O bolo do sonho da Luciana, direto da Austrália

 

Não sei porque, mas a gente tem a mania de protelar os sonhos. Deixar para amanhã aquilo que poderia fazer ontem. Deixar para depois aquela vontade, aquele desejo mais profundo. Esperar um pouquinho mais. Adiar um segundo só, que acaba virando um minuto, uma hora, um dia, um mês, um ano, uma década, se bobear um século. Fiz isso muitas vezes. Vi amigos fazendo também. A minha geração era bundona. Tinha um apego danado ao mass midia, ao stabilishment, ao mainstream. Quando jovem, até sonhei em jogar tudo para cima e para o lado e mudar para a Europa. Viver na França e lavar prato. Por aqui, Sarney governava um país consumido pela inflação: 363% ao ano. Uma loucura. Um crise, que de tão profunda a gente achava até normal. Fui e voltei. Tinha cinco empregos quando parti. Ganhava 5000 dólares por mês (naquela época tudo era dolarizado), uma fortuna para um pirralha recém-formada de 21 anos. Meu sonho ficou no ar. Quem sabe aos 60, coloco em prática.

O projeto da Vida sem crachá não foi um sonho, mas uma contingência. Deu certo. Agora, a proposta da versão 2, a missão, é contar sonhos que viraram planos B e deram certo. Ou vão dar certo. Ou não. Tanto faz. O que importa é sonhar. A primeira história é da Luciana Rodrigues. Ela é gaúcha. Publicitária. Não é menina, nem representa a geração ypsilone, conhecida também como millenium. Lu tem 38 anos e sonha alto e longe.

Ela conta que até os 36 anos viveu “bela adormecida”. Sonhava mas não sabia direito com o que. Foi casada por 20 anos com homens diferentes, porque costumava engatar um relacionamento longo em outro mais longo ainda. O penúltimo, que durou 6 anos, terminou em 2012. Na sequência, emendou em outro que durou pouco, mas que segundo ela: “me acordou pra vida com um tapa na cara”.

Paft!!!!

“Hoje, olhando pra trás, tenho a sensação que até os meus 36 anos de vida eu dormi ou vivi num estado de semi consciência”, diz Luciana, definindo o seu modo stand by de viver.

A transformação/virada aconteceu, acreditem, nas férias. Luciana viajou em dezembro de 2013 para Sydney, na Austrália, para passar uma temporada de apenas 30 dias com o irmão, que mora lá há oito anos. Era gerente de marketing de uma grande companhia. Ganhava bem. Tinha prestígio. Futuro. Estava com o coração partido. Melhor, despedaçado. Tomara um pé na bunda daqueles. Vamos ouvi-la:

“Cheguei em Sidney no dia 30 de dezembro de 2013, às 21h30 depois de uma viagem longa e cheia de imprevistos. Virei o ano numa festa absurdamente maravilhosa na Ópera House, onde vi os fogos explodirem na Harbour Bridge num cenário de filme. Não sabia se chorava de emoção, de alegria ou se abraçava meu irmão e minha cunhada pra desejar Feliz Ano Novo. Passei o mês de janeiro de 2014 inteiro aqui em Sydney curtindo a cidade, as praias, a vida. Foi intenso. Foi decisivo.”

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As férias terminaram e Luciana voltou para o Brasil. Estava decidida. Em 3 de fevereiro, dia do seu aniversário, a executiva voltou ao trabalho e revelou à chefe sua decisão. Em um ano, deixaria a empresa para morar na Austrália. Ahh?

“Nunca antes na história da minha vida tinha planejado alguma coisa, tudo sempre foi acontecendo pra mim de um jeito ou de outro. Planejei minha mudança para a Austrália, coloquei tudo no papel, listei as razões pelas quais ia deixar minha boa vida em Porto Alegre e viria pra cá. O grande objetivo era me desafiar porque a vida na capital gaúcha era boa, mas era entediante. Meu trabalho, apesar de ser invejado por muitos, não me oferecia nenhuma oportunidade de crescimento à médio prazo. Eu queria mais, muito mais. Queria frio na barriga, medo, incerteza, desafios, queria saber os meus limites e quem eu sou de verdade. E achei que não iria conseguir esse pacote completo no Brasil. Então, comecei a executar o plano. Pra praticar mais o meu inglês, decidi virar hostess do CouchSurfing, um programa de hospedagem, e recebi muito gringo em casa. Foi a melhor coisa que fiz na vida. Conheci muita gente legal, me conheci através deles e hoje tenho amigos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Decidi também ser voluntária na Copa do Mundo e de novo, foi uma experiência incrível.”

Em paralelo às novas experiências, Luciana dedicou-se a juntar todo o dinheiro possível. Precisava comprar as passagens, pagar o curso e sobreviver. Não conseguiu ser transferida pela empresa onde trabalhava. Viajou com visto de estudante. Antes de embarcar, a necessidade de conseguir mais recursos gestou um plano B.

“Em setembro de 2014, percebi que precisava de mais dinheiro do que tinha e comecei a pirar. Tinha que arrumar essa grana. Poderia pedir para o meu pai, mas não quis. O plano e o sonho eram meus. Passei noites em claro tentando achar uma alternativa. Ela veio sem querer. Resolvi assar um bolo de chocolate para levar em uma reunião matutina na firma. Um bolo simples, mas bem gostoso.”

Bingo. Nascia ali um empreendimento. Todos os que provaram o bolo, amaram. Sugeriram que eu fizesse outros para vender. Estava ali a solução para os problemas de Luciana. Criou uma página no Facebook chamada O Bolo do Sonho para vender seus quitutes. Marqueteira, embalou a gula em sua história linda. “Contei que tinha um sonho de morar na Austrália e por isso, estava vendendo bolos pra arrecadar dinheiro. De outubro de 2014 a janeiro de 2015, vendi muitos bolos e consegui o dinheiro que faltava. Muita gente conhecida e desconhecida comprou meu bolo e apoiou a minha história. Pra cada um, eu escrevia um bilhetinho à mão agradecendo a ajuda. E cada vez que eu preparava um bolo encomendado por alguém que também tinha uma história, eu fechava meus olhos e colocava, além dos ingredientes, um pouco da minha energia, dos meus bons sentimentos. Essa era a parte legal: levar doçura e coisas positivas pras outras pessoas.”

Sherazade já sabia que uma história puxa outra e gentileza potencializa gentileza. Luciana chegou em Sydney em 25 de abril depois de ter pedido demissão da empresa onde trabalhou por 7 anos. Desembarcou com duas malas, onde colocou o que sobrou das suas coisas depois de ter vendido quase tudo. Desapego total. Sonho transfomado em realidade. Ela conta sua nova rotina:

“Hoje sou garçonete num restaurante italiano e arrumadeira num hotel, só ando de bicicleta pra cima e pra baixo e nunca mais usei um salto alto. Se eu sinto falta da vida corporativa? Às vezes, sim. Mas aprendo mais sobre a vida aqui, servindo mesas e limpando privadas, do que estava aprendendo sentada no escritório na frente de computador. Não tenho mais crachá e nem salário fixo. Tenho liberdade, tenho segurança e muitas oportunidades de me reinventar quando eu quiser. Tenho uma nova página, em branco, pra escrever todos os dias. E tenho um objetivo: conseguir um sponsor pra poder pedir o visto de residência permanente na Austrália. Quando esse dia chegar (e ele VAI chegar), vou escalar a Harbour Bridge. Meu último medo – o de altura – vai acabar ali. Essa é a minha história. Vou continua sonhando, planejando e realizando.”

Uma semana do trabalho de Deus

“Eu assistia às novelas da Globo, todas, para poder ver o Rio de Janeiro. Era apaixonado pela cidade, sua paisagem, sua história. Um dia decidi que ia partir.”

Estou comendo sozinha, tomando o café da manhã, quando ouço a conversa. Me interesso e presto atenção. José, 45 anos, fala com uma mulher sentada na mesa ao seu lado. Têm amigos em comum e estão no dia seguinte de uma feliz festa de casamento. À medida que fala, José se anima. Começa a discursar mais alto e levanta da cadeira. Impossível não prestar atenção. A história é incrível.

“Eu tinha apenas 20 anos e morava em Salvador. Briguei feio com a minha mãe, que não aceitava a ideia da minha aventura. Eu ia com um amigo para o Rio, apenas para conhecer a cidade. Fiquei amigo de uns motoristas de uma transportadora. A proposta era pegar uma carona. No dia de partir, meu amigo da onça deu para trás. Falou: “Zé, não vou mais”. Me retei. Como que ele destrói meu sonho do dia da largada? Juntei minhas coisas na mochila e fui sozinho para transportadora. Consegui uma carona até Governador Valadares, que é quase o meio do caminho.”

Nesta altura a conversa, José fala como se palestrasse em um TED. De pé, desenvolto, descreve as emoções com a mão. Faz pausas. Se emociona com seu próprio passado. “Nesta primeira parada, tratei de arrumar um jeito de comer. Estava morto, mas morto de fome. Tinha apenas uns trocados no bolso e o sonho de conhecer a Cidade Maravilhosa. Me aproximei de um grupo de caminhoneiros. Eles comem, muito, sabe? Sempre que sobrava comida, eles deixavam o prato para os cachorros. Não me fiz de rogado. Ficava ali rondando e roubava a boia dos cachorros.” José ri de sua fome. Toma, de pé mesmo, um gole de café e morde um sanduíche gordo de queijo e presunto. Parece estar se vingando daqueles dias difíceis.

“Eu precisava seguir em frente. Aceitei outra carona até Petrópolis. Pouco antes de chegar à Cidade Imperial, o motorista viu uma moça bonita na estrada, freou o caminhão e me mandou descer. Fiquei ali, parado, no meio no nada. Decidi seguir na rodovia. Fui descendo à pé. Andei bem uns 30 quilômetros. Sabe o que me salvou?”

A pergunta fica parada no ar. A plateia do café da manhã nem morde o pedaço de melancia para não estragar o clima. “Foi a desgraça alheia”, diz José. O baiano, hoje casado e pai de uma menina de oito anos, abraça as duas com carinho antes de continuar a conversa. “Aquela estrada é cheia de curvas. Estava andando quando vi um conversível a toda velocidade. Ele cortou a curva e não conseguiu voltar à pista. Seguiu reto para dentro do mato. A sorte do playboy é que naquele pedaço não tinha precipício. Corri perguntar se ele estava bem. Tinha apenas uns cortes. Pediu minha ajuda e eu dei.”

Graças ao Zé que ajudou-o a tirar o carro do matagal, o playba conseguiu seguir viagem. E foi justo e generoso. Levou o andarilho consigo. Zé fedia e tinha fome. Mas, maior do que esses dois tormentos era a vontade de chegar logo ao Rio. “Pedi para ele me deixar na rodoviária Novo Mundo. Ele ofereceu comida, ofereceu dormida e banho. Recusei. Só queria chegar. Descemos a serra voando. Ao estacionar na rodoviária, ele me deu uma nota de 5, não lembro mais qual era o dinheiro. Pude comer e tomar banho”.

Como milhares de migrantes, nos primeiros dias de capital, José fez da rodoviária seu pouso. Passeava pelas ruas de dia e dormia lá à noite. Dormir era fácil. Difícil era comer. Um dia, com o estômago fazendo passeata nas costas, ele se aproximou de um ambulante para ver se conseguia ajuda. “Me ofereci para fazer qualquer trabalho em troca de um lanche e um suco. O cara vendia frutas e fichas telefônicas. Pobre ainda usava orelhão. Celular era coisa de trilhardário. Ele me olhou de cima abaixo e falou: ‘toma aqui esse dinheiro. Cuida da banca para mim, que eu vou buscar mais mercadoria’. Me entregou o maço de notas e saiu. Não acreditei. Que maluco era aquele que confiava em um desconhecido com cara de faminto? Fiquei lá e vendi o máximo que pude. Precisava agradar. Precisava mostrar serviço.

Quando ele voltou com mais mercadoria, eu estava com o bolso cheio de dinheiro. Ele ficou feliz e me levou para a casa dele. No caminho perguntei porque ele havia confiado em mim. A resposta dele, senhor Amaro, é lição para mim.

“José, eu já vi de tudo nessa vida. Uma das coisas que aprendi cedo foi saber, à primeira vista, se a pessoa é honesta ou não. Estava e está escrito na sua cara que você é um homem honesto e trabalhador. Vamos para casa, comer e dormir.”

Zé se emociona quando relata essa passagem. Seu olhar transborda gratidão. Ele abraça novamente a filha e a mulher.

Curiosa, pergunto sobre os próximos capítulos. E ri. Faz outra pausa e conta. “Trabalhei com ele alguns meses, aproveitava minhas folgas e andava por toda a cidade. Conheci toda a zona Sul, Corcovado, Pão de Açúcar. Tudo à pé para não gastar dinheiro. Uma lindeza. Depois de um tempo, Amaro me indicou para um trabalho em uma padaria. Aprendi a fazer pães, a atender no balcão, a servir. Sempre fui bom de conversa. Lá conheci um cliente que foi com a minha cara e me indicou para trabalhar em uma empresa que explorava petróleo. Dá para imaginar? Eu, metido com o ouro negro? Comecei de baixo. Fui subindo, estudando muito, trabalhando duro. Em cinco anos, era técnico. Faz 18 anos que trabalho com isso. Ganho muito bem e nunca mais passei necessidade”, conta, agora transbordando orgulho. “Já fui dezenas de vezes para o Rio de Janeiro. Vou de avião. Me hospedo em hotel executivo. Atendo a Petrobras. E continuo achando que é a cidade mais linda do mundo.”

Antes de encerrar a conversa, peço licença para fazer uma pergunta. Ele aceita, de pronto.

“O senhor imaginava que havia tanta solidariedade no Rio de Janeiro?”

Ele para. Olha para o nada por alguns segundos e se entrega. “De verdade, não. Por isso essa aventura foi tão importante para mim. Mudou minha vida. Acredito no ser humano. Acredito na bondade. Acredito na generosidade. Assim como o Amaro também aprendi a separar o joio do trigo. Ando na rua sempre com algum dinheiro para ajudar quem está precisando. De longe eu vejo, analiso. É muito difícil eu errar. Ajudar o próximo é o mínimo que eu posso fazer para devolver ao Universo, a Deus, o bem que Me fizeram”, conclui. Toma mais um gole de café e pede licença. “A conversa foi boa, mas precisamos pegar a estrada. Foi um prazer.”

 

A música que toca na sala é do Gilberto Gil. Soa como a perfeita trilha sonora de um instante. Exemplar. Mágico.

 

A raça humana é

Uma semana

Do trabalho de deus

A raça humana é a ferida acesa

Uma beleza, uma podridão

O fogo eterno e a morte

A morte e a ressurreição

A raça humana é o cristal de lágrima

Da lavra da solidão

Da mina, cujo mapa

Traz na palma da mão

A raça humana risca, rabisca, pinta

A tinta, a lápis, carvão ou giz

O rosto da saudade

Que traz do gênesis

Dessa semana santa

Entre parênteses

Desse divino oásis

Da grande apoteose

Da perfeição divina

Na grande síntese

A raça humana é

Uma semana

Do trabalho de deus

A raça humana é

Uma semana

Bom dia.