A vergonha é o mal do mundo

Captura de Tela 2017-09-30 às 18.30.51

 

Que vergonha! Sujou a roupa limpa. Parece um menino!

Que vergonha, bebeu a limonada direto na boca da garrafa! Nem ofereceu antes aos coleguinhas.

Que vergonha não cumprimentar sua tia. Larga a brincadeira e sobe para dar um beijo nela.

Que vergonha ficar assim de perna aberta. Senta direito, menina.

Que vergonha colocar o dedo no nariz. Para com isso, você já é grande.

Que vergonha falar mal da sua avó para o seu primo, Silvio.

Que vergonha dizer palavrão, parece moleque de rua.

Que vergonha ter saído do clube na companhia de um desconhecido.

Que vergonha ter sido abusada.

Começou assim. A minha vergonha foi cultivada com pequenas reprimendas relacionadas a comportamentos infantis. Era moleca. Era sapeca. Era agitada. Era uma vergonha porque não tinha modos de princesa, não gostava de brincar de boneca e me divertia muito mais brincando com a turma da pesada da rua.

Era uma vergonha porque era abusada, ousada e atrevida. Era uma vergonha porque não obedecia as ordens. Era uma vergonha porque não tinha escapado do “homem do saco”. Sim, na minha infância, criança não ficava na sala e as informações se transmitiam por meio de fábulas e lendas. Os abusadores e pedófilos eram chamados de “homens do saco”, como aquele da lenda da menina dos brincos de ouro, que raptou a garotinha e a prendeu em um surrão.

Canta, canta meu surrão

Senão te bato com este bordão

Neste surrão me puseram

Neste turrão hei de morrer

Por causa de uns brincos de ouro

Que na fonte eu deixei

Fiquei sócia da vergonha. Sempre que aprontava uma e era reprimida, eu sentia profundamente, me recolhia e sofria.  Repetia mentalmete as pequenas besteiras que havia feito e me punia remoendo, remoendo, remoendo. Repisava o mal para doer, doer tanto até conseguir esquece-lo.

Como a vergonha é prima da culpa e da profunda humilhação, desenvolvi um método cênico de auto-flagelo. Na frente do espelho do banheiro, sem ninguém me ver, potencializava a minha vergonha repetindo a situação que provocara o sentimento e o sofrimento. Ali, me via ridícula e me envergonhava de novo, de novo e de novo.

Adolescente, quando repetia esse ritual infantil com mais frequência e intensidade, descobri que não estava só. Lendo o livro As Palavras do filósofo francês Jean Paul Sartre descobri a mania em comum.

“Desapareci, fui caretear diante de um espelho. Quando me lembro hoje daqueles trejeitos, compreendo que asseguravam minha proteção; contra as fulgurantes descargas da vergonha, eu me defendia com um bloqueio muscular. Além disso, levando ao extremo meu infortúnio, livravam-me dele: eu me precipitava na humildade a fim de esquivar a humilhação…”, descreve Sartre, em sua autobiografia que narra sua infância dos 4 aos 11 anos.

Eu não estava só e tinha um parceiro a altura do meu orgulho, loucura e vaidade. Explico. A vergonha pega, principalmente, em quem se considera superior, invulnerável, extraordinário. O meu antídoto para me livrar da vergonha, além de caretear na frente do espelho, era ser perfeita do meu jeito.

Se um dia sentei de perna aberta ou bebi direto na boca da garrafa de vidro antes de oferecer aos coleguinhas, hoje eu seria a campeã do jogo, a melhor da classe, a primeira cumprir o trabalho. Seria o exemplo e o modelo de eficiência e performance. Se um dia, cai na conversa de um pervertido por causa da promessa vã de participar de um time de vôlei, me transformaria em uma fera dos negócios.

Ser a melhor também ajudava a superar a vergonha de ser a mais alta da classe, de não ter seios fartos, de ter cabelo fino, de não ser chamada para dançar pelo menino mais bonito, de receber a cobrança atrasada da mensalidade da escola das mãos da madre superiora.

Por causa da vergonha, me tornei olimpiana. Não podia errar. Não podia falhar. Não podia perder. Nem no par ou ímpar. Não queria sentir vergonha mais uma vez. Doía, doía muito.

Viver com vergonha não é fácil. A nossa sociedade consumista, espetacularizada e exibicionista propaga a vergonha. Nossos pais, nossos líderes, gestores, políticos, professores (com exceções) estimulam as pessoas a vincularem sua autoestima e auto valorização ao que elas produzem como riqueza; ao cargo que ocupam; ao carro que dirigem. Esse modelo é duro, frio e solitário. Buscamos o isolamento. Sentimos culpa e medo (aquele medo que me empurrou a pensar em um plano para não perder meu status quo). Enfrentamos a estagnação, a falta de criatividade e de renovação.

A pergunta que Lúcifer, o anjo mau, vive sibilando em nossos ouvidos:

  • Para que inventar moda se pode dar errado?
  • Por que arrumar confusão com novidades que você não sabe se funcionam?
  • Por que buscar sarna para se coçar? Quem não é visto, não é lembrado.
  • Pra que abrir a boca? Guarde sua opinião para você.
  • Pra que correr o risco de passar aquela vergonha que você odeia outra vez?

Perigo. Perigo. Perigo, gritaria o robô da série Perdidos no Espaço (quem não conhece, vale ver no youtube, é hilário).

Na visão do escritor norteamericano Peter Sheahan, conferencista e consultor global da ChangeLabs, uma empresa de que executa projetos de mudança de comportamento de grande alcance para gigantes como Apple e IBM, a vergonha é o serial killer da inovação. Sempre que alguém deixa de compartilhar uma nova ideia, que evita fazer um comentário crítico, que aborta um ponto de vista disruptivo ou teme a exposição frente a um cliente, pode crer, a vergonha mora no ato. De quatro, calamos por causa do medo e da vergonha de errar. Por causa da vergonha de ser depreciado, de ser gozado, de parecer mais burro ou tapado do que o outro.

Por causa da vergonha, me submeti a abusos e humilhações. Por causa da vergonha, não denunciei um pedófilo. Por causa da vergonha, não disse nãoinúmeras vezes. Por causa da vergonha, fiz o que não queria milhares de vezes. Por causa da vergonha, sofri e chorei.

Pensando na minha vergonha crônica, lembrei de uma vez em que fui preterida e não recebi uma desejada promoção. Chorei, chorei até ficar com dó de mim. Adoeci. Meu pulmão, órgão da tristeza, decidiu explodir em uma sequência dolorida de seis pneumotórax espontâneos. Hoje, fazendo engenharia de obra feita, reconheço que a dor maior não era pela perda do cargo, nem pela perda do aumento de salário. A dor maior foi provocada pela vergonha de ter sido preterida. Como justificar o fracasso? Como explicar a derrota? Como justificar não ter sido A escolhida?

Rodei meio mundo. Fiz e aconteci. Sempre com vergonha. Sempre achando que poderia dribla-la com minha invulnerabilidade.

Comecei a perder a vergonha quando decidi ser mãe. Seria a supermãe, certo? Errado. A natureza foi generosa comigo. Levei mais de um ano para conseguir engravidar e assim começar a aprender. Exames, consultas, dor, vexames, montanha russa hormonal. Por ele valia a pena chorar na frente do chefe. Pedir ajuda, pelo amor de Deus.

Me deixa, vergonha!!!

Ali, na mesa de parto, com as pernas abertas, parindo meu Francisco, minha melhor obra, minha revolução, esqueci a danada e fiz toda a força que eu podia. Dane-se se eu poderia soltar um pum na cara do médico. Dane-se se eu poderia defecar.  Ao virar mãe, fui gerundiando a vergonha e a compostura. Nada era tão importante quanto a sobrevivência dele. Por ele, perdi a vergonha de dizer que não sabia dar de mamar e pedi ajuda a uma dupla de dolas generosas e acolhedora. Por ele, liguei de madrugada para o hospital e para o pediatra. Por ele, me borrei, me babei, me sujei. Por ele, pedi penico para minha mãe. Por ele, pedi autógrafos. Por ele, paguei mico. Por ele, desci do salto. Por ele, fui ficando menos besta, menos orgulhosa, menos perfeita. Mas ainda não estava livre. O meu trabalho com crachá sempre consumiu minha alma e minha vida. Com a chegada do Chico, eu tinha um motivo extra para trabalhar e produzir mais. Tinha a desculpa de que precisava de mais dinheiro para criá-lo.

É incrível mas foi supostamente o momento de vergonha maior da minha vida — a demissão e perda do meu tão prestigiado emprego – que promoveu minha alforria. Fui abatida em pleno voo numa segunda-feira de agosto, o mês do cachorro louco, depois de não ter batido a meta pela primeira vez na era executiva. Tomei uma rasteira e cai de bunda. Doeu. Chorei, sofri e escancarei. Percebi que só teria salvação e felicidade com o meu plano B se abrisse a janela da alma e contasse para todo o mundo – sem pudor nem vergonha – todo o horror e toda a dor que sentia. Me expus de modo quase pornográfico. Amigos queridos chegaram a temer pela minha sanidade. Agradeço, mas foi a falta de pundonor que me libertou. Tipo o beijo do príncipe que desperta a Bela Adormecida. Graças ao compartilhamento de sentimentos e ao despudor, a mais alta categoria de falta de vergonha, descobri muitas coisas:

 

  1. que a solidão é o mal do mundo.
  2. que a vergonha é o mal da alma.
  3. que aceitar a própria vulnerabilidade é libertador e dificílimo.
  4. que os amigos salvam a gente.
  5. que o prazer e o tesão movem o mundo dos que não ambicionam o poder.
  6. que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.
  7. que apesar de o melhor lugar do mundo ser aqui e agora, é imprescindível planejar.
  8. que ter planos B é um jeito saudável e divertido de levar a vida.
  9. que eu podia relaxar e me divertir mais.
  10. e, finalmente, que eu era e sou uma pessoa muito privilegiada e feliz.

Descobri recentemente, graças a indicação da querida Roberta Faria, o livro A Coragem de ser imperfeito, da pesquisadora norte-americana Brené Brown. É um documento fascinante sobre a vergonha. Lê-lo é uma forma de lidar, encarar e, por que não, se livrar dela. Ainda sinto vergonha às vezes, mas cada vez menos e de menos coisas. Falar sobre o que me envergonhava antes também é maravilhoso. Libertador. Parece coragem me expor e contar sobre o abuso sexual que sofri na infância. Não é coragem, mas uma forma de enfim me livrar do sentimento de vergonha e culpa que carreguei por tantos anos. Estou livre. Estou leve. Não estranhe, portanto, se eu tiver muitos momentos de “Confissões de uma senhora de meia idade”. Ainda não é demência, nem Alzheimer, mas uma revisão caseira, minha terapia de botequim sem álcool, para reduzir o peso da bagagem e seguir minha viagem. Sem pudor. Sem vergonha. Com alegria. Com prazer.

 

Por que Plano B?

Captura de Tela 2017-09-30 às 17.46.52

Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.

Família, amigos e música

 

O gênio da lâmpada apareceu na sua frente e disse: “Escolha três coisas que você mais ama e não pode viver sem? O que você responderia? Já pensou nisso?

De chofre, a resposta automática pode ser aquilo que você mais demanda naquele instante. Tipo: está duro? Pede dinheiro. Está com fome? Pede comida. Mas não é isso que o gênio quer saber. Irritado, ele explica: “Eu disse três coisas que você mais ama e não pode viver sem porque vai sentir fome e dor no coração”.

Agora entendi. Obrigada gênio. Deixa eu pensar. A lista de itens começa a rodar em ordem alfabética como um letreiro de filme.

Amigos. É o primeiro objeto do desejo que brota na minha cabeça. Só de pensar em abrir mão deles começa a doer.

Amor. Amor verbo intransitivo. Está na categoria comer e respirar. Ufa, passei.

Bicicleta. Lembro da Lola estacionada na garagem. Sinto tristeza e nostalgia. Adeus minha companheira.

Bichos. Lembro da família de quatro patas e já sinto vontade de chorar. Gênio, vamos negociar isso aqui?

Cinema. Amo, adoro, mas às vezes fico meses sem ver. Passo.

Chocolate? Já fiquei um ano sem comer em uma promessa que fiz, sobrevivo sem.

Cachaça? Como será a vida sem uma caipirinha? Possível. Fora do rol.

Churrasco. Enfim, virarei vegetariana?

Doces? Posso sim riscar o açúcar da minha existência. Um, dois, três e já.

Família? Amigos, bichos e família são para mim um único item. Gênio, vamos negociar?

Fotografia. Adoro ver. Adoro fazer. Saudade.

Livros? Ai meu Deus, vamos deixar na lista para decidir no final?

Mar. Se o gênio me levar para Marte, fazer o quê?. Se na Terra, eu ficar será muita falta de sorte ficar longe dele de novo. Vamos rezar. Vamos torcer.

Música. Sem chance. Sem chance. Sem chance.

Arembepe, Londres, Paris, Rio e Roma? Foi um privilégio conhecê-las. Vão morar para sempre no meu coração.

Vou espremendo a memória. Revendo os itens, como quem faz a limpeza anual do guarda-roupa. Como quando lota a capacidade de armazenamento do MacBook Air e você precisa escolher quais fotos ficam na memória e quais vão para o HD externo. Lembro de um monte de coisas que gosto de fazer mas que faz um tempo enorme que não pratico, como mergulhar, jogar handball e fazer fios de ovos. Percebo que está cada vez mais claro quais são as prioridades. Fico feliz. Será mais fácil negociar com o gênio, se é que existe negociação.

“Gênio, minha família, meus amigos e meus bichos podem fazer parte de um único item?” Ele ri, sarcástico. Deve ouvir cada proposta indecente. “Você pariu seu cachorro, Zapata, do mesmo jeito que pariu seu filho, Chico?”. A pergunta encerra o assunto. Ele me olha com impaciência.

Então, qual é a dúvida? Quer saber? Nenhuma.

“Família, amigos e música.”

A lista tríplice é definitiva. É um deleite saber poder definir, assim, com relativa facilidade os meus amores. Enquanto escrevo, sinto uma leveza e uma sensação de liberdade. O resumo das minhas necessidades. A essência. Só isso importa. Só isso interessa. O resto é acessório. Se tiver muito bem. Se não tiver paciência. Faço um rápido flash back. É a prova dos nove. Não esqueci nem deixei nada para traz. A última quinzena foi linda, especial. Vivi cercada de gente que amo, celebrando a vida em modo festa, encontro, jantar, reunião. Família, amigos e música.

IMG_8224fotopost1

Obrigada, Gênio. Não preciso pedir nada. Tenho tudo aquilo que amo e preciso.Ah, por favor, deixa eu terminar meus dias na beira do mar.

 

 

 

 

 

 

Epifania de domingo: pequenos prazeres

Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Canoa Quebrada, 1984, meu retrato de Dorian Gray
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális
Retrato da alma pelo mestre Sérgio Zális

Todo mundo tem o seu retrato de Dorian Gray. O meu é esse acima. Eu tinha acabado de fazer 18 anos. Havia passado para o segundo ano da faculdade de Jornalismo. Me sentia livre, jovem, poderosa, inteligente e capaz. Estava muito apaixonada. Tinha certeza que cumpriria meus milhares de planos. Tinha a vaidade de achar que era dona da verdade e que poderia mudar o mundo sem precisar mudar de ideia. Tinha tantas vontades quanto as que cabiam dentro do meu peito.

No dia da foto, naquele distante janeiro de 1984, na ainda quase deserta praia de Canoa Quebrada, no litoral sul do Ceará, enxerguei, sem querer o futuro. Desisti de fazer uma tatuagem de lua e estrela no ombro direito, porque me vi ontem nua na frente do espelho, e pensei:

– Essa tatuagem não ficará bonita no corpo de uma mulher de 50 anos. E vou sentir uma dor, uma saudade, uma tristeza desse tempo que foi tão lindo, tão solar, tão sensacional. Vou cancelar o serviço.

Como disse nove linhas acima, eu era metida e pretensiosa. Burra. Vaidosa. E equivocada. Não tenho a tatuagem e lembro disso tudo como se a tivesse. Se a tivesse, seguramente, teria orgulho e carinho por ela em meu ombro ainda rijo ma non tropo. Sempre que a enxergasse, teria um arrepio de prazer na espinha. Perdi. Paciência.

O bom da vida é que sim, a gente dança. Baila e muda o tempo inteiro. No meu caso, além de mudar, acabo por engolir com farinha e gargalhadas tudo o que um dia disse “nunca, jamais faria”. Fiz tudo e mais um pouco do que já neguei e condenei na vida. Casei. Tive filho. Separei. Engordei. Emagreci. Cedi. Descasquei. Perdi. Apaixonei. Troquei. Principalmente falhei. E fundamentalmente, mudei. Mudei muito.

Sem arrependimentos, fi-lo porque qui-lo. Porque assim entendi ser melhor. Ontem aconteceu de novo. Depois de um feriado inesquecível, quando recebi meus hóspedes com carinho, estive reunida com meu filho e meus amigos mais queridos, quando tive o prazer de ser fotografada por um mestre e quando tive a honra de celebrar o amor de dois amados amidos, tive uma epifania na frente do espelho do meu banheiro.

Tirei a roupa para tomar banho e me vi nua. Despida das roupas e das ideias e preconceitos que carreguei por tantos anos. Reparei nos seios mais cheios e caídos do que no tempo do retrato e achei que eram lindos. Encarei minha barriga nada negativa e achei-a verdadeira e legítima. Representa os últimos anos de prazer. De festa com os amigos. De farra com a vida.

Não pretendo cultivá-la porque quero manter o meu guarda-roupa G, número 44. Mas definitivamente  não perseguirei mais o figurino 40 que me coube por tantos anos. Ele ficou para trás, como uma boa lembrança. Como a foto do topo desse texto. Como a força de vontade que me abandonou no café da manhã quando disse sim para um bolinho de estudante.

Ainda na frente do espelho ontem, lembrei de uma palavra que adoro e me inspirava a fazer dieta e exercício no ritmo 24×7. Sílfide. Sílfide para quem? Bonitinha e perfeitinha por quê? Um sorriso maroto apareceu no canto dos meus lábios, ligeiramente enrugadinhos. Pensei despudorada:

– “Ficou velhinha e espertinha. Abandonou o estoicismo e aderiu ao hedonismo. Boa escolha.”

Verdade, verdadeira. Ainda sou fibrosa, mas faz tempo que larguei mão de ser pétrea, incansável e inquebrantável. Estou ficando maneira, maleável e malemolente,  como as curvas da minha cintura, os excessos na minha coxa e a flacidez dos meus braços que agora só dão adeus no formato conchinha, tipo rainha da Inglaterra.

Entrei no chuveiro quente pensando nisso tudo e na felicidade que sentia. A pele bronzeada se arrepiou de prazer. Dane-se se ficou um pouco mais enrugadinha. De verdade, faz tão pouca diferença em comparação com a memória de um instante, assim, de prazer. O domingo, então, acabou assim em festa, com a súbita experiência da compreensão de algo assim tão essencial.

 

Tudo é mudança

“Tudo é mudança”, dizia Eurípedes, o poeta trágico grego. “Tudo cede o seu lugar e desaparece.” Eurípedes é o poeta da mudança. Deixou os deuses de lado. Escolheu tratar dos problemas triviais dos humanos, que no século V a.C viviam um momento de mudança de vida e de tradições na sociedade ateniense. Eurípedes mudou também o ponto de vista da tragédia. No lugar dos feitos e das vitórias, escolheu contar a história dos derrotados, dos vencidos e das mulheres, que nem eram consideradas parte da sociedade. Escreveu 95 peças. Só achou o sucesso pleno séculos depois da sua morte. Inspirou dramaturgos modernos como Racine, Goethe e Eugene O’Neil.

 

Eurípedes era caudaloso e recolhido. Morreu sozinho como viveu. Medeia é a peça dele que mais me impacta e impressiona. A história de uma mulher tomada de amor e ódio pelo marido. Ao ser traída, abandonada e rejeitada por ser estrangeira, rebela-se. Revolta-se. Vinga-se dele e do mundo masculino, matando os próprios filhos que ama profundamente. Fúria, morte, dor e mudança. “Deixe em paz meu coração, que ele é um ponte até aqui de mágoa e qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d’água”, canta Medeia na peça Gota d’Água de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptada da tragédia grega.

 

Muita gente odeia mudar. Acha uma tragédia, digna de Medeia. Eu gosto. Antes de tudo, acho a palavra linda. MUDANÇA. No dicionário, a etimologia explica: radical de mudar + ança. Vem do latim. É sinonímia de deslocamento, modificação e variante. Antônimo de conservação. Faço também de uma leitura livre: Mu, um Deus, + Dança, um movimento, um deslocamento com ritmo, intenção e música. Mudança é um baile. Mudança é um baile permanente.

 

Vou mudar de novo. Agora, de casa. Em novembro, quando completo 50 anos, serão 18 mudanças de casa. Na média, dá uma troca de lar a cada 2, 7 anos. É bastante. Vou mudar porque sou conservadora. Vou mudar para manter meus planos em linha. Vou mudar para que tudo fique como está, como promete o príncipe Falconeri, personagem do livro O Leopardo de Giuseppe de Lampedusa.

 

Acredito nisso e por isso gosto de mudar. Dessa vez, no entanto, demorei a tomar a decisão. Precisei de um ano e de uma briga para decidir. Puxaram a minha orelha. Cobraram uma posição. Questionaram o meu discurso. Disseram que eu estava fazendo cortes cosméticos. Era verdade. A equação é simples. Aritmética, como 1 + 1 = 2. Vou sair do meu apartamento gigante e mudar para outro com a metade do tamanho. O benefício será reduzir 50% do custo do condomínio e contar com uma receita nova de um bom aluguel.

 

Por que não fiz isso antes? Autoindulgência. Gosto da minha casa grande com vista para a piscina do clube. Gosto da minha rua com ciclovia. Gosto dos meus móveis espalhados por uma sala de três ambientes. Preciso disso? Descobri, agora, que não. Descobri na semana retrasada, que ainda estava apegada a uma imagem e a um status quo que não mais me pertencem. Esse apego, considerando o planejamento orçamentário da ME Vida Sem Crachá S.A , poderia significar uma conta cara demais para pagar lá na frente, quando espero viver na sombra e com água fresca. Portanto, como diz o príncipe, mudo agora para não precisar mudar meus planos no futuro.

 

Doeu? Nada, por enquanto. Até meu filho, um virginiano apegado ao método e à bagunça organizada que ele produz, descobriu uma diversão na busca por uma nova casa. Nos sites das imobiliárias, imaginamos como seriam os proprietários daqueles apartamentos e mobílias. “Esse deve ser barroco, como eu”. “Aquele tem um péssimo gosto”. “Fulano deve ser um acumulador. Olha quanta tranqueira tem no quartinho de tranqueiras.” A proposta de mudança transformou-se em mais um exercício de encontro entre mãe e filho e agora brincamos e brigamos na disputa sobre quais móveis vão ou não para a nova casa. Já sei que vou acabar perdendo, o que é ótimo. Será mais uma mudança no meu histórico de jamais perder, mesmo que seja no par ou ímpar.