A vida sem vergonha

 

Beatriz Franco, 28 anos, nasceu e mora em Santos, litoral sul de São Paulo. É jornalista e tradutora. Fala e escreve com fluência português, espanhol e inglês. Como milhares de profissionais da comunicação, foi apanhada pelo passaralho, o monstro de asas que está desertificando as redações de jornais, revistas, sites, assessorias, televisões mundo a fora. Para quem não é do ramo vale explicar: não se trata de uma crise. Não é um drama, exclusivamente, brasileiro. Trata-se de uma transformação no modelo de negócio. É global. O formato anterior que financiava os veículos impressos por meio da receita vinda do leitor que comprava na banca ou assinava e pela receita dos anúncios faliu. Os meios digitais, em sua maioria gratuitos, mudaram essa equação. O mesmo vale para a televisão, que sofre com a queda de audiência e, consequentemente, de receita publicitária. As novas plataformas digitais como Google, Youtube, Facebook fazem parte dessa mudança. Um novo modelo ainda vai nascer. Neste meio tempo, os jornalistas estão na lona, sem emprego, sem trabalho e sem ganhar dinheiro. Estão virando suco.

No domingo, ao publicar um texto sincero no Facebook, Beatriz virou um exemplo. Exemplo de transparência, de honestidade e de redenção. Depois de ficar quatro meses sem trabalho, agoniada, sofrendo no sofá de casa, decidiu enfrentar seus medos, suas vergonhas e preconceitos. Criou um plano B ao aceitar o convite de uma amiga para trabalhar de quarta a sábado como atendente em uma doceira de bairro em Santos.

Ao assumir a nova função, descobriu novos talentos. Ao ir à luta, decidiu contar o seu processo. Compartilhou suas descobertas e, consequentemente, encarou de frente os seus fantasmas. Não sabia, mas havia criado um viral (https://www.facebook.com/beatriz.franco.792197?fref=nf&pnref=story). Virou exemplo e modelo de superação. Ajudou um bocado de gente a sair do modo “pausa”. “Nunca imaginei que o meu texto teria essa repercussão. Escrevi para exorcizar a minha vergonha”, diz Beatriz, que agora exibe com orgulho a touquinha de vendedora que tanto a desestabilizou nos primeiros dias.

Você escreveu em seu texto que o pior foi vestir a touquinha. Por que?

“Eu tinha vergonha. Era preconceito. A touca era o símbolo de que eu estava, supostamente, fazendo uma atividade “menor”, inferior. Afinal eu era jornalista, falava três idiomas. É um absurdo a forma como vemos certos trabalhos. É um absurdo sentir vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas.”

Quando a sua vergonha passou?

“Comecei a trabalhar em uma quarta-feira. É uma loja de bairro. Existe uma rotina. As pessoas chegam na mesma hora, todos os dias. Vem tomar um café, comer um pedaço de bolo. Fui sentindo prazer em atender, conversar, trocar com os clientes. Além disso, descobri que nos finais de semana, o trabalho é uma loucura. Tenho que me desdobrar para atender a todos com rapidez e eficiência. Não é um trabalho tão fácil e simples quanto parecia. Percebi que eu tinha muitos preconceitos. Acho que ao entender isso, a vergonha foi passando. Hoje estou aprendendo sobre gestão. Quero estudar, fazer cursos, posso me tornar uma empreendedora.”

E os amigos?

“Eu sentia vergonha deles também. Ficava pensando sobre o que eles iriam pensar me vendo ali servindo mesas. Outra bobagem. Acho que escrevi o texto para colocar um ponto final neste sentimento. Funcionou.”

– Como está a sua vida agora?

“Estou feliz. Faz três semanas que estou trabalhando. Gosto de atender as pessoas. Gosto de ouvir histórias. Estou interessada em aprender mais sobre a gestão do negócio. Acho que levo jeito para a coisa. Adoro o jornalismo. É a profissão que eu escolhi. Estudei muito, mas neste momento não dá para viver disso. Estou aprendendo uma atividade nova. Estou ouvindo muitas histórias, conhecendo muita gente. E agora, estou escrevendo a minha história de um jeito diferente. No fundo, também foi para isso que fiz jornalismo. Curioso, não é?”

 

 

Ali vai alguém que não deve nada a ninguém

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Outro dia vi uma propaganda de produtos cosméticos que discutia questões de gênero. Não lembro a marca. Não lembro o produto. A mensagem me devolveu à infância. Uma voz adulta dizia: “você não pode sentar de perna aberta”. Outra voz bronqueava: “está toda desarrumada. Parece um menino.” Uma terceira fala, agora em coro, bradava acompanhada de diferentes predicados: “o que vão pensar de você…vestida assim desse jeito, …falando desse jeito, …agindo desse jeito.”

 

O efeito dessas vozes, repetidas insistentemente durante a infância e adolescência pelas avós, tias, mãe e amigas das mãe, tias e avós, sobrevive no meu corpo e na minha alma. Por mais que goste, não consigo sentar de perna aberta. Estou sempre com elas cruzadas, até mesmo agora, enquanto escrevo sentada à mesa. Sobre a desarrumação, a fala teve efeito reverso de trauma-maldição. Me tornei uma adulta desarrumada e bagunceira ao extremo. Até eu mesma me canso da minha zorra, às vezes.

 

A terceira ladainha, poderosa como um mantra do capeta, é o motivo deste texto. O que vão pensar de mim? Por causa dessa dúvida, preocupação estúpida, pessoal e intransferível, vivi a maior parte dos meus 50 anos pensando nos outros – ou melhor, naquilo que eventualmente os outros poderiam pensar sobre a minha insignificante pessoa. Será que alguém pensava? Será que alguém falava? Não sei. Bastou a ameaça. Bastou a potencialidade de um mau julgamento para eu me comportar, agir, escolher segundo os bons modos do senso comum.

 

Por causa do que poderiam pensar sobre mim, quantos momentos de prazer eu perdi? Quantas escolhas erradas eu fiz? Quantos projetos equivocados abracei? Quantas horas de sono eu perdi? Quantos burradas cometi? Não sei dizer quantas, mas sei que foram muitas, inúmeras, incontáveis. Por que me submeti ao julgo alheio? Por que cedi à pressão do sequestro do olhar alheio? Vaidade, medo, vontade de criar um legado. A essa altura, bobagem fazer novos julgamentos. O feito está. E legado, definitivamente, é algo que não se preza em tempos de snapchat.

 

O fio da meada dessa reflexão foi puxado nesta semana. Estava andando pela rua e um amigo me viu. Buzinou. Gritou. Nada. Não conseguiu atrair minha atenção. Daí me escreveu: “chamou-me atenção seu ritmo: leve, fluido, sem pressa. Cabelos ao vento e perfil ereto. Pensei…tá de bem com a vida. Como dizia o Walter Franco: espinha ereta, a mente aberta e o coração.” Sim, estou de bem com a vida. Mas, o que faz mesmo a diferença é saber que nada faz diferença. Que digam, que pensem e que falem. Só posso dizer que, felizmente, não devo nada para ninguém.

 

 

Plano C

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O plano B virou A. O antigo A caminha para a extinção. Como prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém, parti para a construção do meu Plano C, que será B logo que deixar o plano das ideias e encarnar em um plano de negócios.

Dessa vez, vou fazer tudo direitinho. O time do Sebrae de Camaçari, meu município baiano, e de Salvador, a primeira capital do Brasil, estão me ajudando. A proposta é começar do começo. Fazer um plano estratégico, um plano de negócio e estressar, até o limite, todas as hipóteses antes de colocar a mão no bolso.

Já temos a ponta do fio da meada nas mãos. Agora é hora de investigar, pesquisar, ouvir, perguntar, consultar e ler tudo o que estiver disponível sobre o tema. Você deve estar pensando: “plano C em meio a crise?” Pois é, existem dois momentos bons para investir. Aqueles de profunda bonança, como quando inaugurei a minha pousada. E momentos de absoluta tormenta, como agora. Espero estar escolhendo um nicho de mercado que faça sentido – meio caminho andado para o sucesso de qualquer plano C.

Preciso fazer uma confissão: a escolha fala ao coração. Sou do time que defende que plano B bom é filho do prazer. Gostar de fazer faz toda a diferença no resultado do negócio – e na satisfação que você tira dele. É o meu caso. O meu plano inclui garimpo, pesquisa, viagens, interação com o público e planejamento. Tudo o que eu gosto e sei fazer.

Cachorro picado por cobra tem medo de salsicha. Vou repetir o modelo, bem sucedido, do meu plano A. Vamos começar pequeno. Vamos mirar o bom e deixar o ótimo para o futuro. O risco foi a primeira coisa que avaliamos. Ele é pequeno. Não gosto de arriscar demais. Não quero sentir pressão de investidor, banco ou acionista. Acredito no simples. Gosto de começar pequeno e ver crescer. É o meu perfil. Perdoem-me, portanto, pela falta de ousadia.

Em ritmo de baile permanente, voltei ontem para as quadras e hoje para a academia. Preciso de muita disposição e energia para trabalhar. Desconheço plano B, C ou D que dê certo ou gado que fique gordo sem o olhar e o suor permanente dono. O negócio próprio, pequeno ou grande, prospera quando o dono está ali, do lado, colado, trabalhando, pensando e colocando a mão na massa.

Quem diria, que menos de um ano depois, eu iria rever todas as minhas apóstilas do Empretec para começar de novo. Que Hefesto, o Deus do trabalho, e São José nos protejam.

Nostalgia

 

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Hoje descobri porque gosto de andar de ônibus. Ele, diferentemente do carro, anda rápido e não me deixa na porta. Caminhar é preciso. Da porta de casa ao ponto. Do ponto ao destino.

Hoje o meu destino era o bairro de Higienópolis. Participo de uma mesa no II Congresso de Comunicação Interna e Cultura Organizacional, realizado na FAAP.  Fazia muitos anos que eu não caminhava pelo bairro, que foi minha casa por duas encarnações.

Sai pela porta do coletivo e aterrissei em 1984. Edificio Brasília, Avenida Angélica 2121. Minha primeira casa. Meu primeiro aluguel. Minha estreia na vida adulta. Uma onda de prazer inundou meu corpo. Fui muito feliz vivendo naquele apezinho de 60 metros quadrados, com vista para a Paulista. Tinha juventude. Tinha energia. Tinha um zilhão de projetos e vontades.

Era tudo novo. Era tudo primeira vez. Olhei para a janela e revi o filme do gato Zanzibar, que um dia escapou pela janela e pulou do décimo primeiro andar para a cobertura do décimo terceiro. Na virada da esquina, reparei na marquise que durante anos serviu de lar para um morador de rua que adotei. Até um dia em que acordei e ele havia sido assassinado. Vivi com a culpa por muitos dias e noites. Podia tê-lo abrigado e evitado a tragédia? Na esquina, encontrei a vaga da minha Brasília branca. Foi meu primeiro carro, que andava aos trancos e barrancos, com pneus carecas e tanque vazio. Foi nele que joguei todas as minhas tralhas quando sai de casa para casar.

Fiquei dez anos longe do bairro. Retornei em 2001 com o objetivo de emprenhar e ter um filho. Mudei para um apezão na avenida Higienópolis. O mais antigo do bairro. A sala tinha o tamanho de uma quadra de tênis e, de novo, eu estava prenha de planos, projetos e sonhos. O principal nasceu há 13 anos com o nome de Francisco. Enquanto caminhava pela calçada da praça Buenos Aires, senti uma profunda saudade do carrinho de bebê que eu empurrava ladeira acima e ladeira abaixo. A emoção de passar e parar na frente da vitrine da loja Hortelã não cabe em nenhuma palavra. Lá, diariamente, passeava com meu filho, que era querido e mimado pela dona da loja. É uma loja de brinquedo à moda antiga, com bonecos e carrinhos feitos de madeira, bolas de pano e piões de alumínio brilhante.

Foi um tempo bom que passou. Memorável. Não tenho nostalgia, porque não sinto tristeza nem melancolia profunda por algo que não fiz, perdi ou deixei para trás. A vida correu, a vida viveu gravada na minha memória e no trilho do bonde que cruzava a praça Vilaboim.

O plano B que saiu do armário

Despir a alma, vestindo o corpo. Despir o corpo para revestir a alma de prazer e felicidade.

Depois que conversei por telefone com a Theresa Rachel, essa foi a imagem que me veio à cabeça. Pouco antes de desligar o telefone, ela confessou que, recentemente, havia chorado de contente. Tinha realizado um workshop com ótimos resultados. Depois que as clientes se foram, sentou-se à beira do lago do sítio onde mora, no interior de São Paulo. Olhou em volta, olhou para si, reviu os últimos capítulos da sua reinvenção e não aguentou de emoção. “Mudei muito nos últimos quatro anos. O mais bacana é que a minha mudança tem ajudado outras mulheres a mudar também”, diz com orgulho na voz. O que ela faz? É terapeuta de guarda-roupas. Ahhh? Calma, vou contar e explicar.

Theresa tem 35 anos. É filha da geração X, que já nasceu no rabo do foguete. Filha de São Paulo, formou-se em Marketing e em 2009 mudou-se para Campinas para trabalhar. Foi funcionária de várias multinacionais. Tinha cargo bom, salário e benefícios atraentes. Tinha prestígio na família. Tinha o respeito dos amigos. Faltava satisfação. Faltava sentido. Faltava tesão. Acordava de manhã sem vontade de trabalhar. Vivia no automático. Trabalhava até tarde e se perguntava o que estava fazendo da vida.

“No final de 2011, a corda arrebentou. Decidi tirar férias do trabalho, do meu marido e da minha rotina. Me enfiei em um retiro de revisão de vida em um mosteiro no interior de São Paulo. O desafio era ficar cinco dias em absoluto silêncio. Tinha um caderno e uma caneta, onde fui escrevendo o que eu estava sentindo. Durante um exercício, uma voz falou no meu ouvido. Tive um insight. Lembrei que havia recebido um atendimento com uma personal stylist na Casa Natura em 2009 e que aquele trabalho tinha me encantado. Decidi que depois do retiro, estudaria para entender que profissão era aquela”.

Antes de continuar, preciso de parênteses. Theresa nunca teve closet de quarenta metros quadrados. Jamais colecionou sapatos Louboutin e não vende a mãe para ter a última Lady Dior. Não era ligada em moda nem em tendências fashionistas. A vontade de trabalhar com estilo pessoal tinha a ver com transformação e não com glamour nem grife.

“No segundo dia do retiro, tinha certeza que queria mudar de vida e trabalhar com o jeito de vestir das pessoas. Me inscrevi em um curso de personal stylist e comecei a vivenciar meu segundo momento de autoconhecimento e transformação. Entendi que tinha uma enorme dificuldade de me identificar com as peças do meu armário. Comecei a prestar atenção em mim, no porquê das minhas escolhas. A reflexão extrapolou meu guarda-roupa”, relembra.

“Percebi que não conseguia escolher uma roupa que revelasse, de verdade, quem eu era. Se eu não sabia fazer algo tão simples, como é que eu poderia escolher o rumo da minha vida?”

A reflexão é absolutamente pertinente. A roupa é nossa fina estampa. Ela fala quem somos, o que queremos e revela se estamos bem. Theresa virou o guarda-roupa do avesso e, com ele, a própria vida. Pediu demissão, se separou do marido e trocou de casa. Recomeçou. Tinha uma reserva de dinheiro e uma enorme vontade de se descobrir. A princípio, sabia apenas o que NÃO queria. Não queria trabalhar no mundo corporativo. Não queria mais usar suas roupas certinhas, normais, de cor única. Decidiu estudar. Fez cursos de formação de consultoria de imagem. Fez cursos de inteligência emocional. Foi para Miami, nos Estados Unidos, fazer outro curso de personal stylist. Na prática, foi sendo estilista de si mesma. Foi desenhando e ajustando um novo figurino para a pessoa física e jurídica que queria ser.

“Durante o mês que passei nos Estados Unidos, aprendi muito mais do que orientar clientes na forma de se vestir. Aprendi que pessoas especiais entram em nossas vidas para aprendermos e trocarmos experiências. Foi outro momento importante de autoconhecimento”, diz Theresa, que segue estudando e se preparando para ajudar pessoas a mudar de guarda-roupa, de roupa, de corpo e de vida.

Ao retornar, estava preparada para encarar a nova profissão. Também havia descoberto uma nova Theresa. Estava repaginada. Tanto que recasou com o ex-marido, que neste processo também era “outro marido”. Foi ai que decidiu começar a atender. As primeiras clientes foram cinco amigas, que a ajudaram a criar o modelo de negócio e a chegar no conceito de que não era apenas consultora de imagem mas uma terapeuta de guarda-roupa. Qual a diferença? Theresa explica.

“A grande sacada foi quando entendi que meu trabalho não era com moda, tendências, grifes de luxo e desfiles de passarelas. O que eu fazia era ajudar pessoas. Meu desejo sempre foi trazer algo mais significativo, fazer com que minhas clientes pudessem se observar, se conhecer e se reconhecer por meio daquilo que vestem e, a partir daí, ver a vida com mais prazer, propósito, amor e beleza”, define a terapeuta de guarda-roupa, que tem no autoconhecimento a sua principal ferramenta de trabalho. “A mudança na imagem pessoal é um processo que vai muito além do vestir.”

Depois da experiência com as amigas cobaias, Theresa começou a planejar o novo ofício. Aplicou todos os seus conhecimentos de marketing para dar cara à sua empresa. Montou um site muito bonito (www.theresarachel.com.br) e eficiente. Criou um conceito e uma marca. Estabeleceu que iria trabalhar em casa, no seu sítio cercado de mata e bichos, perfeito para cursos e workshops, ou em domicílio, fazendo atendimentos individuais. Criou três módulos de atendimento de 13 a 25 horas, com preços e focos diferentes. O mais completo, batizado de máster, oferece autoconhecimento, avaliação de tipo físico, análise de coloração, maquiagem, auditoria de guarda-roupa, gerenciamento de guarda roupa, pré-shopping e personal shopping e gerenciamento de guarda-roupa pós shopping. É instigante.

Ela dá um curso intensivo por mês. Também oferece cursos em empresas e para grupos fechados. Escolheu atender apenas o gênero feminino, porque acredita elas estão abertas à mudança e têm no vestir uma linguagem muito importante. “Atendo mulheres dispostas a se reinventar. Algumas se separaram. Outras arrumaram um novo emprego. Tem também as que se tornaram mães há pouco tempo e as que fizeram severos regimes e por isso precisam mudar hábitos e, também, todo o guarda-roupa”, conta Theresa. A propósito, ela, em breve, pretende outra mudança radical: quer ser mãe.

Proprietária de uma micro-empresa, com CNPJ e inscrição estadual, Theresa está exultante. Ganha bem mais do que quando tinha crachá de uma empresa de alimentos e, principalmente, trabalha com absoluta paixão e prazer. “Acredito que cada cliente que entra na minha vida veio até mim por alguma razão. Acredito que tenho uma missão a cumprir na vida delas e que também tenho algo para aprender com elas. Em cada atendimento, planto uma sementinha de mudança que se inicia pelo guarda-roupa mas que se estende à relação delas com elas mesmas”, acrescenta.

“Estou muito realizada com este meu trabalho. Valeu a pena mudar para ser feliz.”

 

 

O meu PE e a Lua de Sangue

Vi a lua de sangue pela primeira vez e ela mexeu comigo. Ela foi se transformando, se tingindo, minuto a minuto. Deixou de ser a luz doce dos namorados. Virou um símbolo de vida e de morte. De transformação. De relatividade. Saber que ela só se repetirá em 2033 e pensar que posso não mais estar aqui para vê-la, me deixou ainda mais reflexiva. Farei 50 anos daqui 30 e poucos dias. Que lua eu serei se reencontrar a Lua de Sangue? Que projetos terei feito? Que histórias terei contado? Darei conta de iluminar meu filho até a idade adulta? Darei conta de guiar meus pais até a luz eterna?

Essas e outras perguntas, ainda mais particulares, me acompanharam enquanto eu admirava a Lua de Sangue. Tive a chance de vê-la porque estava na minha Capela e a noite era clara, com pouquíssimas nuvens. Desligamos as luzes do jardim e da piscina e cada um foi achando o seu canto. Deitei em uma espreguiçadeira. No início, em companhia. Depois fiquei só. Eu a lua, o sangue e a música. Foi quando percebi que era momento de aproveitar o ensejo para planejar. Decidir o que eu quero fazer da vida até o próximo eclipse. Resolver que passos vou dar para, se chegar até lá, poder dizer, de novo, que valeu a pena.

Começo hoje, portanto, o meu Planejamento Estratégico da Lua de Sangue. Vou desenhar metas de curto, médio e longo prazo para tentar reencontrá-la em 2033. Começo hoje também a fase 2, a missão, do projeto A Vida Sem Crachá. A proposta é seguir contando histórias de transformação e de planos A, B, C e Z. Construir um abecedário de ideias que possam ser úteis e inspiradoras. Aproveito para, de cara, pedir ajuda. Tem uma história bacana, me conta. Conhece alguém que fez um triplo mortal carpado e mudou de vida? Me dá a pista, que vou atrás. Se tudo der certo, no ano 1 do meu PE da Lua de Sangue, lanço mais um livro da série A Vida Sem Crachá. Porque dá para viver sem ele, mas sem felicidade (e um pouco de dinheirinho) não.

O dia em que fiquei do ladinho da Kéfera

Você conhece Kéfera Buchmann? Eu não conhecia. Meu filho, Chico, de treze anos, me apresentou a ela. Um dia, pediu para ir ao shopping a fim de conseguir um autógrafo. Perguntei na minha ignorância, “autógrafo de quem? Ela é gringa?” Chico riu da minha burrice e explicou. Kéfera é curitibana, 22 anos, atriz, comediante e vlogueira. Ela tem há cinco anos um canal no Youtube com 5,6 MM de seguidores, que se chama 5incominutos. Kéfera é uma celebridade teen. Kéfera ganha dinheiro como gente grande graças aos views do canal, aos produtos que vende e aos patrocínios que tem. Chico não conseguiu o autógrafo porque 2 mil jovens tiveram o mesmo desejo e a moça foi embora do shopping escoltada por seguranças para protege-la de fãs enlouquecidas.

 

Chico vê todos os vídeos de Kéfera e morre de rir. Ela usa óculos, é bonitinha mas não é uma deusa. Kéfera ganha a audiência não pela aparência, mas pela piada e pela voz. Ela fala, fala e fala. Fala até a gente ficar tonto. Também brinca com os muitos animais de estimação que tem. Ela os aperta tanto que parecem ser de pelúcia. Kéfera também zoa a própria mãe, dona Zeiva. Tenta ser engraçada. Tenta ser irônica. Tenta ser criativa. Sei que sou velha porque não consigo achar graça.

 

Chico ri de mim e dela. Os vídeos têm em média 14 minutos. Ela posta duas vezes por semana, terça e sábado, e faz um ao vivo a cada sete dias. É craque na web, tanto que já deu dicas de como ganhar dinheiro no mundo digital para a revista Exame. Kéfera trabalha para caramba e, nesse aspecto, eu a admiro muito. Kéfera é atriz e tem uma peça em cartaz, que lota de adolescentes a cada sessão. Kéfera escreveu um livro e, claro, está na lista dos mais vendidos.

 

Foi na livraria da Vila, em Pinheiros, bairro de São Paulo, que nossos destinos se encontraram. Chico esteve lá e, como bom filho que é, foi procurar meu livro nos balcões centrais. Ele sabe que livro precisa estar lá para vender. É o tal do efeito Tostines. Vende mais porque é mais fresquinho, é mais fresquinho porque vende mais. E não é que eu estou pongando na Kéfera. Para os não baianos, legenda: pongar significa se pendurar, pegar carona, se aproveitar do dinheiro, dos privilégios e da fama de outrem. Estou pongando na Kéfera, porque os livreiros colocaram o meu livrinho ao lado do best seller dela. Cinco minutos de Kéfera dando colher de chá para o meu A Vida Sem Crachá.

 

Chico ficou exultante e me mandou a foto. Eu logo imaginei a cena. Pai ou mãe em transição de carreira – o novo eufemismo para desempregado – vai com a filha adolescente à livraria. Precisam comprar um alfarrábio pedido pela escola, mas o desejo da garota é o livro da Kéfera. Negociam uma nota dez na prova de matemática e a menina leva Fogo Morte e Cinco Minutos de Kéfera para casa. O pai, chateado, decide que também merece um agrado. Olha para a direita e encontra A Vida Sem Crachá propondo uma volta por cima e um plano B de frente para o mar. É irresistível. Eu compraria. E você? Brincadeiras à parte, será que a Kéfera vai me ajudar a vender livros?

Qual é a sua autoindulgência?

Fui militante. Sou militante. As causas são diferentes. As causas, no fundo, são as mesmas. Porque eu mudei e fiquei igual. Bem daquele jeito que dizia Giuseppe Lampeduza no livro O Leopardo (o filme do Visconti é a mais bela versão de livro em película que já vi). Há 35 anos, minha causa era a justiça social, uma causa brotada na Revolução Francesa, à base de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. À época, chamava-se socialismo.
Hoje, minha causa é a justiça social, a igualdade de gênero e raça, o consumo consciente e a mobilidade urbana. Não tem mais nome, porque os políticos conseguiram acabar com os ismos do meu tempo. Mas o desejo é o mesmo, só que fragmentado em capítulos para termos a impressão de que um dia vamos dar conta de pelo menos um deles.
Hoje falei sobre consumo consciente em uma palestra na Casa TPM (um evento lindo, criado para as leitoras e fãs da marca, que acontece no Clube Nacional, em São Paulo. A boa notícia é que no passado o clube era proibido para mulheres e hoje éramos maioria por lá). Este assunto me é caro. Depois que perdi o crachá precisei rever todas as minhas muitas contas e mudar o meu padrão de consumo. Vendi carro, celular, cancelei pacote plus de canal a cabo, cortei restaurante estrelado da minha vida, deixei de comprar roupa, parei de desperdiçar comida e passei a cuidar com atenção e carinho de cada tostão.
É difícil ? Não. É sofrido? Não. É complicado? Para mim, não. Friso o pronome pessoal.
Para mim não é difícil, nem sofrido ou complicado porque minha autoindulgência nunca, jamais, em tempo algum se deu pelo consumo. Não coleciono joias, bolsas ou sapatos. Depois que perdi do emprego, trabalho em casa ou na minha pousada (www.pousadaacapela.com.br) de bermuda, camiseta e havaianas. Sou feliz assim, às vezes, parecendo um molambo. O que tenho pendurado no armário dá para três encarnações.
Sei, no entanto, que muitas pessoas sentem muito prazer ao fazer compras. Elas se dão carinho, se agradam com o cartão de crédito em mãos. Entendo que para elas é difícil mudar de hábito. É tão violento e disruptivo como parar de fumar. Ou deixar de beber. Ou banir a carne ou o doce do cardápio. É uma escolha. Pessoal e intransferível. Acho que vale a pena, especialmente para aqueles que perderam renda e precisam colocar as contas em dia. Deixar de gastar, permitirá mais fôlego para seguir procurando uma nova ocupação ou uma nova fonte de renda. Com o movimento, a autoindulgência da semana pode ser tirar uma tarde de folga. Ficar de papo para o ar no parque. Ler um livro. Andar de bike pela cidade. Brincar com o filho depois da escola. Namorar. Assistir aquele DVD esquecido debaixo da poeira. Faço isso de vez em quando e é bom demais.

A noite em que perdi o medo

Gente espelho de estrelas,
Reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas,
Só mesmo o amor
Maurício, Lucila, Gildásio,
Ivonete, Agripino,
Gracinha, Zezé
Gente espelho da vida,
Doce mistério

Caetano Veloso

Nos filmes de Hollywood e nas novelas de TV, quando um personagem está prestes a morrer, costuma ter flashback. Em uma edição nervosa, cenas da vida se sucedem trazendo ritmo e emoção para os instantes finais. Daí, bum. O avião cai. O carro explode. A bala atinge o peito e morte. Eu não morri. Nem tive medo. Só antes. Mas assisti um flashback lindo da minha vida na última terça-feira, 25 de agosto. Vou contar porque muita gente que não pode ir, mas entendeu o sentimento que a falta de experiência me trazia, perguntou como havia sido o encontro de lançamento do meu livro. Foi lindo. Foi maravilhoso. Foi divino, maravilhoso para citar outra música do Caetano Veloso.
Eu não fiquei lá sozinha, como temia. Ao contrário, quando cheguei já havia amigos me esperando. A mesa já estava arrumada, com banner, copo de água e um livro bem exposto. Abracei todo mundo e não fiz doce para começar meu trabalho. Ainda bem. A fila começou às 18h15 quando cheguei e terminou às 22, quando a livraria Cultura fechou. Se tivesse enrolado, teria perdido abraços apertados, autógrafos e lembranças. Cada um que ali chegou trouxe para mim, além do carinho e da atenção, memórias especiais da minha vida com e sem crachá. Colegas de colégio, como a Roberta e a Fernanda, amigas do tempo em que usávamos saia xadrez e mocassin preto com meia branca e sonhávamos com um futuro longínquo e distante. “Como será que seremos no ano 2000?” era uma pergunta tão recorrente quanto “como será que é bom beijar na boca?”
Na fila, esperando pacientemente, também estavam amigos de uma vida, nascidos na quadra de tênis, na faculdade, nos tempos loucos de farra, de política e de ideais. Malu, Georgia, Leila, GG, Giba, Carlinhos, Lina, Clau, Laerte e Silvio, pai do meu filho e companheiro de uma vida. Juro que tentei ser rápida e caprichosa nas dedicatórias. Valorizar os detalhes e a presença. No meio da fila, tudo junto e misturado, colegas dos muitos trabalhos que tive. Novos amigos, clientes da Pousada e leitores do blog e Facebook também vieram me prestigiar, o que me deu uma alegria imensa. Com cada um, muitas histórias e memórias. Foi lindo. Foi emocionante. Foi muito intenso. Antes das 21 horas, a tinta da caneta da Irmã Dulce acabou. Acho que já tinha escrito umas 180 dedicatórias para pessoas, que foram importantíssimas na minha vida. Algumas mudaram, sem querer, o meu destino ao me colocar em projetos, em viagens ou ao me apresentar novos amigos.
Para terminar o expediente, meus pais me emprestaram uma Cross dourada, daquelas de coleção. Juro não saber onde a enfiei no final, tamanha a embriaguez de felicidade que vivi. Matei a saudade de um bocado de gente e me senti como se fosse uma noiva no dia do casamento. Estava lá de véu e grinalda e não podia deixar de cumprir minha função. Sei que perdi boas conversas durante a festa. Da minha mesa, notei que teve gente que entrou várias vezes na fila para poder bater papo com o amigo que chegou mais tarde. Achei que era um bom sinal, até a espera estava divertida.

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Às 22 horas, não virei abóbora mas assinei o último livro. Foram 250, segundo a contabilidade do meu filho, apurada junto aos rapazes do caixa. Segundo eles, vendi bem. Mais e melhor que muito autor famoso. Chico se revelou um ótimo agente. Recebeu, conversou, tirou fotos e no final, apesar da hora, aguentou a saideira no Ritz. Antes, porém, meus amigos mais próximos e presentes, aqueles que fazem parte de grupo de zapzap, aprontaram comigo, no melhor sentido da palavra. Me aplaudiram de pé, como se eu merecesse. De novo, foi lindo. Foi emocionante. De longe, vi meu pai se debulhando em lágrimas e minha mãe exultante. A noite terminava, encerrando um ciclo de mudança e transformação para todos nós.

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Aprendi a viver sem crachá. Perdi o medo de ficar só em minhas festas. Confirmei que estava certa, certíssima em defender a amizade acima de todas as coisas. Agora, só posso terminar esse texto com uma palavra: OBRIGADA.

Eu acredito

EU ACREDITO
Descobri que acredito assim, com letra maiúscula, ontem na hora do almoço. Estava em família, o que é raro porque normalmente trabalho aos domingos. Minha mãe, a mulher mais fina, elegante e devota do mundo, olhou para mim e disse:

– Filha, lembra do quadro do São Jorge que você comprou para mim na Bahia?

Fiz que sim com os olhos e ela continuou, meio sem graça, dando a entender que faria uma revelação.

– Então, nesta semana ele sorriu para mim.

Minha mãe tem 72 anos. É fina, elegante, muito culta e bem informada. Não frequenta a igreja com regularidade mas é católica. Gosta do papa Francisco, reza diariamente e conhece todos os santos. Tem os seus preferidos, como santa Rita, santa Clara, Irmã Dulce e São Francisco. Há um ano, “descobriu” São Jorge por causa do neto caçula, que nasceu em 23 de abril.

– “Mãe, eu acredito que ele sorriu para você”, devolvi.

A minha resposta sincera tirou-a do prumo. Ela estava preparada para defender sua revelação com unhas e dentes e, inclusive, ser ridicularizada por estar dizendo aquilo.

– “Verdade, filha. Ele sorriu para mim…”, ela enfatizou, agora acreditando que eu também acreditava.
– “Mãe, você mereceu esse sorriso”, respondi. “Vou à sua casa. Será que ele também sorrirá para mim?”

Em tempo: eu acredito em Deus e que Ele ajuda quem cedo madruga. Acredito em Nossa Senhora, todas e em especial a de Aparecida, a nossa. Acredito na gentileza que gera gentileza. Acredito na gratidão, na amizade, na bondade e no perdão. Acredito na Ressureição. Acredito em anjos que sopram ideias nos ouvidos da gente e que derrubam quadros quando querem chamar a nossa atenção. Enfim, eu ACREDITO.

 

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