Tudo é mudança

“Tudo é mudança”, dizia Eurípedes, o poeta trágico grego. “Tudo cede o seu lugar e desaparece.” Eurípedes é o poeta da mudança. Deixou os deuses de lado. Escolheu tratar dos problemas triviais dos humanos, que no século V a.C viviam um momento de mudança de vida e de tradições na sociedade ateniense. Eurípedes mudou também o ponto de vista da tragédia. No lugar dos feitos e das vitórias, escolheu contar a história dos derrotados, dos vencidos e das mulheres, que nem eram consideradas parte da sociedade. Escreveu 95 peças. Só achou o sucesso pleno séculos depois da sua morte. Inspirou dramaturgos modernos como Racine, Goethe e Eugene O’Neil.

 

Eurípedes era caudaloso e recolhido. Morreu sozinho como viveu. Medeia é a peça dele que mais me impacta e impressiona. A história de uma mulher tomada de amor e ódio pelo marido. Ao ser traída, abandonada e rejeitada por ser estrangeira, rebela-se. Revolta-se. Vinga-se dele e do mundo masculino, matando os próprios filhos que ama profundamente. Fúria, morte, dor e mudança. “Deixe em paz meu coração, que ele é um ponte até aqui de mágoa e qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’água”, canta Medeia na peça Gota d’Água de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptada da tragédia grega.

 

Muita gente odeia mudar. Acha uma tragédia, digna de Medeia. Eu gosto. Antes de tudo, acho a palavra linda. MUDANÇA. No dicionário, a etimologia explica: radical de mudar + ança. Vem do latim. É sinonímia de deslocamento, modificação e variante. Antônimo de conservação. Faço também de uma leitura livre: Mu, um Deus, + Dança, um movimento, um deslocamento com ritmo, intenção e música. Mudança é um baile. Mudança é um baile permanente.

 

Vou mudar de novo. Agora, de casa. Em novembro, quando completo 50 anos, serão 18 mudanças de casa. Na média, dá uma troca de lar a cada 2, 7 anos. É bastante. Vou mudar porque sou conservadora. Vou mudar para manter meus planos em linha. Vou mudar para que tudo fique como está, como promete o príncipe Falconeri, personagem do livro O Leopardo de Giuseppe de Lampedusa.

 

Acredito nisso e por isso gosto de mudar. Dessa vez, no entanto, demorei a tomar a decisão. Precisei de um ano e de uma briga para decidir. Puxaram a minha orelha. Cobraram uma posição. Questionaram o meu discurso. Disseram que eu estava fazendo cortes cosméticos. Era verdade. A equação é simples. Aritmética, como 1 + 1 = 2. Vou sair do meu apartamento gigante e mudar para outro com a metade do tamanho. O benefício será reduzir 50% do custo do condomínio e contar com uma receita nova de um bom aluguel.

 

Por que não fiz isso antes? Autoindulgência. Gosto da minha casa grande com vista para a piscina do clube. Gosto da minha rua com ciclovia. Gosto dos meus móveis espalhados por uma sala de três ambientes. Preciso disso? Descobri, agora, que não. Descobri na semana retrasada, que ainda estava apegada a uma imagem e a um status quo que não mais me pertencem. Esse apego, considerando o planejamento orçamentário da ME Vida Sem Crachá S.A , poderia significar uma conta cara demais para pagar lá na frente, quando espero viver na sombra e com água fresca. Portanto, como diz o príncipe, mudo agora para não precisar mudar meus planos no futuro.

 

Doeu? Nada, por enquanto. Até meu filho, um virginiano apegado ao método e à bagunça organizada que ele produz, descobriu uma diversão na busca por uma nova casa. Nos sites das imobiliárias, imaginamos como seriam os proprietários daqueles apartamentos e mobílias. “Esse deve ser barroco, como eu”. “Aquele tem um péssimo gosto”. “Fulano deve ser um acumulador. Olha quanta tranqueira tem no quartinho de tranqueiras.” A proposta de mudança transformou-se em mais um exercício de encontro entre mãe e filho e agora brincamos e brigamos na disputa sobre quais móveis vão ou não para a nova casa. Já sei que vou acabar perdendo, o que é ótimo. Será mais uma mudança no meu histórico de jamais perder, mesmo que seja no par ou ímpar.

 

 

 

Qual é a sua autoindulgência?

Fui militante. Sou militante. As causas são diferentes. As causas, no fundo, são as mesmas. Porque eu mudei e fiquei igual. Bem daquele jeito que dizia Giuseppe Lampeduza no livro O Leopardo (o filme do Visconti é a mais bela versão de livro em película que já vi). Há 35 anos, minha causa era a justiça social, uma causa brotada na Revolução Francesa, à base de Igualdade, Liberdade e Fraternidade. À época, chamava-se socialismo.
Hoje, minha causa é a justiça social, a igualdade de gênero e raça, o consumo consciente e a mobilidade urbana. Não tem mais nome, porque os políticos conseguiram acabar com os ismos do meu tempo. Mas o desejo é o mesmo, só que fragmentado em capítulos para termos a impressão de que um dia vamos dar conta de pelo menos um deles.
Hoje falei sobre consumo consciente em uma palestra na Casa TPM (um evento lindo, criado para as leitoras e fãs da marca, que acontece no Clube Nacional, em São Paulo. A boa notícia é que no passado o clube era proibido para mulheres e hoje éramos maioria por lá). Este assunto me é caro. Depois que perdi o crachá precisei rever todas as minhas muitas contas e mudar o meu padrão de consumo. Vendi carro, celular, cancelei pacote plus de canal a cabo, cortei restaurante estrelado da minha vida, deixei de comprar roupa, parei de desperdiçar comida e passei a cuidar com atenção e carinho de cada tostão.
É difícil ? Não. É sofrido? Não. É complicado? Para mim, não. Friso o pronome pessoal.
Para mim não é difícil, nem sofrido ou complicado porque minha autoindulgência nunca, jamais, em tempo algum se deu pelo consumo. Não coleciono joias, bolsas ou sapatos. Depois que perdi do emprego, trabalho em casa ou na minha pousada (www.pousadaacapela.com.br) de bermuda, camiseta e havaianas. Sou feliz assim, às vezes, parecendo um molambo. O que tenho pendurado no armário dá para três encarnações.
Sei, no entanto, que muitas pessoas sentem muito prazer ao fazer compras. Elas se dão carinho, se agradam com o cartão de crédito em mãos. Entendo que para elas é difícil mudar de hábito. É tão violento e disruptivo como parar de fumar. Ou deixar de beber. Ou banir a carne ou o doce do cardápio. É uma escolha. Pessoal e intransferível. Acho que vale a pena, especialmente para aqueles que perderam renda e precisam colocar as contas em dia. Deixar de gastar, permitirá mais fôlego para seguir procurando uma nova ocupação ou uma nova fonte de renda. Com o movimento, a autoindulgência da semana pode ser tirar uma tarde de folga. Ficar de papo para o ar no parque. Ler um livro. Andar de bike pela cidade. Brincar com o filho depois da escola. Namorar. Assistir aquele DVD esquecido debaixo da poeira. Faço isso de vez em quando e é bom demais.

Ouvi errado o nome dela, mas a história é verdadeira

Sou fascinada pela Aldeia Hippie de Arembepe. Pouco vou lá. Talvez por isso meu fascínio. Tenho um projeto – daqueles que a gente tem para um dia fazer – de criar um museu à céu aberto para contar a história da aldeia. Para quem não sabe, trata-se de uma das mais importantes comunidades de malucos de estrada – o nome contemporâneo para hippie – do mundo. Desde que Janis Joplin baixou por lá e mostrou como se canta Summertime para seus amigos baianos, o lugar virou uma espécie de Santiago de Compostela para os adeptos do modelo de gestão Flower Power. Para ser hippie de verdade, é obrigatório passar por lá, ao menos, uma vez na vida.

foto G1/Janir Junior
foto G1/Janir Junior

No verão, chega um monte de gente. Muitos gringos vindos da Europa e da América do Sul, com destaque para argentinos sempre muy amigos. Na baixa temporada, o lugar fica calmo, quase pequeno burguês, graças à população fixa, que tem filho matriculado na escola, conta fiado no mercado e ponto fixo na porta do restaurante Mar Aberto, um dos melhores do litoral Norte da Bahia, para vender artesanato.

Já tive uma funcionária, Desirée, que tentou escapar do bantu da aldeia. Separou do amor da vida dela, aceitou a palavra fiel do Jesus Cristo Evangélico e trocou a bata de batik pelo uniforme de ajudante de cozinheira. Durou pouco. O suficiente para ganhar um salário, um fogão de quatro bocas – porque ninguém é de ferro, mesmo quando a proposta é viver o amor em uma cabana – e um bocado de roupas para os meninos. 40 dias depois do primeiro bom dia, Desirée partiu, sumiu, escafedeu. Traiu Cristo, o pastor, a palavra e voltou para a lida de vender a pulseira de couro ao meio dia para comprar no final da tarde a janta.

Sempre que vou para aquelas bandas, levar algum hóspede no projeto Tamar, vizinho à Aldeia, estico o olho. Tento enxergar razões, motivos, inspirações para aquele estilo de vida e de estética. Mais do que viver sem trabalho fixo, enfim, sem crachá, os hippies cultivam à liberdade e se lixam para a segurança financeira. O que vale é o agora. O hoje. Não estão nem ai se faltará comida, bebida ou fumo amanhã. Também têm hábitos e estética muito particulares. Ainda hoje, têm aflição à barbeiro e cultivam o cabelo comprido de modo radical. Na cabeça, no rosto, no sovaco, no púbis, nos braços e nas pernas. Pelos rebeldes, pelos selvagens (pelo ainda tem acento?). Cabelo, cabeleira, cabeluda. Sem xampu ou sem água doce, as madeixas volumosas e rebeldes dão uma impressão permanente de uma falta de limpeza. Em compensação, na maioria absoluta das vezes, cruzo o meu olhar com o deles e vejo doçura, paz e tranquilidade. Como a fala, arrastada, tranquila e leseirenta. Como o espírito, conformado, compreensivo e apaziguado.

Chovia domingo. Eu fazia minha segunda viagem ao projeto Tamar, desta vez para pagar uma dívida de seis reais. O porteiro nos deixou entrar no fiado. Prometi retornar logo e pagar. Cumpri. Estava no caminho de volta quando vi a menina. Alta, magra, tez morena, cabelos pretos. Bonita como todos os adolescentes conseguem ser. Alma e corpo frescos. Olhos vivos. Pele brilhante e rija. Só os cabelos, maltratados, roubavam um pouco da espetacular beleza daquela menina. Cheguei junto com o carro e ofereci carona. Queria tirá-la da chuva. Queria ouvir a história dela. Sim, confesso a minha péssima intenção.

Ela aceitou a carona, mas entrou muda no carro. Percebi que era nova, mais nova que seu 1m72 de puberdade.

“Você está indo para o mercado?”, perguntei.

Ela fez que sim com a cabeça, tímida. Parecia intuir que seria metralhada de perguntas. Tateei. “Qual é o seu nome?”

Com voz fraca, ela respondeu: “Ananaiara”. Ao menos é isso que a minha memória entupida de vinho e lixo digital conseguiu guardar.

“O que significa?”, perguntei. “Duas flores”.

Percebi que a entrevista seria difícil. Ela era lacônica. Ressabiada. Aceitara a carona porque vira confiança na “sueca cinquentona two reais”, mas não pretendia entregar sua história em troca de mil metros de transporte.

“Você mora na Aldeia Hippie?”. Ela fez que sim com a cabeça.
“Nasceu aqui?”. De novo, agora com movimentos laterais, ela fez que não. “Nasci na Chapada Diamantina”, respondeu trinta segundos depois.

“Veio de lá para cá?”, provoquei. De novo, silêncio. “Não. Chequei aqui com quatro anos. Antes passei por nove países”.

Me animei. A menina tinha história.

“Quais países você conhece?” “Não sei. Não lembro. Acho que Colômbia, Argentina…”

“Você foi para a Europa? Estados Unidos? Ou só viajou para a América do Sul?”

Silêncio. Estátua. Ela não respondeu nada, nem fez qualquer movimento. De verdade, não sabia. Nada.

Truquei. “Você é hippie?”

“Eu não. Meus pais são.”

“Você não quer ser hippie?”

“Não”.

“Por que?”

“Porque não gosto. Preferia viver de outro jeito”.

“Você estuda?”

“Sim”.

“Tem televisão em casa?”

“Sim”.

“Então?”…

Quando soltei o então percebi o quanto idiota e velha eu era. Ter televisão em casa é pergunta do IBGE do século XIX. Que adolescente de 12 anos, a idade de Anananaiara e a mesma do meu filho, está preocupado com televisão? Eles querem Face, Insta, tablete, zapzap. Eles produzem o conteúdo que consomem. Eles criam novas linguagens. Inventam programas, aplicativos e efeitos especiais. Fazem música. Produzem seu programas no Youtube e arregimentam milhões de fãs. Não estão nem aí para as tramas da 5, 6, 7, 8, 9 e 11 da noite do Plimplim. Quanto muito, acompanham uma temporada de Masterchef ou devoram uma temporada de Gracie and Frankie no Netflix em ritmo de Triátlon. De que adiantava para Anananaiarara ter uma TV se ela não tinha um celular?

“O que seus pais fazem? Eles ainda vivem juntos?”, perguntei testando a longevidade do amor hippie.

“Sim estão. Faz 20 anos. Meu irmão mais velho tem 18. Eles fazem e vendem artesanato”.

Não, na casa dela não tem wi-fi nem computador. Ela conhece e usa, mas apenas na escola. Quando crescer, quer ser médica, dentista ou professora. Hippie não, não mesmo. Não gosta.

Lembrei das minhas batas de linho branco com pespontos em linha colorida, que adorava usar nos meus quinze anos. Combinavam com shorts curtos de jeans e belíssimas sandálias de couro curtido, fedidas como quê, que comprava no Mercado Modelo ou na Ladeira da Barroquinha sempre que vinha para Salvador da Bahia. Era comprar e perder. Voltava para São Paulo feliz, pendurava no armário e descia a Serra para terminar as férias no Guarujá, habitat da minha geração dourada. Era o tempo que minha mãe precisava para dar cabo do meu figurino BG (bicho grilo, o sinônimo de hippie da época).

Por que aquilo que os pais gostam os filhos odeiam? Por que aquilo que os filhos odeiam os pais adoram? Por que aquilo que os filhos amam os pais detestam?

Porque assim é a vida. Talvez. Porque, dizem os psicólogos, é preciso realizar o processo de individuação e se desconectar, por meio da rejeição, do ódio, dos opostos, da nave-mãe. Será?

Chegamos ao mercado Fonseca. Parei o carro na porta. “Muito prazer Anananananaiara. Você é filha da Desirée?, perguntei tentando puxar o último fio de conversa. “Não, minha mãe se chama Rosana”, ela respondeu, abrindo a porta do carro.

“Obrigada”. “De nada”.

Entramos juntas no mercado, mas logo a perdi de vista. Tinha que comprar folhas para a salada e limão para a caipirinha. Hora de ter pressa. Pensei dar à menina de nome de duas flores um xampu Pantene de presente. Cheguei a pegar aquele que a Gisele Bundchen anuncia. No caixa, não a encontrei. Deixei para trás, tentando lembrar como era mesmo o nome dela.

A poesia acaba aqui. Para editar o post, comecei a pesquisar na rede imagens. Procuro o óbvio. Aldeia Hippie de Arembepe. Encontro uma reportagem bem apurada do G1. Janir Júnir, texto e foto, fotografou minha menina e toda sua família. O pai Leandro, uruguaio, o irmão mais novo, Queñoa, e seu Jegue, Moleque, e Anahinayá. Sim, ele ouviu direito. Anahinayá, que como eu disse, quer dizer nome de duas flores. Na foto, ela tinha dez anos. Agora tem doze. Continua linda. A casa da família agora tem televisão. Não tinha.