No meio do caminho tinha um mar de orquídeas e uma lição sobre empreendedorismo

Estrada sem pedágio em mês de inverno é igual a queijo suíço: uma apoteose de buracos. Tentava escapar de muitos quando vi a placa, pequena, no canto da estrada. Meu descrachamento autorizou minha cena de cinema. Podia atrasar. Podia chegar mais tarde. Pisca alerta ligado, virei à esquerda e cruzei a pista, quase cantando os pneus.

Tomei a estrada de terra, com buracos mais macios e segui a direção indicada. Sacolejos, poças d’água, terra, lama e uma segunda placa avisando que em um quilômetro eu chegarei. Verdade, cheguei conforme o prometido. Cruzei o portão e um senhor de chapéu de palha com um sorriso 1001 – um dente em cada canto da boca – me recebeu.

– Moço, aqui é o orquidário Bahia?

Ele, simpático, exibiu outra vez o sorriso cinematográfico frente à minha pergunta estúpida. Bastava olhar em frente para ver um mar de orquídeas, de todos os tamanhos e cores, guardado debaixo da tenda de tela preta furadinha.

Metros à frente, encontrei outro mar, feito de perfumes, texturas, formas, cores, frescor. A guardiã dele me recebeu na porta sorrindo também. Dona Dina tem 60 anos e alguma coisa e há doze vive de cuidar de orquídeas. Sua rotina é simples e generosa. Acorda cedo para começar a tratar das meninas. Sem repertório científico, sem conhecer nomes difíceis em “botanicanês”, ela domina todos os tipos, espécies e famílias. Conhece seus cheiros, hábitos e desejos. Sabe quando vão florescer. Quando precisam ser podadas ou replantadas. Aprendeu a reconhecer o momento de tirar mudas e parir novos arranjos a partir de vasos cheios de bulbos.

– “Faço meu trabalho com muito amor”, diz dona Dina, que adora receber visitas no sítio perdido numa quebrada da via Cascalheira, que liga a estrada do Coco, litoral norte da Bahia, até a cidade de Camaçari.

Peço ajuda dela para escolher dois vasos para dar de presente a uma pessoa muito querida. Ela se anima e saltita entre as bancadas para me mostrar os melhores.

– Você precisa ver essa. Tem cheiro de chocolate!!!!

Desdenho um pouco da informação, mas caminho para conferir. Verdade de novo. A planta cheirava a cacau, melhor, a café com cheiro de chocolate. Apesar de não achá-la das mais belas, decidi comprá-la, junto com uma branca com manchas rosas, que estava repleta de brotos prestes a florir.

Na hora de partir, percebi o quanto dona Dina falara a verdade sobre trabalhar com o coração. Com o dinheiro em mãos e uma gorjeta de 10 reais porque não tinha troco, ela olhou triste para as suas flores que partiam. Despediu-se de mim e delas como uma mãe que dá adeus a um filho que parte para longe, para nunca mais ver.

– “Volte outras vezes”, ela pediu, sabendo que se eu retornasse, não traria as meninas dela, que ela nunca mais veria. Prometi revisitá-la. “Faço muitos casamentos na minha pousada e sempre precisamos de orquídeas”, falei, tentando reanimá-la com a hipótese de uma boa venda.

No curso de empreendedorismo que fiz, aprendi que paixão, amor e empreendedorismo se confundem apenas até a página três. Gostar do que se faz é bom, mas não é fundamental. O importante é o negócio, a venda, o projeto, a marca, o legado e, claro, o lucro. Empreendedor que se preze não se abate nem com o fim do negócio, porque entende que quem vai à falência não é ele, empreendedor, mas a empresa que ele montou. Empreendedor do primeiro escalão, se apaixona pela transação, pelo planejamento da ideia que vira negócio, pela ideia genial que se converte em milhões.

Definitivamente, dona Dina, gestora de seu mar de orquídeas perfumadas, não pertence ao Olimpo do empreendedorismo. Mas trabalha com muito amor.

A experiência do escuro. De volta ao século XIX

IMG_5508

Ontem me exibi com uma foto linda de pôr do sol e outra mais linda de um fim de tarde com arco íris espetacular. A natureza me castigou. Não, me ensinou a não me cabar com aquilo que não me pertence.
Hoje o dia amanheceu cinza. Choveu horrores e no fim da tarde a chuva acabou com a luz. Estamos no escuro há três horas. Como no século XIX. Como na Idade Média.
A pousada está quase cheia e estamos todos experimentando ficar no escuro. Sem TV, sem Wi-Fi, sem cabo, no escuro. Quem não se conhecia se apresentou. No espaço gourmet, hóspedes de quatro apartamentos trocam histórias e impressões alumiados por uma vela. Na sala, um superpai entretém três crianças menores de 10 anos com histórias da carochinha e jogo de luzes a base de lanternas de Led.
Confesso que tenho medo de escuro. Coisas da infância que ficaram na minha alma e nenhuma terapia curou. Mas a paz das pessoas que me circundam está me acalmando e eu estou bem. A ponto de ser capaz de escrever e refletir sobre esse momento.
O mundo muda rápido. A tecnologia é avassaladora. Mas o ser humano mantém, felizmente, algumas características ancestrais. À noite, no escuro, todos se juntam e exercem a atividade mais primal e incrível do homo sapiens: a oralidade. Cada um conta sua história de vida, suas experiências, seus gostos, suas paixões de modo encantador e singelo. Fico aqui no bar ouvindo. Às vezes, palpito. É assim acredito que tudo vai dar certo. E que existe futuro.

A luz voltou às 5 horas da manhã. O sol ainda não deu as caras.