Epifania de domingo: pequenos prazeres

Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális

Todo mundo tem o seu retrato de Dorian Gray. O meu é esse acima. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Havia passado para o segundo ano da faculdade de Jornalismo. Me sentia livre, jovem, poderosa, inteligente e capaz. Estava muito apaixonada. Tinha certeza que cumpriria meus milhares de planos. Tinha a vaidade de achar que era dona da verdade e que poderia mudar o mundo sem precisar mudar de ideia. Tinha tantas vontades quanto as que cabiam dentro do meu peito.

No dia da foto, naquele distante janeiro de 1984, na ainda quase deserta praia de Canoa Quebrada, no litoral sul do Ceará, enxerguei, sem querer o futuro. Desisti de fazer uma tatuagem de lua e estrela no ombro direito, porque me vi ontem nua na frente do espelho, e pensei:

– Essa tatuagem não ficará bonita no corpo de uma mulher de 50 anos. E vou sentir uma dor, uma saudade, uma tristeza desse tempo que foi tão lindo, tão solar, tão sensacional. Vou cancelar o serviço.

Como disse nove linhas acima, eu era metida e pretensiosa. Burra. Vaidosa. E equivocada. Não tenho a tatuagem e lembro disso tudo como se a tivesse. Se a tivesse, seguramente, teria orgulho e carinho por ela em meu ombro ainda rijo ma non tropo. Sempre que a enxergasse, teria um arrepio de prazer na espinha. Perdi. Paciência.

O bom da vida é que sim, a gente dança. Baila e muda o tempo inteiro. No meu caso, além de mudar, acabo por engolir com farinha e gargalhadas tudo o que um dia disse “nunca, jamais faria”. Fiz tudo e mais um pouco do que já neguei e condenei na vida. Casei. Tive filho. Separei. Engordei. Emagreci. Cedi. Descasquei. Perdi. Apaixonei. Troquei. Principalmente falhei. E fundamentalmente, mudei. Mudei muito.

Sem arrependimentos, fi-lo porque qui-lo. Porque assim entendi ser melhor. Ontem aconteceu de novo. Depois de um feriado inesquecível, quando recebi meus hóspedes com carinho, estive reunida com meu filho e meus amigos mais queridos, quando tive o prazer de ser fotografada por um mestre e quando tive a honra de celebrar o amor de dois amados amidos, tive uma epifania na frente do espelho do meu banheiro.

Tirei a roupa para tomar banho e me vi nua. Despida das roupas e das ideias e preconceitos que carreguei por tantos anos. Reparei nos seios mais cheios e caídos do que no tempo do retrato e achei que eram lindos. Encarei minha barriga nada negativa e achei-a verdadeira e legítima. Representa os últimos anos de prazer. De festa com os amigos. De farra com a vida.

Não pretendo cultivá-la porque quero manter o meu guarda-roupa G, número 44. Mas definitivamente  não perseguirei mais o figurino 40 que me coube por tantos anos. Ele ficou para trás, como uma boa lembrança. Como a foto do topo desse texto. Como a força de vontade que me abandonou no café da manhã quando disse sim para um bolinho de estudante.

Ainda na frente do espelho ontem, lembrei de uma palavra que adoro e me inspirava a fazer dieta e exercício no ritmo 24×7. Sílfide. Sílfide para quem? Bonitinha e perfeitinha por quê? Um sorriso maroto apareceu no canto dos meus lábios, ligeiramente enrugadinhos. Pensei despudorada:

– “Ficou velhinha e espertinha. Abandonou o estoicismo e aderiu ao hedonismo. Boa escolha.”

Verdade, verdadeira. Ainda sou fibrosa, mas faz tempo que larguei mão de ser pétrea, incansável e inquebrantável. Estou ficando maneira, maleável e malemolente,  como as curvas da minha cintura, os excessos na minha coxa e a flacidez dos meus braços que agora só dão adeus no formato conchinha, tipo rainha da Inglaterra.

Entrei no chuveiro quente pensando nisso tudo e na felicidade que sentia. A pele bronzeada se arrepiou de prazer. Dane-se se ficou um pouco mais enrugadinha. De verdade, faz tão pouca diferença em comparação com a memória de um instante, assim, de prazer. O domingo, então, acabou assim em festa, com a súbita experiência da compreensão de algo assim tão essencial.