhava. Viajou com visto de estudante. Antes de embarcar, a necessidade de conseguir mais recursos gestou um plano B.

“Em setembro de 2014, percebi que precisava de mais dinheiro do que tinha e comecei a pirar. Tinha que arrumar essa grana. Poderia pedir para o meu pai, mas não quis. O plano e o sonho eram meus. Passei noites em claro tentando achar uma alternativa. Ela veio sem querer. Resolvi assar um bolo de chocolate para levar em uma reunião matutina na firma. Um bolo simples, mas bem gostoso.”

Bingo. Nascia ali um empreendimento. Todos os que provaram o bolo, amaram. Sugeriram que eu fizesse outros para vender. Estava ali a solução para os problemas de Luciana. Criou uma página no Facebook chamada O Bolo do Sonho para vender seus quitutes. Marqueteira, embalou a gula em sua história linda. “Contei que tinha um sonho de morar na Austrália e por isso, estava vendendo bolos pra arrecadar dinheiro. De outubro de 2014 a janeiro de 2015, vendi muitos bolos e consegui o dinheiro que faltava. Muita gente conhecida e desconhecida comprou meu bolo e apoiou a minha história. Pra cada um, eu escrevia um bilhetinho à mão agradecendo a ajuda. E cada vez que eu preparava um bolo encomendado por alguém que também tinha uma história, eu fechava meus olhos e colocava, além dos ingredientes, um pouco da minha energia, dos meus bons sentimentos. Essa era a parte legal: levar doçura e coisas positivas pras outras pessoas.”

Sherazade já sabia que uma história puxa outra e gentileza potencializa gentileza. Luciana chegou em Sydney em 25 de abril depois de ter pedido demissão da empresa onde trabalhou por 7 anos. Desembarcou com duas malas, onde colocou o que sobrou das suas coisas depois de ter vendido quase tudo. Desapego total. Sonho transfomado em realidade. Ela conta sua nova rotina:

“Hoje sou garçonete num restaurante italiano e arrumadeira num hotel, só ando de bicicleta pra cima e pra baixo e nunca mais usei um salto alto. Se eu sinto falta da vida corporativa? Às vezes, sim. Mas aprendo mais sobre a vida aqui, servindo mesas e limpando privadas, do que estava aprendendo sentada no escritório na frente de computador. Não tenho mais crachá e nem salário fixo. Tenho liberdade, tenho segurança e muitas oportunidades de me reinventar quando eu quiser. Tenho uma nova página, em branco, pra escrever todos os dias. E tenho um objetivo: conseguir um sponsor pra poder pedir o visto de residência permanente na Austrália. Quando esse dia chegar (e ele VAI chegar), vou escalar a Harbour Bridge. Meu último medo – o de altura – vai acabar ali. Essa é a minha história. Vou continua sonhando, planejando e realizando.”

O meu PE e a Lua de Sangue

Vi a lua de sangue pela primeira vez e ela mexeu comigo. Ela foi se transformando, se tingindo, minuto a minuto. Deixou de ser a luz doce dos namorados. Virou um símbolo de vida e de morte. De transformação. De relatividade. Saber que ela só se repetirá em 2033 e pensar que posso não mais estar aqui para vê-la, me deixou ainda mais reflexiva. Farei 50 anos daqui 30 e poucos dias. Que lua eu serei se reencontrar a Lua de Sangue? Que projetos terei feito? Que histórias terei contado? Darei conta de iluminar meu filho até a idade adulta? Darei conta de guiar meus pais até a luz eterna?

Essas e outras perguntas, ainda mais particulares, me acompanharam enquanto eu admirava a Lua de Sangue. Tive a chance de vê-la porque estava na minha Capela e a noite era clara, com pouquíssimas nuvens. Desligamos as luzes do jardim e da piscina e cada um foi achando o seu canto. Deitei em uma espreguiçadeira. No início, em companhia. Depois fiquei só. Eu a lua, o sangue e a música. Foi quando percebi que era momento de aproveitar o ensejo para planejar. Decidir o que eu quero fazer da vida até o próximo eclipse. Resolver que passos vou dar para, se chegar até lá, poder dizer, de novo, que valeu a pena.

Começo hoje, portanto, o meu Planejamento Estratégico da Lua de Sangue. Vou desenhar metas de curto, médio e longo prazo para tentar reencontrá-la em 2033. Começo hoje também a fase 2, a missão, do projeto A Vida Sem Crachá. A proposta é seguir contando histórias de transformação e de planos A, B, C e Z. Construir um abecedário de ideias que possam ser úteis e inspiradoras. Aproveito para, de cara, pedir ajuda. Tem uma história bacana, me conta. Conhece alguém que fez um triplo mortal carpado e mudou de vida? Me dá a pista, que vou atrás. Se tudo der certo, no ano 1 do meu PE da Lua de Sangue, lanço mais um livro da série A Vida Sem Crachá. Porque dá para viver sem ele, mas sem felicidade (e um pouco de dinheirinho) não.

Uma semana do trabalho de Deus

“Eu assistia às novelas da Globo, todas, para poder ver o Rio de Janeiro. Era apaixonado pela cidade, sua paisagem, sua história. Um dia decidi que ia partir.”

Estou comendo sozinha, tomando o café da manhã, quando ouço a conversa. Me interesso e presto atenção. José, 45 anos, fala com uma mulher sentada na mesa ao seu lado. Têm amigos em comum e estão no dia seguinte de uma feliz festa de casamento. À medida que fala, José se anima. Começa a discursar mais alto e levanta da cadeira. Impossível não prestar atenção. A história é incrível.

“Eu tinha apenas 20 anos e morava em Salvador. Briguei feio com a minha mãe, que não aceitava a ideia da minha aventura. Eu ia com um amigo para o Rio, apenas para conhecer a cidade. Fiquei amigo de uns motoristas de uma transportadora. A proposta era pegar uma carona. No dia de partir, meu amigo da onça deu para trás. Falou: “Zé, não vou mais”. Me retei. Como que ele destrói meu sonho do dia da largada? Juntei minhas coisas na mochila e fui sozinho para transportadora. Consegui uma carona até Governador Valadares, que é quase o meio do caminho.”

Nesta altura a conversa, José fala como se palestrasse em um TED. De pé, desenvolto, descreve as emoções com a mão. Faz pausas. Se emociona com seu próprio passado. “Nesta primeira parada, tratei de arrumar um jeito de comer. Estava morto, mas morto de fome. Tinha apenas uns trocados no bolso e o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa. Me aproximei de um grupo de caminhoneiros. Eles comem, muito, sabe? Sempre que sobrava comida, eles deixavam o prato para os cachorros. Não me fiz de rogado. Ficava ali rondando e roubava a boia dos cachorros.” José ri de sua fome. Toma, de pé mesmo, um gole de café e morde um sanduíche gordo de queijo e presunto. Parece estar se vingando daqueles dias difíceis.

“Eu precisava seguir em frente. Aceitei outra carona até Petrópolis. Pouco antes de chegar à Cidade Imperial, o motorista viu uma moça bonita na estrada, freou o caminhão e me mandou descer. Fiquei ali, parado, no meio no nada. Decidi seguir na rodovia. Fui descendo à pé. Andei bem uns 30 quilômetros. Sabe o que me salvou?”

A pergunta fica parada no ar. A plateia do café da manhã nem morde o pedaço de melancia para não estragar o clima. “Foi a desgraça alheia”, diz José. O baiano, hoje casado e pai de uma menina de oito anos, abraça as duas com carinho antes de continuar a conversa. “Aquela estrada é cheia de curvas. Estava andando quando vi um conversível a toda velocidade. Ele cortou a curva e não conseguiu voltar à pista. Seguiu reto para dentro do mato. A sorte do playboy é que naquele pedaço não tinha precipício. Corri perguntar se ele estava bem. Tinha apenas uns cortes. Pediu minha ajuda e eu dei.”

Graças ao Zé que ajudou-o a tirar o carro do matagal, o playba conseguiu seguir viagem. E foi justo e generoso. Levou o andarilho consigo. Zé fedia e tinha fome. Mas, maior do que esses dois tormentos era a vontade de chegar logo ao Rio. “Pedi para ele me deixar na rodoviária Novo Mundo. Ele ofereceu comida, ofereceu dormida e banho. Recusei. Só queria chegar. Descemos a serra voando. Ao estacionar na rodoviária, ele me deu uma nota de 5, não lembro mais qual era o dinheiro. Pude comer e tomar banho”.

Como milhares de migrantes, nos primeiros dias de capital, José fez da rodoviária seu pouso. Passeava pelas ruas de dia e dormia lá à noite. Dormir era fácil. Difícil era comer. Um dia, com o estômago fazendo passeata nas costas, ele se aproximou de um ambulante para ver se conseguia ajuda. “Me ofereci para fazer qualquer trabalho em troca de um lanche e um suco. O cara vendia frutas e fichas telefônicas. Pobre ainda usava orelhão. Celular era coisa de trilhardário. Ele me olhou de cima abaixo e falou: ‘toma aqui esse dinheiro. Cuida da banca para mim, que eu vou buscar mais mercadoria’. Me entregou o maço de notas e saiu. Não acreditei. Que maluco era aquele que confiava em um desconhecido com cara de faminto? Fiquei lá e vendi o máximo que pude. Precisava agradar. Precisava mostrar serviço.

Quando ele voltou com mais mercadoria, eu estava com o bolso cheio de dinheiro. Ele ficou feliz e me levou para a casa dele. No caminho perguntei porque ele havia confiado em mim. A resposta dele, senhor Amaro, é lição para mim.

“José, eu já vi de tudo nessa vida. Uma das coisas que aprendi cedo foi saber, à primeira vista, se a pessoa é honesta ou não. Estava e está escrito na sua cara que você é um homem honesto e trabalhador. Vamos para casa, comer e dormir.”

Zé se emociona quando relata essa passagem. Seu olhar transborda gratidão. Ele abraça novamente a filha e a mulher.

Curiosa, pergunto sobre os próximos capítulos. E ri. Faz outra pausa e conta. “Trabalhei com ele alguns meses, aproveitava minhas folgas e andava por toda a cidade. Conheci toda a zona Sul, Corcovado, Pão de Açúcar. Tudo à pé para não gastar dinheiro. Uma lindeza. Depois de um tempo, Amaro me indicou para um trabalho em uma padaria. Aprendi a fazer pães, a atender no balcão, a servir. Sempre fui bom de conversa. Lá conheci um cliente que foi com a minha cara e me indicou para trabalhar em uma empresa que explorava petróleo. Dá para imaginar? Eu, metido com o ouro negro? Comecei de baixo. Fui subindo, estudando muito, trabalhando duro. Em cinco anos, era técnico. Faz 18 anos que trabalho com isso. Ganho muito bem e nunca mais passei necessidade”, conta, agora transbordando orgulho. “Já fui dezenas de vezes para o Rio de Janeiro. Vou de avião. Me hospedo em hotel executivo. Atendo a Petrobras. E continuo achando que é a cidade mais linda do mundo.”

Antes de encerrar a conversa, peço licença para fazer uma pergunta. Ele aceita, de pronto.

“O senhor imaginava que havia tanta solidariedade no Rio de Janeiro?”

Ele para. Olha para o nada por alguns segundos e se entrega. “De verdade, não. Por isso essa aventura foi tão importante para mim. Mudou minha vida. Acredito no ser humano. Acredito na bondade. Acredito na generosidade. Assim como o Amaro também aprendi a separar o joio do trigo. Ando na rua sempre com algum dinheiro para ajudar quem está precisando. De longe eu vejo, analiso. É muito difícil eu errar. Ajudar o próximo é o mínimo que eu posso fazer para devolver ao Universo, a Deus, o bem que Me fizeram”, conclui. Toma mais um gole de café e pede licença. “A conversa foi boa, mas precisamos pegar a estrada. Foi um prazer.”

 

A música que toca na sala é do Gilberto Gil. Soa como a perfeita trilha sonora de um instante. Exemplar. Mágico.

 

A raça humana é

Uma semana

Do trabalho de deus

A raça humana é a ferida acesa

Uma beleza, uma podridão

O fogo eterno e a morte

A morte e a ressurreição

A raça humana é o cristal de lágrima

Da lavra da solidão

Da mina, cujo mapa

Traz na palma da mão

A raça humana risca, rabisca, pinta

A tinta, a lápis, carvão ou giz

O rosto da saudade

Que traz do gênesis

Dessa semana santa

Entre parênteses

Desse divino oásis

Da grande apoteose

Da perfeição divina

Na grande síntese

A raça humana é

Uma semana

Do trabalho de deus

A raça humana é

Uma semana

Bom dia.

 

O dia em que fiquei do ladinho da Kéfera

Você conhece Kéfera Buchmann? Eu não conhecia. Meu filho, Chico, de treze anos, me apresentou a ela. Um dia, pediu para ir ao shopping a fim de conseguir um autógrafo. Perguntei na minha ignorância, “autógrafo de quem? Ela é gringa?” Chico riu da minha burrice e explicou. Kéfera é curitibana, 22 anos, atriz, comediante e vlogueira. Ela tem há cinco anos um canal no Youtube com 5,6 MM de seguidores, que se chama 5incominutos. Kéfera é uma celebridade teen. Kéfera ganha dinheiro como gente grande graças aos views do canal, aos produtos que vende e aos patrocínios que tem. Chico não conseguiu o autógrafo porque 2 mil jovens tiveram o mesmo desejo e a moça foi embora do shopping escoltada por seguranças para protege-la de fãs enlouquecidas.

 

Chico vê todos os vídeos de Kéfera e morre de rir. Ela usa óculos, é bonitinha mas não é uma deusa. Kéfera ganha a audiência não pela aparência, mas pela piada e pela voz. Ela fala, fala e fala. Fala até a gente ficar tonto. Também brinca com os muitos animais de estimação que tem. Ela os aperta tanto que parecem ser de pelúcia. Kéfera também zoa a própria mãe, dona Zeiva. Tenta ser engraçada. Tenta ser irônica. Tenta ser criativa. Sei que sou velha porque não consigo achar graça.

 

Chico ri de mim e dela. Os vídeos têm em média 14 minutos. Ela posta duas vezes por semana, terça e sábado, e faz um ao vivo a cada sete dias. É craque na web, tanto que já deu dicas de como ganhar dinheiro no mundo digital para a revista Exame. Kéfera trabalha para caramba e, nesse aspecto, eu a admiro muito. Kéfera é atriz e tem uma peça em cartaz, que lota de adolescentes a cada sessão. Kéfera escreveu um livro e, claro, está na lista dos mais vendidos.

 

Foi na livraria da Vila, em Pinheiros, bairro de São Paulo, que nossos destinos se encontraram. Chico esteve lá e, como bom filho que é, foi procurar meu livro nos balcões centrais. Ele sabe que livro precisa estar lá para vender. É o tal do efeito Tostines. Vende mais porque é mais fresquinho, é mais fresquinho porque vende mais. E não é que eu estou pongando na Kéfera. Para os não baianos, legenda: pongar significa se pendurar, pegar carona, se aproveitar do dinheiro, dos privilégios e da fama de outrem. Estou pongando na Kéfera, porque os livreiros colocaram o meu livrinho ao lado do best seller dela. Cinco minutos de Kéfera dando colher de chá para o meu A Vida Sem Crachá.

 

Chico ficou exultante e me mandou a foto. Eu logo imaginei a cena. Pai ou mãe em transição de carreira – o novo eufemismo para desempregado – vai com a filha adolescente à livraria. Precisam comprar um alfarrábio pedido pela escola, mas o desejo da garota é o livro da Kéfera. Negociam uma nota dez na prova de matemática e a menina leva Fogo Morte e Cinco Minutos de Kéfera para casa. O pai, chateado, decide que também merece um agrado. Olha para a direita e encontra A Vida Sem Crachá propondo uma volta por cima e um plano B de frente para o mar. É irresistível. Eu compraria. E você? Brincadeiras à parte, será que a Kéfera vai me ajudar a vender livros?

O jornalismo e a voz rouca e raivosa da ruas

Captura de Tela 2015-09-01 às 20.40.25

O jornalismo e a voz rouca e raivosa das ruas

 

Estou trabalhando nas redes sociais e encontro a notícia que o grupo Globo no Rio de Janeiro escolheu o último dia de agosto, mês do cachorro louco, para fazer um massacre da serra elétrica em suas redações. Mais jornalistas e mais profissionais afins da indústria da comunicação demitidos, no olho da rua. Mais um capítulo (triste) da falência e reestruturação de um modelo de negócio, que já foi muito rentável no Brasil. Aqui abro um parênteses irrelevante mas irresistível: por alguns anos, grupos de mídia impressa contaram com marcas e produtos com mais de 20% de rentabilidade, um feito até para os colegas norte-americanos. Alguns gringos, à época, perdiam a vergonha e perguntavam: “como vocês conseguem?”

 

Como estou trabalhando nas redes sociais, fico curiosa e desço o cursor para ler o que as pessoas estão comentando sobre o infortúnio de mais de uma centena de famílias. A voz rouca das ruas é rouca. Furiosa. Barulhenta. Raivosa. Ela destila ódio e ignorância. Ela mistura paixões políticas com sindicalismo do século XIX. Ela regurgita rancor. Há quem escreva: “Bem feito! Vocês (jornalistas) com sua opinião cavaram sua própria cova”. Fico com medo e paro de ler. Fico pessimista. Respiro.

 

Respiro de novo. Fico otimista. A minha bipolaridade tem uma razão. Acredito que a indústria da comunicação está vivendo um momento de transição. Do estado sólido para o gasoso. É uma mudança grande e consistente, porque o modelo de negócio está falindo. A publicidade e os leitores não pagam mais a conta dos veículos impressos. A publicidade e os telespectadores estão enxugando a conta dos canais de televisão abertos. Os meios e os modos de produção estão mudando. Na minha modesta opinião, não existirão mais os impérios da comunicação como conhecemos no passado, porque não existirá dinheiro em quantidade suficiente para sustentá-los. Existirão produtores de conteúdo interessante, independente e relevante que distribuirão seus vídeos, textos, fotos por diferentes canais. A remuneração será direta, vinda da audiência e de patrocinadores. Dinheiro curto, insuficiente para pagar grandes estruturas e mordomias. Milhões só virão quando a audiência for de bilhões.

 

Na minha modesta opinião, o jornalismo e os jornalistas sempre terão o seu lugar no mundo, à despeito da voz rouca e ruidosa da ruas. A razão é simples. Quem não é rouco nem raivoso, como eu e você, precisará sempre de três coisas: boas histórias, boas reportagens e boa análise. Jornalistas experientes, honestos e dedicados fazem isso como ninguém. Em um formato e modelo de negócio que ainda não está estabilizado, esse serviço será oferecido e remunerado. A má notícia para nós, jornalistas, é que voltaremos a ganhar mal como no século passado e retrasado, quando comecei nessa profissão.

Qual é a sua autoindulgência?

Fui militante. Sou militante. As causas são diferentes. As causas, no fundo, são as mesmas. Porque eu mudei e fiquei igual. Bem daquele jeito que dizia Giuseppe Lampeduza no livro O Leopardo (o filme do Visconti é a mais bela versão de livro em película que já vi). Há 35 anos, minha causa era a justiça social, uma causa brotada na Revolução Francesa, à base de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. À época, chamava-se socialismo.
Hoje, minha causa é a justiça social, a igualdade de gênero e raça, o consumo consciente e a mobilidade urbana. Não tem mais nome, porque os políticos conseguiram acabar com os ismos do meu tempo. Mas o desejo é o mesmo, só que fragmentado em capítulos para termos a impressão de que um dia vamos dar conta de pelo menos um deles.
Hoje falei sobre consumo consciente em uma palestra na Casa TPM (um evento lindo, criado para as leitoras e fãs da marca, que acontece no Clube Nacional, em São Paulo. A boa notícia é que no passado o clube era proibido para mulheres e hoje éramos maioria por lá). Este assunto me é caro. Depois que perdi o crachá precisei rever todas as minhas muitas contas e mudar o meu padrão de consumo. Vendi carro, celular, cancelei pacote plus de canal a cabo, cortei restaurante estrelado da minha vida, deixei de comprar roupa, parei de desperdiçar comida e passei a cuidar com atenção e carinho de cada tostão.
É difícil ? Não. É sofrido? Não. É complicado? Para mim, não. Friso o pronome pessoal.
Para mim não é difícil, nem sofrido ou complicado porque minha autoindulgência nunca, jamais, em tempo algum se deu pelo consumo. Não coleciono joias, bolsas ou sapatos. Depois que perdi do emprego, trabalho em casa ou na minha pousada (www.pousadaacapela.com.br) de bermuda, camiseta e havaianas. Sou feliz assim, às vezes, parecendo um molambo. O que tenho pendurado no armário dá para três encarnações.
Sei, no entanto, que muitas pessoas sentem muito prazer ao fazer compras. Elas se dão carinho, se agradam com o cartão de crédito em mãos. Entendo que para elas é difícil mudar de hábito. É tão violento e disruptivo como parar de fumar. Ou deixar de beber. Ou banir a carne ou o doce do cardápio. É uma escolha. Pessoal e intransferível. Acho que vale a pena, especialmente para aqueles que perderam renda e precisam colocar as contas em dia. Deixar de gastar, permitirá mais fôlego para seguir procurando uma nova ocupação ou uma nova fonte de renda. Com o movimento, a autoindulgência da semana pode ser tirar uma tarde de folga. Ficar de papo para o ar no parque. Ler um livro. Andar de bike pela cidade. Brincar com o filho depois da escola. Namorar. Assistir aquele DVD esquecido debaixo da poeira. Faço isso de vez em quando e é bom demais.