A noite em que perdi o medo

Gente espelho de estrelas,
Reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas,
Só mesmo o amor
Maurício, Lucila, Gildásio,
Ivonete, Agripino,
Gracinha, Zezé
Gente espelho da vida,
Doce mistério

Caetano Veloso

Nos filmes de Hollywood e nas novelas de TV, quando um personagem está prestes a morrer, costuma ter flashback. Em uma edição nervosa, cenas da vida se sucedem trazendo ritmo e emoção para os instantes finais. Daí, bum. O avião cai. O carro explode. A bala atinge o peito e morte. Eu não morri. Nem tive medo. Só antes. Mas assisti um flashback lindo da minha vida na última terça-feira, 25 de agosto. Vou contar porque muita gente que não pode ir, mas entendeu o sentimento que a falta de experiência me trazia, perguntou como havia sido o encontro de lançamento do meu livro. Foi lindo. Foi maravilhoso. Foi divino, maravilhoso para citar outra música do Caetano Veloso.
Eu não fiquei lá sozinha, como temia. Ao contrário, quando cheguei já havia amigos me esperando. A mesa já estava arrumada, com banner, copo de água e um livro bem exposto. Abracei todo mundo e não fiz doce para começar meu trabalho. Ainda bem. A fila começou às 18h15 quando cheguei e terminou às 22, quando a livraria Cultura fechou. Se tivesse enrolado, teria perdido abraços apertados, autógrafos e lembranças. Cada um que ali chegou trouxe para mim, além do carinho e da atenção, memórias especiais da minha vida com e sem crachá. Colegas de colégio, como a Roberta e a Fernanda, amigas do tempo em que usávamos saia xadrez e mocassin preto com meia branca e sonhávamos com um futuro longínquo e distante. “Como será que seremos no ano 2000?” era uma pergunta tão recorrente quanto “como será que é bom beijar na boca?”
Na fila, esperando pacientemente, também estavam amigos de uma vida, nascidos na quadra de tênis, na faculdade, nos tempos loucos de farra, de política e de ideais. Malu, Georgia, Leila, GG, Giba, Carlinhos, Lina, Clau, Laerte e Silvio, pai do meu filho e companheiro de uma vida. Juro que tentei ser rápida e caprichosa nas dedicatórias. Valorizar os detalhes e a presença. No meio da fila, tudo junto e misturado, colegas dos muitos trabalhos que tive. Novos amigos, clientes da Pousada e leitores do blog e Facebook também vieram me prestigiar, o que me deu uma alegria imensa. Com cada um, muitas histórias e memórias. Foi lindo. Foi emocionante. Foi muito intenso. Antes das 21 horas, a tinta da caneta da Irmã Dulce acabou. Acho que já tinha escrito umas 180 dedicatórias para pessoas, que foram importantíssimas na minha vida. Algumas mudaram, sem querer, o meu destino ao me colocar em projetos, em viagens ou ao me apresentar novos amigos.
Para terminar o expediente, meus pais me emprestaram uma Cross dourada, daquelas de coleção. Juro não saber onde a enfiei no final, tamanha a embriaguez de felicidade que vivi. Matei a saudade de um bocado de gente e me senti como se fosse uma noiva no dia do casamento. Estava lá de véu e grinalda e não podia deixar de cumprir minha função. Sei que perdi boas conversas durante a festa. Da minha mesa, notei que teve gente que entrou várias vezes na fila para poder bater papo com o amigo que chegou mais tarde. Achei que era um bom sinal, até a espera estava divertida.

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Às 22 horas, não virei abóbora mas assinei o último livro. Foram 250, segundo a contabilidade do meu filho, apurada junto aos rapazes do caixa. Segundo eles, vendi bem. Mais e melhor que muito autor famoso. Chico se revelou um ótimo agente. Recebeu, conversou, tirou fotos e no final, apesar da hora, aguentou a saideira no Ritz. Antes, porém, meus amigos mais próximos e presentes, aqueles que fazem parte de grupo de zapzap, aprontaram comigo, no melhor sentido da palavra. Me aplaudiram de pé, como se eu merecesse. De novo, foi lindo. Foi emocionante. De longe, vi meu pai se debulhando em lágrimas e minha mãe exultante. A noite terminava, encerrando um ciclo de mudança e transformação para todos nós.

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Aprendi a viver sem crachá. Perdi o medo de ficar só em minhas festas. Confirmei que estava certa, certíssima em defender a amizade acima de todas as coisas. Agora, só posso terminar esse texto com uma palavra: OBRIGADA.

Eu acredito

EU ACREDITO
Descobri que acredito assim, com letra maiúscula, ontem na hora do almoço. Estava em família, o que é raro porque normalmente trabalho aos domingos. Minha mãe, a mulher mais fina, elegante e devota do mundo, olhou para mim e disse:

– Filha, lembra do quadro do São Jorge que você comprou para mim na Bahia?

Fiz que sim com os olhos e ela continuou, meio sem graça, dando a entender que faria uma revelação.

– Então, nesta semana ele sorriu para mim.

Minha mãe tem 72 anos. É fina, elegante, muito culta e bem informada. Não frequenta a igreja com regularidade mas é católica. Gosta do papa Francisco, reza diariamente e conhece todos os santos. Tem os seus preferidos, como santa Rita, santa Clara, Irmã Dulce e São Francisco. Há um ano, “descobriu” São Jorge por causa do neto caçula, que nasceu em 23 de abril.

– “Mãe, eu acredito que ele sorriu para você”, devolvi.

A minha resposta sincera tirou-a do prumo. Ela estava preparada para defender sua revelação com unhas e dentes e, inclusive, ser ridicularizada por estar dizendo aquilo.

– “Verdade, filha. Ele sorriu para mim…”, ela enfatizou, agora acreditando que eu também acreditava.
– “Mãe, você mereceu esse sorriso”, respondi. “Vou à sua casa. Será que ele também sorrirá para mim?”

Em tempo: eu acredito em Deus e que Ele ajuda quem cedo madruga. Acredito em Nossa Senhora, todas e em especial a de Aparecida, a nossa. Acredito na gentileza que gera gentileza. Acredito na gratidão, na amizade, na bondade e no perdão. Acredito na Ressureição. Acredito em anjos que sopram ideias nos ouvidos da gente e que derrubam quadros quando querem chamar a nossa atenção. Enfim, eu ACREDITO.

 

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A falta que a experiência faz

Nasci no dia 2 de novembro. Finados. Dia dos Mortos. Feriado. Quando eu era criança, era uma data triste. As famílias, inclusive a minha, iam ao cemitério em cortejo lembrar e chorar seus mortos. Era nobre. Era digno. Era emocionante. Mas eu queria festa, farra e presente. Queria alegria. Pique-pique. Bolo, Coca-cola e coxinha. Não tinha, porque não havia clima e porque muitos amigos viajavam logo depois da visita ao cemitério, já que sempre era feriado. Tiro essas memórias do baú para falar de experiência. E da falta dela. E do medo absurdo que tenho de ficar sozinha nas minhas festas ou eventos, como por exemplo a próxima terça-feira, dia 25, data do lançamento do meu livro.

Sempre que organizo uma festa, sofro loucamente. É um paradoxo, porque adoro fazer e organizar festas e eventos. Já fiz algumas antológicas e gigantes. O meu sofrimento é psiquiátrico, eu sei. Ele está relacionado ao medo patológico que tenho de que ninguém virá. Pode ser o meu aniversário ou um grande prêmio da televisão brasileira. Pode acontecer na sala da minha casa ou no Golden Room do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Não importa. A paura e o descontrole são iguais. Horas antes de começar, tenho todos os sintomas. Dor de barriga, suor, nervoso, ansiedade, falta de ar e descontrole. Fico pálida. Trêmula. Caquética. Me xingo por ter inventado moda e entrado naquela roubada.

É irracional, eu sei. Como sou pragmática, pesquisei e encontrei um motivo, uma razão para esse sentimento. Descobri que ele é fruto da minha falta de experiência em ter e fazer festa de aniversário. Uma deficiência iniciada na infância, que não consertei na adolescência nem na idade adulta. Comecei a festejar minha nova idade depois dos 40, quando criei coragem de enfrentar esse medo. Farei 50 em novembro, me falta experiência e aprendizado.

Quem nunca fez, não sabe se sabe fazer. Nem se sabe fazer certo. A experiência e a repetição vão, com o tempo, tranquilizando a gente. Por isso, os grandes empreendedores costumam errar, fracassar, abrir e fechar negócios. Sem cerimônia. Sem pudor. A tal da experiência e do conhecimento advindos da tentativa e erro. Eles têm uma média de cinco erros para um acerto!!! Assustador. Quer saber porque eles não se abalam nem cortam os pulsos? Porque têm experiência em empreender e sabem colocar os pingos nos “is”. Quando um EMPREENDEDOR maiúsculo fecha uma empresa, ele entende que o erro estava no negócio e não nele. Ele não fracassa, ganha experiência. Quem fracassa é o negócio. E mais. Ele entende que aquela experiência de erro e de fracasso será fundamental para próxima empreitada, que, portanto, nascerá com uma probabilidade maior de vingar e ser um sucesso.

Quem não tem experiência, como eu, olha para essa equação e duvida. Afinal, lançar-se ao mar com um projeto novo e vê-lo naufragar parece o ensaio do fim do mundo. A morte. Acordei pensando nisso hoje. Dia 25 de agosto, um ano depois de perder o crachá, lanço o meu livro. É o meu plano B virar escritora, palestrante e consultora. Se não emplacar, o que eu faço depois? Pensei, cogitei uma lista e decidi. Vou escrever um novo livro, outro e mais outro até o meu contrato comigo mesma acabar (tenho mais quatro anos e meio de pró-labore garantidos) e a vontade de escrever passar. Decidi experimentar, experimentar e experimentar. Aprender na marra, como os grandes. Sem medo de errar ou fracassar.

Essa tomada de decisão matutina, cheia de coragem e furor, não quitaram o meu temor original. Acordo e durmo pensando na possibilidade de ficar ali sozinha no primeiro andar da livraria Cultura, esperando os amigos e os leitores chegarem para comprar um livro e pedir um autógrafo. Fico imaginando o constrangimento dos vendedores, sem saber o que fazer com a pilha empoeirada e, principalmente da vergonha alheia dos amigos presentes tentando achar uma rota de fuga. “Desculpe, preciso ir embora, porque tenho um velório para ir”. A previsão do tempo diz que vai chover, o que já é uma desculpa para a fila pequena e sala vazia. Na dúvida, talvez, valha a pena contratar uma caravana de estudantes, como aquelas que iam no programa de auditório no Silvio Santos na minha infância. Se não tenho experiência, posso aprender com a dele.

O medo de perder o emprego

Tive um pesadelo. Sonhei que estava com um medo absurdo de perder o emprego. Paura mesmo. No sonho, ia para o escritório e discutia com os colegas estratégias para reverter o resultado ruim. Planejava cortes profundos de custo. Propunha novos negócios. Falava com Deus e o mundo para melhorar as coisas. Tentava impressionar meus pares, meu chefe e o acionista. Era um sufoco. A cada toque do telefone, um arrepio na espinha. Será que vou dançar? Chegou a hora?

Ler os sinais virou outra doença. Qualquer coisa banal virava um motivo. Cruzava com alguém no corredor, o ser humano não dava bom dia, eu pensava: “Será que ele sabe de alguma coisa?” Alguém não aceitava o meu convite para tomar um café. Já vinha o mau pensamento embolado no sonho: “Ele está fugindo de mim?”

Em meu pesadelo, repetia uma série de comportamentos que vejo e ouço por aí. Quando acordei, o alívio. Eu não seria demitida. Como assim? Sim, eu não seria porque já fui demitida. Não tenho emprego, nem crachá há quase um ano. Decidi me autocontratar para escrever. Escolhi me dedicar à gestão da minha pousada. Estou abrindo, como plano B e C, novas frentes de trabalho. Sem pátria, nem patrão.

A descoberta – você não pode ser demitida porque já foi — acabou com a minha sonolência. O alívio transformou-se em reflexão freudiana. Por que o meu inconsciente repetiu, um ano depois, o filme do medo de perder o emprego? Jung, talvez, diria que o inconsciente coletivo tem participação nisso. Recebo mensagens diuturnas sobre esse temor.

Converso com amigos e ouço histórias às vezes cômicas sobre o pânico que se instalou nas empresas. Uma amiga quase enfartou há 20 dias quando a chefe chamou-a para um almoço. O almoço não deu certo. A conversa foi adiada, adiada, adiada. Ela surtou. Passou o dia em pane, certa de que estava no olho da rua. No fim, não estava. Havia sido promovida. Mas a aflição era tanta que nem comemorou o novo cargo. Apenas festejou a manutenção contracheque.

O medo de perder o emprego é ancestral. Emprego é uma das formas primárias de vender algo – a força de trabalho – em troca de dinheiro. Em tempos de crise, o medo se torna epidêmico, patológico e coletivo. Faz sentido. Temer ficar sem sustento é racional e normal, especialmente quando não se tem reservas, casa própria, currículo e, principalmente, plano B. O desemprego amedronta. A falta de dinheiro gera perdas, brigas e conflitos. No limite, a expressão olho da rua pode ser literal. Perder o emprego, a casa, a família e o juízo como aconteceu com o casal da rua 14, personagens de uma história que contei.

Mas isso, perder tudo e virar sem teto, pode mesmo acontecer com você? Será que, às vezes, o nosso medo não fica maior do que o perigo? Será que exageramos por que o que está em jogo não é somente o dinheiro no final do mês? Decodificando o meu pesadelo, percebo que o pânico de perder o emprego, muitas vezes, extrapola a racionalidade, a necessidade e a sobrevivência. Ele pode estar relacionado a sentimentos mais profundos e escuros de perda, de dispensa, de rejeição. Isso acontece quando o emprego se transforma em razão e mote para a vida. E, agora, definitivamente não estou falando do contracheque.

Em meu pesadelo, eu revivia o pânico de ser rejeitada, de não ser eficiente e necessária. De ser descartável. Também sentia medo de perder algo querido. Tipo um amor, um companheiro, um amigo. Tipo um pedaço da minha vida. Quase doze meses depois de ser demitida de verdade, de ter mudado de vida e ter iniciado um novo tipo e formato de trabalho, o pesadelo significou um olhar pelo retrovisor para aquela pessoa que fui.

Eu era dedicada, era obcecada, era abduzida pelo meu emprego. Trabalhava para a empresa como se ela fosse minha. Por que fazia isso? Porque, no meu inconsciente, achava que ela fosse minha mesmo. Por falta de educação empreendedora, por falta de história de empreendedorismo na minha família, formada por funcionários e profissionais liberais, não sabia que podia viver por minha própria conta.

Precisava de um contracheque e de um crachá. Precisava de apoio, de certeza e de segurança. Precisava de pai, de mãe e de babá. Acho que cresci nos últimos 358 dias. Já estou indo para a escola sozinha. É um bom começo. Quer saber se eu ainda tenho medo? Claro que sim. Os maiores são de ladrão, de escuro, de hiperinflação, de montanha russa e, o mais recente, é de ficar sozinha na livraria na noite do lançamento do meu livro.

Meus amigos são a minha cauda longa

 

Hoje recebi um zilhão de mensagens carinhosas de pessoas queridas comemorando o dia do amigo. Sou chata e odeio essas datas. A que eu mais detesto é o dia da Mulher, que me lembra que eu sou igual ao Mico Leão Dourado em termos de fraqueza e fragilidade políticas, apesar de pertencer ao gênero mais populoso do mundo. Hoje passei o dia pensando sobre o significado de “cauda longa”, o tal do mercado diversificado e de nichos, e de como só pensei em ter uma quando a necessidade falou mais alto. Agora, a poucos minutos de amanhã, tive uma luz. Melhor, vi uma luz. Os amigos foram e são a minha cauda longa, sempre. Vou explicar.

Vamos aos fatos. A pousada A Capela, meu dileto plano A, inaugurou há dois anos e meio com 100% de ocupação graças à reserva de amigos, que serviram de apoio e esteio e foram legítimas cobaias. João, Georgia, Vanessa, Juju, Patrícia e Cida sobreviveram a nossa inexperiência e nos ajudaram a melhorar muito. Eram queridos. Eram nichados. Depois deles, vieram mil outros. São carinhosos, verdadeiros e inspiradores. Perdoam nossas falhas. Colaboram com críticas e ajudam ao compartilhar a experiência da nossa hospedagem. Estão por perto sempre no inverno, primavera, verão e outono. Sem eles não haveria nem plano A, B ou C.

Falo disso no meu livro A Vida Sem Crachá, editado pelos também amicíssimos Carol e Kaíke, a ser lançado no dia 25 de agosto na livraria do Shopping Iguatemi de São Paulo, e que dependerá dos amigos para entrar na lista dos mais vendidos. Preciso de todos para superar o medo e o trauma de ficar lá sozinha.

Hoje, no dia do amigo, fechei o meu primeiro trabalho de consultoria em gestão de pousadas. A cliente é uma amiga de mais de 30 anos, Lina, que está acreditando nessa minha nova competência. Sem ela, a cauda longa da minha vida sem crachá seguiria um cotoco. A mesma motivação vem do amigo Nélio, outro companheiro de longa data, que está batalhando por uma palestra em BH para esticar os tentáculos dessa que vos escreve. Consultora e palestrante são a minha cauda particular.

O rabo comprido e vistoso também é um desejo da pousada. Graças a sugestão da minha amiga e sócia Nil, começamos hoje a fazer serviço de transfer do aeroporto para a pousada. E da pousada para o aeroporto. Em breve, teremos um cardápio que incluirá passeio de barco, aluguel de carro e buggy e serviço de massagem e manicure para os hóspedes. Mais moedas no caixa. Mais atenção e dedicação aos clientes.

Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito. Com a ajuda dos meus amigos fotógrafos, Camila, Nellie, André, Fábio e Sérgio, vou reaprender a fotografar no modo digital a partir deste segundo semestre. O foco é, novamente, a cauda longa. Desejo fotografar para os casamentos da pousada a partir de 2016. Um desafio e tanto. Um aprendizado do tamanho do mundo para quem começou a clicar com negativo e cromo e fez um milhar de passageiros. O que é fazer passageiro? Quem tem mais de 45 sabe.

A dois minutos do final do dia do amigo, concluo essa pensata com um verso do Mário Quintana mais popular que chuchu na serra das redes sociais e mais verdadeiro do que a certeza de que me chamo Claudia:

“amizade é amor que nunca morre”.

Já perdi amigos por causa da distância e de mal-entendidos, mas continuo amando-os como ontem. Meus amigos são a cauda que abana de felicidade e prosperidade a minha vida. Obrigada, amigos.

A minha primeira paixão

Hoje meu dia foi, verdadeiramente, descrachado. Acordei cedíssimo e cumpri todas as minhas obrigações. Tirei o atraso. Adiantei o serviço. Respondi e-mails, vendi diárias e resolvi pendências. Em quatro horas de expediente matutino, havia ganho meu dia. Sem lenço, sem documento, no sol de quase agosto, fui passear. De barco, na baía de Todos os Santos. Aprendi a desfrutar consciente e sem culpa.

Na frente do Forte São Marcelo, que fica defronte ao Elevador Lacerda, tem um posto de gasolina naval. Enquanto o frentista enchia o tanque da embarcação, a visão dos arcos transformados em residência, cada um, uma casa, cada casa de uma cor, me fizeram viajar no tempo.

Me afundei em minha memória. 16 de julho de 1982. Eu tinha 16 anos. Perdi uma viagem para Machu Pichu e ganhei, de consolação, uma excursão rodoviária de doze dias, Soletur, pelas cidades históricas mineiras e pelo litoral brasileiro, de Vitória a Salvador. De Salvador ao Rio de Janeiro. Viajei sozinha. Meus amigos estavam no lago Titicaca tomando chá de coca.

Não foi ruim viajar só. Dividi o quarto com uma bancária carioca. Esqueci o nome dela, mas não sua feição. Era ruiva, usava óculos e manequim 44. Baixa, gordinha e simpática. Não tinha namorado, mas não havia perdido as esperanças. Pediu a Santo Antônio em todas as igrejas nas quais o santo se fez presente.

Por coincidência, eu estava ao lado dela, quando o ferry boat vindo da Ilha de Itaparica foi se aproximando da costa de Salvador. Era final de tarde. A luz era doce. A balsa navegava lentamente e a visão tornava-se mais nítida a cada milha naútica. Enfim, vi e entendi o que era a tal Cidade Baixa e Cidade Alta que eu lia nos livros de Jorge. Do mar, ela era ainda mais bonita e misteriosa do que eu imaginara.

Antes de seguir, preciso falar sobre o título. Botei primeira paixão porque título tem que ser direto e vendedor. Na verdade, não consigo hierarquizar esse sentimento. Não sei se a primeira paixão da minha vida adulta foi Salvador ou Jorge Amado. Talvez Salvador seja a segunda e colateral. Antes de visitar a cidade, eu a conheci e a percorri lendo Amado. Imaginava as ruas, vielas, ladeiras, igrejas, bares, praias, bibocas, favelas, cortiços, casarões, sacristias, Campos Santos, altares, avenidas e praças. Sentia os sons, odores e sabores e, criança, imaginava que poderia cruzar com meus personagens favoritos caminhando pelas ruas.

Daquela vez, não conheci ninguém mas me perdi para sempre. A cidade me arrebatou. Cedi aos seus encantos óbvios e também aos mais sutis e invisíveis. Tive medo e tentei fugir. Não teve jeito. Um ano depois daquela primeira visão, lá estava eu de volta. Dessa vez para conhecer pessoas que marcaram minha vida. No ano seguinte, de novo. Em cada retorno, mais paixão, mais tesão, mais encontro.

No final dos anos de 1990, depois de visitar Jorge Amado, já doente, fazer um perfil com Tieta/Sonia Braga nas ruas da cidade e compartilhar à mesa e o morro da Paciência com o ídolo Caetano Veloso, o destino me levou para longe. Fiquei 10 anos sem voltar. Sem estabelecer contato. Sem sentir desejo. A Bahia ficou guardada na minha caixinha de pandora do bem. Bem trancada. Bem escondida.

Olhando os arcos de casas, uma do lado da outra, uma de cada cor, pensei sobre a vida e o destino. Será que maktub estava escrito? Será que era mesmo inexorável eu me encontrar hoje, 35 anos depois, na mesma baía, fascinada pelos mesmos arcos? Será que teria sido diferente se eu tivesse me mudado para Berlim?

Na falta de uma resposta, lembrei da canção Cajuína de Caetano, que coincidência, apareceu em um site, pouco antes de eu começar a escrever, de cuecas ao lado da Carla Perez e do Xandy*.

Existirmos: a que será que se destina?

Pois quando tu me deste a rosa pequenina

Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina

Do menino infeliz não se nos ilumina

Tampouco turva-se a lágrima nordestina

Apenas a matéria vida era tão fina

E éramos olharmo-nos intacta retina

A cajuína cristalina em Teresina

 

Depois da música e antes do ponto final, aproveito para dizer que sou fã do Xandy e que sempre fui tratada com muito carinho pelo casal.

 

 

Sem crise, sem inflação e com desconto

Entendo quase nada de economia. Fui ao google buscar uma definição de economia sustentável para checar se aquilo que eu pretendia contar era isso ou não. Encontrar alguns definições. A maioria pouco objetiva e nada sucinta. A mais direta foi: “a economia sustentável respeita os princípios da ecologia”. Fiquei satisfeita.

 

Nunca comprei créditos de carbono, mas acho que posso me considerar economicamente sustentável. Não tenho dívidas. Não desperdiço. Não compro supérfluos. Capto água da chuva e de poço artesiano. Produzo energia solar. Reciclo lixo. Não tenho carro. Ando de bicicleta e de transporte público – inclusos táxi e avião. Cuido da minha família, amo meus amigos e meus bichos. Tomo sol todos os dias. Não tomo remédio todos os dias. Não sou vegan, mas como alface e peixe em maior proporção do que como picanha.

 

Pensei sobre isso tudo hoje de manhã enquanto caminhava. Era uma caminhada sustentável também. Meu objetivo um era gastar calorias. Meu objetivo dois, pagar contas. Isso mesmo, aqui no meu ecossistema arembepiano, uma vez por mês, visitamos todos os lojistas que nos fornecem comida para gente e cachorro, bebida, remédios, material de construção, jornal e revistas para acertar nossas contas. Aqui ainda vivemos à base da conta no caderno, como a mercearia da dona Dulce da minha infância no bairro de Pinheiros, em São Paulo. O fluxo de caixa é simples assim. Vamos comprando e uma vez por mês pagamos tudo. Sem acréscimo e, às vezes, com desconto. Isso mesmo. Conforme o tamanho da conta e o modo de pagamento, no final rola um abatimento. Hoje na peixaria, por exemplo, o peixe vermelho baixou de 30 para 25 reais porque compramos dez deles. O rabo de lagosta também ficou mais amigo por causa da quantidade.

 

A mesma negociação acontece na distribuidora de cerveja, refri e água. A dona, que não sei o nome mas a quem chamo de “querida” e ela me retribuiu com um “loira”, é jovem e ultraempreendedora. Abriu o negócio há nove meses e já dobrou de tamanho, comprou camionete para fazer entrega, gratuita, em domicílio e triplicou a quantidade de itens à venda. Evangélica, preza os princípios de Lutero e Calvino no que diz respeito à livre iniciativa e ao lucro. Não tem preconceito. Nem liga para o que diz o pastor Malafaia. Vende para católico, gente do candomblé e todas as vertentes de GLTBs que existem. Vive ao largo da crise e da inflação. É um azougue na hora de negociar. “Cliente bom compra mais e paga menos. Como não tenho preguiça de trabalhar, ganho o meu na quantidade”, ensina a querida.

 

Será que não seria bom se a economia sustentável, simplesinha, basiquinha assim, se espalhasse por ai?

Não vou comprar nada que tenha um preço aviltante, abusivo, absurdo. Simples assim

Lá no século passado de onde eu vim, a inflação era um monstro, um dragão, um bicho papão. Soltava fogo pelas ventas e queimava o dinheiro suado dos trabalhadores, de classe A a Z, antes que o mês acabasse. Quem tinha conta em banco, a minoria da população, penava um pouco menos porque à tarde, antes de o banco fechar, aplicava o dinheiro que estava na conta no overnight. De manhã, depois de tomar café e ler o jornal, nova ligação para o gerente para aplicar o que sobrou no open market. A vida era feita de contas, miúdas, chatas. Perdíamos um tempo louco, decidindo se era melhor comprar à vista ou à prazo. Se era o momento de comprar dólar ou gasolina. Se lotávamos o freezer com carne, peixe ou frango. Em resumo, era um inferno.