Por que Plano B?

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Espero não ser chata. Espero não me tornar monocórdica. Espero não ser repetitiva. Não entendendo a vida sem planos, sonhos e planos B. Por que? Porque sim. Porque facilita. Porque faz a diferença. Vale para o amor. Vale para a bebida. Vale para a vida.

Por que plano B?

Eu sempre soube o que queria ser e fazer da vida. Desde menina sabia que ser jornalista era o meu destino. Ele se cumpriu. Por 30 anos, fui jornalista 24 x 7. Amava o que eu fazia e seria capaz de seguir fazendo o que fazia pelo resto da vida até o último suspiro.

Apesar do amor, apesar do prazer e apesar da bela carreira que tive, sempre fui pragmática e muito, muito medrosa. Sempre tive medo de ficar pobre, de ficar sozinha, de não ter amigos, de não contar com a ajuda, de ter que catar papelão na rua para sobreviver. Devo tudo o que tenho a esse medo e ao meu exagerado senso prático que me levou a criar um plano B – ou seja, uma ação, uma alternativa, uma opção – para tudo aquilo que me assustava.

Como tinha medo de perder o emprego (o que, de fato, um dia aconteceu) sempre ralei muito e poupei tudo o que pude para ter colchão e manga para encarar os dias ruins. Como tinha medo de envelhecer e não ter mais oportunidades de trabalho (o que também, de fato, aconteceu) – comecei a montar meu plano B, a minha, a nossa Pousada A Capela, 10 anos antes de poder almejar a previdência privada e cinco anos de alcançar meus bem-vindos caraminguás do INSS. E, finalmente, como tinha medo (tenho) de ser rejeitada, criei um plano para não precisar correr, rastejar e ajoelhar por um emprego. Quando perdi o meu, criei um jeito luxuoso de avisar a todos que nem precisavam se lembrar de mim porque dali para frente eu queria viver sem crachá. Era mentira, claro. Mas todo mundo acreditou e eu mantive a fleugma e nunca mais procurei por um emprego no jornalismo.

O bendito fruto do meu eterno receio é uma benção. Farei 52 anos em 2 de novembro de 2017 e vivo como eu quero. Trabalho muito, com satisfação, nos meus próprios negócios – a pousada e uma loja de arte popular. Ganho dinheiro suficiente para sustentar os meus. Escrevo meus textos sem precisar vendê-los no almoço para pagar o jantar. Dizem que estão pagando 10 reais por uma lauda de 20 linhas de 70 toques. Convivo com meus medos e sou feliz por conhecer, aceitar e expor minha abissal vulnerabilidade. Tenho incontinência de ideias e projetos para o caso de viver 100 anos e para o caso de dar tudo errado a partir de agora. Funciona. Ajuda. Rende. Faz bem.

A proposta deste blog que começou com os aprendizados de quem perdeu o emprego e agora preconiza o plano B como modo de vida é singela. Compartilhar a minha experiência e de outras pessoas mais espertas e experientes do que eu.

Por que Plano B? Porque é transformador. Porque é necessário frente a era do pós-emprego, da longevidade, da obsolescência gerada pela revolução digital. Porque faz bem à saúde. Faz bem à alma. Porque é divertido. É útil. É indispensável. Recomendo ter o plano B como uma função, como um modo de vida. Acredite, é libertador.

Plano C

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O plano B virou A. O antigo A caminha para a extinção. Como prudência, dinheiro no bolso e canja de galinha não fazem mal a ninguém, parti para a construção do meu Plano C, que será B logo que deixar o plano das ideias e encarnar em um plano de negócios.

Dessa vez, vou fazer tudo direitinho. O time do Sebrae de Camaçari, meu município baiano, e de Salvador, a primeira capital do Brasil, estão me ajudando. A proposta é começar do começo. Fazer um plano estratégico, um plano de negócio e estressar, até o limite, todas as hipóteses antes de colocar a mão no bolso.

Já temos a ponta do fio da meada nas mãos. Agora é hora de investigar, pesquisar, ouvir, perguntar, consultar e ler tudo o que estiver disponível sobre o tema. Você deve estar pensando: “plano C em meio a crise?” Pois é, existem dois momentos bons para investir. Aqueles de profunda bonança, como quando inaugurei a minha pousada. E momentos de absoluta tormenta, como agora. Espero estar escolhendo um nicho de mercado que faça sentido – meio caminho andado para o sucesso de qualquer plano C.

Preciso fazer uma confissão: a escolha fala ao coração. Sou do time que defende que plano B bom é filho do prazer. Gostar de fazer faz toda a diferença no resultado do negócio – e na satisfação que você tira dele. É o meu caso. O meu plano inclui garimpo, pesquisa, viagens, interação com o público e planejamento. Tudo o que eu gosto e sei fazer.

Cachorro picado por cobra tem medo de salsicha. Vou repetir o modelo, bem sucedido, do meu plano A. Vamos começar pequeno. Vamos mirar o bom e deixar o ótimo para o futuro. O risco foi a primeira coisa que avaliamos. Ele é pequeno. Não gosto de arriscar demais. Não quero sentir pressão de investidor, banco ou acionista. Acredito no simples. Gosto de começar pequeno e ver crescer. É o meu perfil. Perdoem-me, portanto, pela falta de ousadia.

Em ritmo de baile permanente, voltei ontem para as quadras e hoje para a academia. Preciso de muita disposição e energia para trabalhar. Desconheço plano B, C ou D que dê certo ou gado que fique gordo sem o olhar e o suor permanente dono. O negócio próprio, pequeno ou grande, prospera quando o dono está ali, do lado, colado, trabalhando, pensando e colocando a mão na massa.

Quem diria, que menos de um ano depois, eu iria rever todas as minhas apóstilas do Empretec para começar de novo. Que Hefesto, o Deus do trabalho, e São José nos protejam.

O plano B que saiu do armário

Despir a alma, vestindo o corpo. Despir o corpo para revestir a alma de prazer e felicidade.

Depois que conversei por telefone com a Theresa Rachel, essa foi a imagem que me veio à cabeça. Pouco antes de desligar o telefone, ela confessou que, recentemente, havia chorado de contente. Tinha realizado um workshop com ótimos resultados. Depois que as clientes se foram, sentou-se à beira do lago do sítio onde mora, no interior de São Paulo. Olhou em volta, olhou para si, reviu os últimos capítulos da sua reinvenção e não aguentou de emoção. “Mudei muito nos últimos quatro anos. O mais bacana é que a minha mudança tem ajudado outras mulheres a mudar também”, diz com orgulho na voz. O que ela faz? É terapeuta de guarda-roupas. Ahhh? Calma, vou contar e explicar.

Theresa tem 35 anos. É filha da geração X, que já nasceu no rabo do foguete. Filha de São Paulo, formou-se em Marketing e em 2009 mudou-se para Campinas para trabalhar. Foi funcionária de várias multinacionais. Tinha cargo bom, salário e benefícios atraentes. Tinha prestígio na família. Tinha o respeito dos amigos. Faltava satisfação. Faltava sentido. Faltava tesão. Acordava de manhã sem vontade de trabalhar. Vivia no automático. Trabalhava até tarde e se perguntava o que estava fazendo da vida.

“No final de 2011, a corda arrebentou. Decidi tirar férias do trabalho, do meu marido e da minha rotina. Me enfiei em um retiro de revisão de vida em um mosteiro no interior de São Paulo. O desafio era ficar cinco dias em absoluto silêncio. Tinha um caderno e uma caneta, onde fui escrevendo o que eu estava sentindo. Durante um exercício, uma voz falou no meu ouvido. Tive um insight. Lembrei que havia recebido um atendimento com uma personal stylist na Casa Natura em 2009 e que aquele trabalho tinha me encantado. Decidi que depois do retiro, estudaria para entender que profissão era aquela”.

Antes de continuar, preciso de parênteses. Theresa nunca teve closet de quarenta metros quadrados. Jamais colecionou sapatos Louboutin e não vende a mãe para ter a última Lady Dior. Não era ligada em moda nem em tendências fashionistas. A vontade de trabalhar com estilo pessoal tinha a ver com transformação e não com glamour nem grife.

“No segundo dia do retiro, tinha certeza que queria mudar de vida e trabalhar com o jeito de vestir das pessoas. Me inscrevi em um curso de personal stylist e comecei a vivenciar meu segundo momento de autoconhecimento e transformação. Entendi que tinha uma enorme dificuldade de me identificar com as peças do meu armário. Comecei a prestar atenção em mim, no porquê das minhas escolhas. A reflexão extrapolou meu guarda-roupa”, relembra.

“Percebi que não conseguia escolher uma roupa que revelasse, de verdade, quem eu era. Se eu não sabia fazer algo tão simples, como é que eu poderia escolher o rumo da minha vida?”

A reflexão é absolutamente pertinente. A roupa é nossa fina estampa. Ela fala quem somos, o que queremos e revela se estamos bem. Theresa virou o guarda-roupa do avesso e, com ele, a própria vida. Pediu demissão, se separou do marido e trocou de casa. Recomeçou. Tinha uma reserva de dinheiro e uma enorme vontade de se descobrir. A princípio, sabia apenas o que NÃO queria. Não queria trabalhar no mundo corporativo. Não queria mais usar suas roupas certinhas, normais, de cor única. Decidiu estudar. Fez cursos de formação de consultoria de imagem. Fez cursos de inteligência emocional. Foi para Miami, nos Estados Unidos, fazer outro curso de personal stylist. Na prática, foi sendo estilista de si mesma. Foi desenhando e ajustando um novo figurino para a pessoa física e jurídica que queria ser.

“Durante o mês que passei nos Estados Unidos, aprendi muito mais do que orientar clientes na forma de se vestir. Aprendi que pessoas especiais entram em nossas vidas para aprendermos e trocarmos experiências. Foi outro momento importante de autoconhecimento”, diz Theresa, que segue estudando e se preparando para ajudar pessoas a mudar de guarda-roupa, de roupa, de corpo e de vida.

Ao retornar, estava preparada para encarar a nova profissão. Também havia descoberto uma nova Theresa. Estava repaginada. Tanto que recasou com o ex-marido, que neste processo também era “outro marido”. Foi ai que decidiu começar a atender. As primeiras clientes foram cinco amigas, que a ajudaram a criar o modelo de negócio e a chegar no conceito de que não era apenas consultora de imagem mas uma terapeuta de guarda-roupa. Qual a diferença? Theresa explica.

“A grande sacada foi quando entendi que meu trabalho não era com moda, tendências, grifes de luxo e desfiles de passarelas. O que eu fazia era ajudar pessoas. Meu desejo sempre foi trazer algo mais significativo, fazer com que minhas clientes pudessem se observar, se conhecer e se reconhecer por meio daquilo que vestem e, a partir daí, ver a vida com mais prazer, propósito, amor e beleza”, define a terapeuta de guarda-roupa, que tem no autoconhecimento a sua principal ferramenta de trabalho. “A mudança na imagem pessoal é um processo que vai muito além do vestir.”

Depois da experiência com as amigas cobaias, Theresa começou a planejar o novo ofício. Aplicou todos os seus conhecimentos de marketing para dar cara à sua empresa. Montou um site muito bonito (www.theresarachel.com.br) e eficiente. Criou um conceito e uma marca. Estabeleceu que iria trabalhar em casa, no seu sítio cercado de mata e bichos, perfeito para cursos e workshops, ou em domicílio, fazendo atendimentos individuais. Criou três módulos de atendimento de 13 a 25 horas, com preços e focos diferentes. O mais completo, batizado de máster, oferece autoconhecimento, avaliação de tipo físico, análise de coloração, maquiagem, auditoria de guarda-roupa, gerenciamento de guarda roupa, pré-shopping e personal shopping e gerenciamento de guarda-roupa pós shopping. É instigante.

Ela dá um curso intensivo por mês. Também oferece cursos em empresas e para grupos fechados. Escolheu atender apenas o gênero feminino, porque acredita elas estão abertas à mudança e têm no vestir uma linguagem muito importante. “Atendo mulheres dispostas a se reinventar. Algumas se separaram. Outras arrumaram um novo emprego. Tem também as que se tornaram mães há pouco tempo e as que fizeram severos regimes e por isso precisam mudar hábitos e, também, todo o guarda-roupa”, conta Theresa. A propósito, ela, em breve, pretende outra mudança radical: quer ser mãe.

Proprietária de uma micro-empresa, com CNPJ e inscrição estadual, Theresa está exultante. Ganha bem mais do que quando tinha crachá de uma empresa de alimentos e, principalmente, trabalha com absoluta paixão e prazer. “Acredito que cada cliente que entra na minha vida veio até mim por alguma razão. Acredito que tenho uma missão a cumprir na vida delas e que também tenho algo para aprender com elas. Em cada atendimento, planto uma sementinha de mudança que se inicia pelo guarda-roupa mas que se estende à relação delas com elas mesmas”, acrescenta.

“Estou muito realizada com este meu trabalho. Valeu a pena mudar para ser feliz.”

 

 

O bolo do sonho da Luciana, direto da Austrália

 

Não sei porque, mas a gente tem a mania de protelar os sonhos. Deixar para amanhã aquilo que poderia fazer ontem. Deixar para depois aquela vontade, aquele desejo mais profundo. Esperar um pouquinho mais. Adiar um segundo só, que acaba virando um minuto, uma hora, um dia, um mês, um ano, uma década, se bobear um século. Fiz isso muitas vezes. Vi amigos fazendo também. A minha geração era bundona. Tinha um apego danado ao mass midia, ao stabilishment, ao mainstream. Quando jovem, até sonhei em jogar tudo para cima e para o lado e mudar para a Europa. Viver na França e lavar prato. Por aqui, Sarney governava um país consumido pela inflação: 363% ao ano. Uma loucura. Um crise, que de tão profunda a gente achava até normal. Fui e voltei. Tinha cinco empregos quando parti. Ganhava 5000 dólares por mês (naquela época tudo era dolarizado), uma fortuna para um pirralha recém-formada de 21 anos. Meu sonho ficou no ar. Quem sabe aos 60, coloco em prática.

O projeto da Vida sem crachá não foi um sonho, mas uma contingência. Deu certo. Agora, a proposta da versão 2, a missão, é contar sonhos que viraram planos B e deram certo. Ou vão dar certo. Ou não. Tanto faz. O que importa é sonhar. A primeira história é da Luciana Rodrigues. Ela é gaúcha. Publicitária. Não é menina, nem representa a geração ypsilone, conhecida também como millenium. Lu tem 38 anos e sonha alto e longe.

Ela conta que até os 36 anos viveu “bela adormecida”. Sonhava mas não sabia direito com o que. Foi casada por 20 anos com homens diferentes, porque costumava engatar um relacionamento longo em outro mais longo ainda. O penúltimo, que durou 6 anos, terminou em 2012. Na sequência, emendou em outro que durou pouco, mas que segundo ela: “me acordou pra vida com um tapa na cara”.

Paft!!!!

“Hoje, olhando pra trás, tenho a sensação que até os meus 36 anos de vida eu dormi ou vivi num estado de semi consciência”, diz Luciana, definindo o seu modo stand by de viver.

A transformação/virada aconteceu, acreditem, nas férias. Luciana viajou em dezembro de 2013 para Sydney, na Austrália, para passar uma temporada de apenas 30 dias com o irmão, que mora lá há oito anos. Era gerente de marketing de uma grande companhia. Ganhava bem. Tinha prestígio. Futuro. Estava com o coração partido. Melhor, despedaçado. Tomara um pé na bunda daqueles. Vamos ouvi-la:

“Cheguei em Sidney no dia 30 de dezembro de 2013, às 21h30 depois de uma viagem longa e cheia de imprevistos. Virei o ano numa festa absurdamente maravilhosa na Ópera House, onde vi os fogos explodirem na Harbour Bridge num cenário de filme. Não sabia se chorava de emoção, de alegria ou se abraçava meu irmão e minha cunhada pra desejar Feliz Ano Novo. Passei o mês de janeiro de 2014 inteiro aqui em Sydney curtindo a cidade, as praias, a vida. Foi intenso. Foi decisivo.”

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As férias terminaram e Luciana voltou para o Brasil. Estava decidida. Em 3 de fevereiro, dia do seu aniversário, a executiva voltou ao trabalho e revelou à chefe sua decisão. Em um ano, deixaria a empresa para morar na Austrália. Ahh?

“Nunca antes na história da minha vida tinha planejado alguma coisa, tudo sempre foi acontecendo pra mim de um jeito ou de outro. Planejei minha mudança para a Austrália, coloquei tudo no papel, listei as razões pelas quais ia deixar minha boa vida em Porto Alegre e viria pra cá. O grande objetivo era me desafiar porque a vida na capital gaúcha era boa, mas era entediante. Meu trabalho, apesar de ser invejado por muitos, não me oferecia nenhuma oportunidade de crescimento à médio prazo. Eu queria mais, muito mais. Queria frio na barriga, medo, incerteza, desafios, queria saber os meus limites e quem eu sou de verdade. E achei que não iria conseguir esse pacote completo no Brasil. Então, comecei a executar o plano. Pra praticar mais o meu inglês, decidi virar hostess do CouchSurfing, um programa de hospedagem, e recebi muito gringo em casa. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Conheci muita gente legal, me conheci através deles e hoje tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Decidi também ser voluntária na Copa do Mundo e de novo, foi uma experiência incrível.”

Em paralelo às novas experiências, Luciana dedicou-se a juntar todo o dinheiro possível. Precisava comprar as passagens, pagar o curso e sobreviver. Não conseguiu ser transferida pela empresa onde trabalhava. Viajou com visto de estudante. Antes de embarcar, a necessidade de conseguir mais recursos gestou um plano B.

“Em setembro de 2014, percebi que precisava de mais dinheiro do que tinha e comecei a pirar. Tinha que arrumar essa grana. Poderia pedir para o meu pai, mas não quis. O plano e o sonho eram meus. Passei noites em claro tentando achar uma alternativa. Ela veio sem querer. Resolvi assar um bolo de chocolate para levar em uma reunião matutina na firma. Um bolo simples, mas bem gostoso.”

Bingo. Nascia ali um empreendimento. Todos os que provaram o bolo, amaram. Sugeriram que eu fizesse outros para vender. Estava ali a solução para os problemas de Luciana. Criou uma página no Facebook chamada O Bolo do Sonho para vender seus quitutes. Marqueteira, embalou a gula em sua história linda. “Contei que tinha um sonho de morar na Austrália e por isso, estava vendendo bolos pra arrecadar dinheiro. De outubro de 2014 a janeiro de 2015, vendi muitos bolos e consegui o dinheiro que faltava. Muita gente conhecida e desconhecida comprou meu bolo e apoiou a minha história. Pra cada um, eu escrevia um bilhetinho à mão agradecendo a ajuda. E cada vez que eu preparava um bolo encomendado por alguém que também tinha uma história, eu fechava meus olhos e colocava, além dos ingredientes, um pouco da minha energia, dos meus bons sentimentos. Essa era a parte legal: levar doçura e coisas positivas pras outras pessoas.”

Sherazade já sabia que uma história puxa outra e gentileza potencializa gentileza. Luciana chegou em Sydney em 25 de abril depois de ter pedido demissão da empresa onde trabalhou por 7 anos. Desembarcou com duas malas, onde colocou o que sobrou das suas coisas depois de ter vendido quase tudo. Desapego total. Sonho transfomado em realidade. Ela conta sua nova rotina:

“Hoje sou garçonete num restaurante italiano e arrumadeira num hotel, só ando de bicicleta pra cima e pra baixo e nunca mais usei um salto alto. Se eu sinto falta da vida corporativa? Às vezes, sim. Mas aprendo mais sobre a vida aqui, servindo mesas e limpando privadas, do que estava aprendendo sentada no escritório na frente de computador. Não tenho mais crachá e nem salário fixo. Tenho liberdade, tenho segurança e muitas oportunidades de me reinventar quando eu quiser. Tenho uma nova página, em branco, pra escrever todos os dias. E tenho um objetivo: conseguir um sponsor pra poder pedir o visto de residência permanente na Austrália. Quando esse dia chegar (e ele VAI chegar), vou escalar a Harbour Bridge. Meu último medo – o de altura – vai acabar ali. Essa é a minha história. Vou continua sonhando, planejando e realizando.”

O meu PE e a Lua de Sangue

Vi a lua de sangue pela primeira vez e ela mexeu comigo. Ela foi se transformando, se tingindo, minuto a minuto. Deixou de ser a luz doce dos namorados. Virou um símbolo de vida e de morte. De transformação. De relatividade. Saber que ela só se repetirá em 2033 e pensar que posso não mais estar aqui para vê-la, me deixou ainda mais reflexiva. Farei 50 anos daqui 30 e poucos dias. Que lua eu serei se reencontrar a Lua de Sangue? Que projetos terei feito? Que histórias terei contado? Darei conta de iluminar meu filho até a idade adulta? Darei conta de guiar meus pais até a luz eterna?

Essas e outras perguntas, ainda mais particulares, me acompanharam enquanto eu admirava a Lua de Sangue. Tive a chance de vê-la porque estava na minha Capela e a noite era clara, com pouquíssimas nuvens. Desligamos as luzes do jardim e da piscina e cada um foi achando o seu canto. Deitei em uma espreguiçadeira. No início, em companhia. Depois fiquei só. Eu a lua, o sangue e a música. Foi quando percebi que era momento de aproveitar o ensejo para planejar. Decidir o que eu quero fazer da vida até o próximo eclipse. Resolver que passos vou dar para, se chegar até lá, poder dizer, de novo, que valeu a pena.

Começo hoje, portanto, o meu Planejamento Estratégico da Lua de Sangue. Vou desenhar metas de curto, médio e longo prazo para tentar reencontrá-la em 2033. Começo hoje também a fase 2, a missão, do projeto A Vida Sem Crachá. A proposta é seguir contando histórias de transformação e de planos A, B, C e Z. Construir um abecedário de ideias que possam ser úteis e inspiradoras. Aproveito para, de cara, pedir ajuda. Tem uma história bacana, me conta. Conhece alguém que fez um triplo mortal carpado e mudou de vida? Me dá a pista, que vou atrás. Se tudo der certo, no ano 1 do meu PE da Lua de Sangue, lanço mais um livro da série A Vida Sem Crachá. Porque dá para viver sem ele, mas sem felicidade (e um pouco de dinheirinho) não.

Os planos B de Belisário

Os planos B do Belisário

 

Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

 

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

 

Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Batista. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

 

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma emprea concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

 

– Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

 

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

 

  • Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.

 

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

 

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

 

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

 

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

 

–“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

 

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

 

  • “Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

 

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

 

  • “Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

 

 

Belisário é um empreendedor. Nato. Não cursou escola de economia, muito menos administração. Não conhece a Endevor, nem a Fundação Getúlio Vargas. Sabe mais ou menos que existe um tal de Sebrae, mas nunca pensou em fazer um curso. Belisário é empírico, trabalhador e muito, muito gentil. Já fez de um tudo na vida. Nasceu na Paraíba e mudou-se jovem para a Bahia. Dirigiu caminhão, ônibus e trator. Teve oficina mecânica e com os rendimentos dela criou os três filhos, dois homens e uma menina. Tem duas casas próprias. Mora em uma e da outra recebe aluguel. Alugar coisas faz parte das listas de planos B do cara. Ele é craque.

Belisário é avô e aposentado. Quando largou a graxa da oficina mecânica, comprou a licença de um táxi. Isso foi muito antes do Uber e do aplicativo 99. Como acorda cedo e dorme tarde nunca dispensa corrida. Pode ser às seis da manhã ou às duas da madrugada. Dia de feriado ou véspera de Réveillon. Chega sempre, pontualíssimo. Faz traslados das praias do litoral norte de Salvador para o aeroporto. Para ele, não tem tempo ruim, nem viagem longa. Em casos de emergência, é ponta firme. Já levou viúva para velório do marido. Executivo com medo de avião para cidade com aeroporto. Criança pequena para casa da avó no interior.

Cada vez que liga o carro fatura, em média, R$ 100. De nota em nota, vai enchendo o seu pé de meia. Já comprou outros dois táxi, que arrenda para seus parentes. Plano B2 do seu plano A. E como tem garagem sobrando em casa, arrumou outros dois veículos para alugar por dia, sem burocracia, sem seguro pesado, na base da confiança. Tem um bugre amarelo fofo e um outro sedan, novinho e sofisticado, com ar, trio elétrico e outras modernidade.. “É plano C”, diz Batista. “O dinheiro não é seguro e certo, porque nem sempre tenho cliente. Mas acho que rende mais do que seu eu deixasse o dinheiro no banco”, analisa.

Belisário também é pescador. Quando não está rodando, estaciona o carro na beira da praia e corre atrás de peixe. Plano D, porque não? Mas peixe ele não vende, não. Dá de presente para os amigos. Gentil e contador de histórias, Belisário tem uma penca de amigos. Todo mundo gosta e confia nele. Por causa da disposição, da gentileza e da confiança, todo mundo procura Belisário em situações especiais ou de emergência. Foi assim no mês passado, quando um funcionário de uma grande montadora de Camaçari recebeu uma proposta de trabalho. O convite era para trabalhar em uma emprea concorrente no Paraná. Salário bom, promoção de cargo e desafio novo. Estava tudo certo para o José fazer a mudança. O único problema era o cachorro Prego, velhinho coitado. José achou que ele não aguentaria uma viagem de avião, trancado na gaiola dentro da área de carga.

– Ele é muito apegado. Gosta demais de gente. Precisa de carinho. Por favor, Belisário, quebra essa para mim? Leva o Prego de carro para Curitiba?

Foi assim em tom de súplica que José contratou o serviço com o seu fiel motorista. Belisário, claro, não negou. Especialmente depois de saber qual seria o pagamento.

“Você foi muito bom para mim nestes anos em que morei aqui e agora fará um grande favor para a minha família. Vou te pagar bem. Para levar o Prego até Curitiba te darei o meu carro Gol de presente. Sou o único dono. Ele é 2004, mas parece novo.”

Os olhos de Belisário brilharam. Além de ser um homem bom, é um homem de negócios. A oferta era irrecusável. O carro deveria valer uns R$ 10 mil e, no mais, transportar animais de estimação poderia ser um serviço novo na sua lista de planos B.

Belisário aceitou de pronto, feliz. Começou a organizar a viagem de Prego. Jeitoso, construiu uma caixa para o bicho ficar confortável durante os 2362 quilômetros da viagem. Convidou seu irmão, Bento, para ir junto e lhe fazer companhia. Fariam o trajeto em dois dias, parando no meio do caminho para dormir. Estava tudo certo até a antevéspera do passeio-serviço. O negócio melou na hora do Jornal Nacional, quando Maju, a moça do tempo, anunciou a temperatura na capital do Paraná.

“Nesta semana, os termômetros por lá não passam de 12 graus”.

“Doze graus? Eu não aguento esse frio, mulher”, disse Belisário, em pânico, à esposa que assistia o noticiário ao lado dele. “Vou morrer congelado. Não sou pinguim. Preciso arrumar um plano B já.”. Mestre no assunto, Belisário catou o celular e começou a ligar. Falou com um, falou com o outro até ter a ideia de convidar um sobrinho para acompanhar seu irmão. Não podia dar bandeira do motivo. “Vão me achar frouxo”, pensou. Com a proposta de uma boa gorjeta lá se foi a dupla rumo a Curitiba com Prego em sua casinha caixa na caçamba da camionete.

–“Você não imagina o que aconteceu. Quase perdi o amigo e cliente para todo o sempre”, contou Belisário, esbaforido, quando me buscou no aeroporto em minha última visita à terra Sagrada. “Aqueles dois trapalhões quase perderam o Prego na estrada.”

Curiosa e preocupada, faço silêncio e espero o fim da história que parece conversa de pescador das boas.

“Eles pararam para tomar um lanche na estrada e resolveram abrir a caixa para ver se estava tudo bem com o cachorro. O bicho, assustado, viu a cara daqueles dois estranhos e achou por bem fugir. Deu um olé neles e saiu correndo pelo posto de gasolina. A sorte é que o bicho não foi na direção da estrada, senão estava morto agora. Prego correu para o mato e os dois matutos saíram correndo atrás dele”, ri Belisário. “Imagina você meu irmão, que tem duas vezes o meu tamanho, portanto é muito mais gordo do que eu, correndo atrás do cachorro. Ele quase perdeu o bicho e as calças na carreira.”

Felizmente, deu tudo certo e Prego já está deitado em sua poltrona preferida na casa do novo gerente da Renault. Pergunto para Belisário, como ficou a divisão do dinheiro da venda do carro. Meio a meio?

“Que nada. Meu irmão, além de quase perder o cachorro, demorou tempão para voltar porque parou em São Paulo para conhecer a cidade e depois subiu por Minas Gerais para comprar cachaça e vender aqui no verão. Ou seja, ele passeou um bocado e ainda vai faturar com um plano B só dele. Por isso, paguei os custos do diesel, da dormida, da comida e dei 500 reais para cada. E está ótimo, não está?”

 

 

 

 

 

Uma incrível entrevista de emprego

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Contratei e demiti muita gente em 30 anos de carreira. No caso da contratação, a etapa final é a famosa entrevista de emprego. Aquele momento em que você fica cara a cara com o seu futuro chefe direto ou indireto. Na maior parte das vezes, é decisivo. Se agradar, a vaga é sua. Assim, tipo nocaute. Se não agradar, fica no purgatório da repescagem, tentando ganhar por pontos. Quando contratava, detestava seleções decididas por pontos. Significava que ninguém era suficientemente empolgante, diferente ou brilhante. Por isso, se quiser o emprego, acerte logo um soco de baixo pra cima no queixo do contratador. Deixe o coxinha de quatro e não lhe dê a fatídica oportunidade de perguntar “quantas bolas de tênis cabem em uma piscina”.

Foi o que a Roberta fez comigo. Acho que no começo de 2004. Eu dirigia uma área de edições especiais para a nova classe média, cuidava de duas revistas de televisão semanais populares e também fazia edições customizadas para clientes. Precisava de um repórter e não tinha a intenção de perguntar sobre as bolinhas de tênis. Ela entrou de salto alto agulha, saia preta no corte lápis e camisa branca. Discreta e elegante. Usava os dois primeiros botões da camisa abertos, porque tinha um colo lindo e fazia o tipo diferente. Não era um sílfide e não estava nem aí para esse detalhe. Mas não foi o figurino que me chapou.

Eu que não entendo nada de maquiagem e nem uso (agora posso declarar minha ignorância em praça pública) fiquei espantada com o modo perfeito com o qual Roberta passava delineador em seus olhos. O traço era equilibrado. Sem borrões. Os olhos dela ficaram ainda mais inteligentes e o discurso que ela fazia mais crível. Tinha estudado jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina. Para isso, tinha deixado a cidade do interior onde nascera e havia se aventurado na capital. Sozinha? Não, com a filha pequena, Gabriela, fruto de um amor de adolescência.

Neste momento, confesso aqui, contratei Roberta. Amigos de RH, me perdoem. Após essa resposta, eu, que já estava gostando da moça, levei meu direto no queixo. Era diretora de redação, tinha 38 anos, 20 de carreira, e estava quebrada ao meio por causa da dificuldade de conciliar o meu trabalho com a maternidade do meu Chico, então com 1 anos e alguns meses. Aí me aparece uma guria, de 20 anos, do interior de Santa Catarina, inteligente, articulada, disposta, bem vestida, mãe de uma garotinha e ainda capaz de passar um delineador impecável. Era muito para uma segunda-feira.

Trabalhamos juntas por quase dois anos. A vida dela não era fácil comparada com a minha. Salário curto. Jornada longa. Desafios absurdos. Sem babá, sem marido e sem estrutura. Roberta trabalhava muito. Pegava todos os frilas. Eu deixava porque me via nela. Havia sido uma pirralha hiperprodutiva no início da carreira. Mas não tinha filho, o que deixava tudo mais fácil.

Um dia, Roberta pediu para ir embora. Um gestor de RH rigoroso diria que eu contratei mal. Discordarei respeitosamente e absolutamente. Ela era um gênio e por dois anos tivemos um gênio trabalhando em nosso time. Ela voltou para Floripa, reorganizou a vida, capitalizou, pensou, criou e um dia voltou. Disse adeus ao crachá, bem antes do que eu. Com amigos, montou uma editora, a Mol, que se especializou em fazer projetos customizados. Só que uma pegada diferente, com foco e pé na economia sustentável e solidária. Em 2008, eles lançaram a revista Sorria, patrocinada pela Droga Raia e por seus clientes, que ao comprar um exemplar faziam uma doação para o Craac (grupo de apoio ao adolescente e criança com câncer).

Por que decidi contar tudo isso? Porque hoje fui na Drogasil comprar um remédio para uma hóspede e encontrei a edição de agosto da revista Todos, a segunda revista customizada da Mol, criada pela Roberta. O tema da edição é “Eu venci” e bem lá na página 18 tem uma foto linda minha, segurando duas flores com o título: “Entendi que o fracasso pode ser uma oportunidade de aprendizado”. A matéria carinhosa fala da minha experiência recente no contexto de uma pauta muito atual e oportuna: a reinvenção. Histórias de cinco pessoas que depois de um tombo, de um susto, uma fatalidade conseguiram florescer.

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Só podia ser obra de uma moça como a Roberta, agora mãe de outra linda bebê chamada Serena, que até hoje passa delineador nos olhos como ninguém.

Meus amigos são a minha cauda longa

 

Hoje recebi um zilhão de mensagens carinhosas de pessoas queridas comemorando o dia do amigo. Sou chata e odeio essas datas. A que eu mais detesto é o dia da Mulher, que me lembra que eu sou igual ao Mico Leão Dourado em termos de fraqueza e fragilidade políticas, apesar de pertencer ao gênero mais populoso do mundo. Hoje passei o dia pensando sobre o significado de “cauda longa”, o tal do mercado diversificado e de nichos, e de como só pensei em ter uma quando a necessidade falou mais alto. Agora, a poucos minutos de amanhã, tive uma luz. Melhor, vi uma luz. Os amigos foram e são a minha cauda longa, sempre. Vou explicar.

Vamos aos fatos. A pousada A Capela, meu dileto plano A, inaugurou há dois anos e meio com 100% de ocupação graças à reserva de amigos, que serviram de apoio e esteio e foram legítimas cobaias. João, Georgia, Vanessa, Juju, Patrícia e Cida sobreviveram a nossa inexperiência e nos ajudaram a melhorar muito. Eram queridos. Eram nichados. Depois deles, vieram mil outros. São carinhosos, verdadeiros e inspiradores. Perdoam nossas falhas. Colaboram com críticas e ajudam ao compartilhar a experiência da nossa hospedagem. Estão por perto sempre no inverno, primavera, verão e outono. Sem eles não haveria nem plano A, B ou C.

Falo disso no meu livro A Vida Sem Crachá, editado pelos também amicíssimos Carol e Kaíke, a ser lançado no dia 25 de agosto na livraria do Shopping Iguatemi de São Paulo, e que dependerá dos amigos para entrar na lista dos mais vendidos. Preciso de todos para superar o medo e o trauma de ficar lá sozinha.

Hoje, no dia do amigo, fechei o meu primeiro trabalho de consultoria em gestão de pousadas. A cliente é uma amiga de mais de 30 anos, Lina, que está acreditando nessa minha nova competência. Sem ela, a cauda longa da minha vida sem crachá seguiria um cotoco. A mesma motivação vem do amigo Nélio, outro companheiro de longa data, que está batalhando por uma palestra em BH para esticar os tentáculos dessa que vos escreve. Consultora e palestrante são a minha cauda particular.

O rabo comprido e vistoso também é um desejo da pousada. Graças a sugestão da minha amiga e sócia Nil, começamos hoje a fazer serviço de transfer do aeroporto para a pousada. E da pousada para o aeroporto. Em breve, teremos um cardápio que incluirá passeio de barco, aluguel de carro e buggy e serviço de massagem e manicure para os hóspedes. Mais moedas no caixa. Mais atenção e dedicação aos clientes.

Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito. Com a ajuda dos meus amigos fotógrafos, Camila, Nellie, André, Fábio e Sérgio, vou reaprender a fotografar no modo digital a partir deste segundo semestre. O foco é, novamente, a cauda longa. Desejo fotografar para os casamentos da pousada a partir de 2016. Um desafio e tanto. Um aprendizado do tamanho do mundo para quem começou a clicar com negativo e cromo e fez um milhar de passageiros. O que é fazer passageiro? Quem tem mais de 45 sabe.

A dois minutos do final do dia do amigo, concluo essa pensata com um verso do Mário Quintana mais popular que chuchu na serra das redes sociais e mais verdadeiro do que a certeza de que me chamo Claudia:

“amizade é amor que nunca morre”.

Já perdi amigos por causa da distância e de mal-entendidos, mas continuo amando-os como ontem. Meus amigos são a cauda que abana de felicidade e prosperidade a minha vida. Obrigada, amigos.