Como nasce uma estrela

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Na boca do palco, ela conta que aos 14 anos fazia teatro na escola com a irmã mais nova, Vania. Um dia, a caçula pediu socorro. O equipamento de som tinha pifado. Alguém precisa encerrar o espetáculo cantando a música final, porque não seria possível usar o playback.

“– Na hora eu disse, posso ajudar? Eu sei a letra da canção. Vania não tinha outra escolha e aceitou minha oferta. Me lembro que fui para o canto do pátio e comecei a cantar à capela o Bêbado e o Equilibrista, do Aldir Blanc”.

Em passos lentos, ela abandona a luz e segue para o fundo do palco. Fica no escuro e canta:

“Caía, a tarde feito um viaduto. E o bêbado trajando luto. Me lembrou Carlitos”.

A voz é firme e potente, porém sem os trinados e os excessos de quando canta com acompanhamento e percussão. A voz é poderosa, profunda e intensa.

“A lua, tal qual a dona de um bordel.
Pedia a cada estrela fria,
um brilho de aluguel”.

A plateia silencia. Não se mexe na cadeira. Não tosse. Não canta junto. Apenas ouve. A voz. É a voz da mulher, que celebrou 50 anos de vida na semana passada. Também é a voz da menina, que trinta e tantos anos antes se descobriu estrela cantando no pátio da escola aquela mesma canção, à época e sempre um hino de resistência à ditadura.

“O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil!”

Nos versos finais da música, a estrela volta ao centro do palco. A plateia enfeitiçada por sua interpretação, segue muda, atônita até a última sílaba:

“A esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar.”

Aplausos, urros e assovios. A artista se emociona. É a mulher-menina arrebatando mais uma vez o público com sua voz. O público fica de pé para aplaudir. Agora transforma o silêncio em gritos de prazer e emoção. O rapaz ao meu lado chora. A moça da fileira da frente também. Eles não têm idade para ter vivido os anos de chumbo. A emoção deles é de natureza empírica. Irracional. Culpa da voz. Filha da estrela.

Conheço Daniela Mercury como cantora desde 1992, quando ela explodiu para o Brasil afirmando a pleno pulmões que o canto da cidade era dela. Conheço Daniela Mercury como artista e pessoa desde 2007. Fomos parceiras em um memorável projeto multiplataforma no Carnaval de Salvador. Posso dizer que ficamos amigas. Acompanho seu trio e assisto a seus shows desde então. Ontem, no espetáculo “Daniela 50 anos, Voz e Violão”, entendi a gênese da cantora. A razão da sua energia, de seu axé.

Neste show, tudo ficou claro, evidente, pelo simples fato de que os excessos foram descartados. Tudo era voz. Tudo era interpretação. Até a dança, outro talento da artista, ficou comedida, econômica e intensa. Não sobrou trinado nem requebrado. Tudo coube na medida de um show que conta, do começo ao fim, como nasce uma estrela.