Família, amigos e música

 

O gênio da lâmpada apareceu na sua frente e disse: “Escolha três coisas que você mais ama e não pode viver sem? O que você responderia? Já pensou nisso?

De chofre, a resposta automática pode ser aquilo que você mais demanda naquele instante. Tipo: está duro? Pede dinheiro. Está com fome? Pede comida. Mas não é isso que o gênio quer saber. Irritado, ele explica: “Eu disse três coisas que você mais ama e não pode viver sem porque vai sentir fome e dor no coração”.

Agora entendi. Obrigada gênio. Deixa eu pensar. A lista de itens começa a rodar em ordem alfabética como um letreiro de filme.

Amigos. É o primeiro objeto do desejo que brota na minha cabeça. Só de pensar em abrir mão deles começa a doer.

Amor. Amor verbo intransitivo. Está na categoria comer e respirar. Ufa, passei.

Bicicleta. Lembro da Lola estacionada na garagem. Sinto tristeza e nostalgia. Adeus minha companheira.

Bichos. Lembro da família de quatro patas e já sinto vontade de chorar. Gênio, vamos negociar isso aqui?

Cinema. Amo, adoro, mas às vezes fico meses sem ver. Passo.

Chocolate? Já fiquei um ano sem comer em uma promessa que fiz, sobrevivo sem.

Cachaça? Como será a vida sem uma caipirinha? Possível. Fora do rol.

Churrasco. Enfim, virarei vegetariana?

Doces? Posso sim riscar o açúcar da minha existência. Um, dois, três e já.

Família? Amigos, bichos e família são para mim um único item. Gênio, vamos negociar?

Fotografia. Adoro ver. Adoro fazer. Saudade.

Livros? Ai meu Deus, vamos deixar na lista para decidir no final?

Mar. Se o gênio me levar para Marte, fazer o quê?. Se na Terra, eu ficar será muita falta de sorte ficar longe dele de novo. Vamos rezar. Vamos torcer.

Música. Sem chance. Sem chance. Sem chance.

Arembepe, Londres, Paris, Rio e Roma? Foi um privilégio conhecê-las. Vão morar para sempre no meu coração.

Vou espremendo a memória. Revendo os itens, como quem faz a limpeza anual do guarda-roupa. Como quando lota a capacidade de armazenamento do MacBook Air e você precisa escolher quais fotos ficam na memória e quais vão para o HD externo. Lembro de um monte de coisas que gosto de fazer mas que faz um tempo enorme que não pratico, como mergulhar, jogar handball e fazer fios de ovos. Percebo que está cada vez mais claro quais são as prioridades. Fico feliz. Será mais fácil negociar com o gênio, se é que existe negociação.

“Gênio, minha família, meus amigos e meus bichos podem fazer parte de um único item?” Ele ri, sarcástico. Deve ouvir cada proposta indecente. “Você pariu seu cachorro, Zapata, do mesmo jeito que pariu seu filho, Chico?”. A pergunta encerra o assunto. Ele me olha com impaciência.

Então, qual é a dúvida? Quer saber? Nenhuma.

“Família, amigos e música.”

A lista tríplice é definitiva. É um deleite saber poder definir, assim, com relativa facilidade os meus amores. Enquanto escrevo, sinto uma leveza e uma sensação de liberdade. O resumo das minhas necessidades. A essência. Só isso importa. Só isso interessa. O resto é acessório. Se tiver muito bem. Se não tiver paciência. Faço um rápido flash back. É a prova dos nove. Não esqueci nem deixei nada para traz. A última quinzena foi linda, especial. Vivi cercada de gente que amo, celebrando a vida em modo festa, encontro, jantar, reunião. Família, amigos e música.

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Obrigada, Gênio. Não preciso pedir nada. Tenho tudo aquilo que amo e preciso.Ah, por favor, deixa eu terminar meus dias na beira do mar.

 

 

 

 

 

 

Eu acredito

EU ACREDITO
Descobri que acredito assim, com letra maiúscula, ontem na hora do almoço. Estava em família, o que é raro porque normalmente trabalho aos domingos. Minha mãe, a mulher mais fina, elegante e devota do mundo, olhou para mim e disse:

– Filha, lembra do quadro do São Jorge que você comprou para mim na Bahia?

Fiz que sim com os olhos e ela continuou, meio sem graça, dando a entender que faria uma revelação.

– Então, nesta semana ele sorriu para mim.

Minha mãe tem 72 anos. É fina, elegante, muito culta e bem informada. Não frequenta a igreja com regularidade mas é católica. Gosta do papa Francisco, reza diariamente e conhece todos os santos. Tem os seus preferidos, como santa Rita, santa Clara, Irmã Dulce e São Francisco. Há um ano, “descobriu” São Jorge por causa do neto caçula, que nasceu em 23 de abril.

– “Mãe, eu acredito que ele sorriu para você”, devolvi.

A minha resposta sincera tirou-a do prumo. Ela estava preparada para defender sua revelação com unhas e dentes e, inclusive, ser ridicularizada por estar dizendo aquilo.

– “Verdade, filha. Ele sorriu para mim…”, ela enfatizou, agora acreditando que eu também acreditava.
– “Mãe, você mereceu esse sorriso”, respondi. “Vou à sua casa. Será que ele também sorrirá para mim?”

Em tempo: eu acredito em Deus e que Ele ajuda quem cedo madruga. Acredito em Nossa Senhora, todas e em especial a de Aparecida, a nossa. Acredito na gentileza que gera gentileza. Acredito na gratidão, na amizade, na bondade e no perdão. Acredito na Ressureição. Acredito em anjos que sopram ideias nos ouvidos da gente e que derrubam quadros quando querem chamar a nossa atenção. Enfim, eu ACREDITO.

 

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