O jornalismo e a voz rouca e raivosa da ruas

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O jornalismo e a voz rouca e raivosa das ruas

 

Estou trabalhando nas redes sociais e encontro a notícia que o grupo Globo no Rio de Janeiro escolheu o último dia de agosto, mês do cachorro louco, para fazer um massacre da serra elétrica em suas redações. Mais jornalistas e mais profissionais afins da indústria da comunicação demitidos, no olho da rua. Mais um capítulo (triste) da falência e reestruturação de um modelo de negócio, que já foi muito rentável no Brasil. Aqui abro um parênteses irrelevante mas irresistível: por alguns anos, grupos de mídia impressa contaram com marcas e produtos com mais de 20% de rentabilidade, um feito até para os colegas norte-americanos. Alguns gringos, à época, perdiam a vergonha e perguntavam: “como vocês conseguem?”

 

Como estou trabalhando nas redes sociais, fico curiosa e desço o cursor para ler o que as pessoas estão comentando sobre o infortúnio de mais de uma centena de famílias. A voz rouca das ruas é rouca. Furiosa. Barulhenta. Raivosa. Ela destila ódio e ignorância. Ela mistura paixões políticas com sindicalismo do século XIX. Ela regurgita rancor. Há quem escreva: “Bem feito! Vocês (jornalistas) com sua opinião cavaram sua própria cova”. Fico com medo e paro de ler. Fico pessimista. Respiro.

 

Respiro de novo. Fico otimista. A minha bipolaridade tem uma razão. Acredito que a indústria da comunicação está vivendo um momento de transição. Do estado sólido para o gasoso. É uma mudança grande e consistente, porque o modelo de negócio está falindo. A publicidade e os leitores não pagam mais a conta dos veículos impressos. A publicidade e os telespectadores estão enxugando a conta dos canais de televisão abertos. Os meios e os modos de produção estão mudando. Na minha modesta opinião, não existirão mais os impérios da comunicação como conhecemos no passado, porque não existirá dinheiro em quantidade suficiente para sustentá-los. Existirão produtores de conteúdo interessante, independente e relevante que distribuirão seus vídeos, textos, fotos por diferentes canais. A remuneração será direta, vinda da audiência e de patrocinadores. Dinheiro curto, insuficiente para pagar grandes estruturas e mordomias. Milhões só virão quando a audiência for de bilhões.

 

Na minha modesta opinião, o jornalismo e os jornalistas sempre terão o seu lugar no mundo, à despeito da voz rouca e ruidosa da ruas. A razão é simples. Quem não é rouco nem raivoso, como eu e você, precisará sempre de três coisas: boas histórias, boas reportagens e boa análise. Jornalistas experientes, honestos e dedicados fazem isso como ninguém. Em um formato e modelo de negócio que ainda não está estabilizado, esse serviço será oferecido e remunerado. A má notícia para nós, jornalistas, é que voltaremos a ganhar mal como no século passado e retrasado, quando comecei nessa profissão.

A história de um nome. Porque me chamo Claudia

Captura de Tela 2015-07-29 às 18.47.34Sherazade é um dos meus personagens favoritos apesar de eu não ter lido As Mil e Uma Noites até o fim. Gosto dela por ser a prova literária de que uma boa história pode salvar muitas vidas. Salvou a dela. Salva a nossa. Da tristeza, do tédio, da prisão da rotina, salva, principalmente, da solidão. Quem gosta de ler nunca está só. Quem gosta de ler tem sempre companhia de um milhão de personagens e de suas respectivas emoções. Lendo vivo a minha vida e a do outro. Viajo. Amo. Sou homem, mulher, velho e criança.

Faço esse nariz de cera digno de Cyrano de Bergerac para contar uma história. A história do meu nome. Claudia quer dizer claudicante, manco e defeituoso da perna. Isso todo mundo sabe. Não me chamo Claudia por isso. Me chamo Claudia por causa da revista Claudia. Verdade. Absoluta. Nasci em 1965. A revista tinha quatro anos de idade. Havia sido lançada em 1961 e foi logo um sucesso. Minha mãe a adorava. Colecionava os exemplares desde o número 1. Minha avó paterna também. Tinha pilhas de Claudia na garagem da casa dela no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Claudia foi a primeira revista que vi. A primeira que recortei. Antes mesmo da Recreio, que foi lançada em 1969 e foi a primeira revista que chamei de MINHA, assim com caixa alta.

Minha mãe gostava muito da revista e estava em dúvida sobre o meu nome. Chegou a pensar em me chamar Renata, mas meu pai encrencou porque seria uma homenagem ao primeiro namorado que ela teve, Renato. Meu pai, por sua vez, queria que eu fosse Cristina, que era o nome de uma das muitas namoradas que ele teve. Para não ter briga, eu brinco, eles chegaram ao consenso visitando uma banca de revistas. Pronto, fui batizada e sem saber marquei o meu destino com aquela marca.

Quando eu era menina tive a honra de ter uma foto minha publicada na revista. Era pequena, preto e branco. Saiu em uma sessão chamada “Elas se chamam Claudia”. Era um sucesso. Muitas mulheres, fãs da publicação que tinha Carmem da Silva como colunista, fizeram como a minha mãe. Havia uma profusão de meninas Cláudias e a revista, sábia e oportunamente, decidiu homenagear todo mundo. E, claro, vender exemplares. Na minha família, naquele mês, compramos bem uns dez. Todo mundo queria ter uma Claudia com a foto da Coca, então o meu apelido, guardada de recordação.

Cresci leitora da revista. Era quase osmose. Quando decidi ser jornalista, não sonhei trabalhar em Claudia. Queria trabalhar em uma semanal de informação. Gostava de política, economia, internacional e assuntos gerais. Realizei meu sonho e viciei em semanal. Voltei a aparecer na revista Claudia adulta, nos anos 90, quando fui personagem de uma reportagem. A pauta era divertida. Falava sobre profissionais que tinham trabalhos diferentes, incríveis e eram muito felizes porque ganhavam para fazer coisas que todo mundo desejava e sonhava como lazer, prazer e por exclusividade. Na época, eu trabalhava na revista Caras e figurei como uma jornalista que tinha o privilégio de viajar pelo mundo – eu tinha ido para a Polinésia Francesa –, conviver com artistas e frequentar Castelos e Ilhas. De novo, a Claudia se encontrava com a Claudia. Entreguei um exemplar para a minha mãe, que ficou muito feliz com o “sucesso da filha”.

Há alguns anos, contei essa história para o dono da revista. Ele ficou feliz e emocionado com a história de amor da minha mãe por sua “irmã”. A mãe dele havia sido a idealizadora da publicação, que recebeu o nome da filha que ela não teve. Na ocasião, ele tirou o caderninho de anotações do bolso e pediu o nome e o endereço da minha mãe. Não entendi o motivo, mas dei sem discutir. Dias depois, chegava uma carta assinada por ele junto com um exemplar, que era parte de uma assinatura de cortesia para a minha mãe. Não preciso dizer que ela quase morreu de alegria. Não preciso contar que ela se debulhou em lágrimas. Também é desnecessário falar que ela reza pela alma dele todas as noites antes de dormir.

Hoje quem ficou feliz fui eu. Saiu uma nota sobre o meu A vida sem crachá, na seção de livros de Claudia. É uma divulgação positiva e importante para o lançamento. O significado da nota, no entanto, é maior e mais emblemático. Cuidei dessa marca durante meu último ano com crachá. Peguei amor. Carinho. Foi triste deixar para trás a logomarca que ficava na estante da minha sala com o “nosso” nome. Com a notinha, a Claudia se encontra de novo com a Claudia. Na paz, na boa, com amizade, carinho e gratidão.